"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 6 Você Só Me Quis Quando Eu Fui Embora
Capítulo 6
Você Só Me Quis Quando Eu Fui Embora
Aluguei uma quitinete no bairro Rebouças.
Tinha trinta metros quadrados, uma janela pequena e uma infiltração perto da cozinha. Mesmo assim, quando o corretor colocou a chave em minha mão, senti algo que nunca experimentara na mansão do Morumbi.
O lugar era meu.
Ninguém poderia me mandar dormir no depósito para acomodar um hóspede mais importante.
Desfiz a mala naquela noite. Havia poucas roupas, um caderno de trabalho e uma fotografia antiga de minha mãe. No fundo, encontrei outro broche de prata, o par daquele que ficara na fazenda.
Guardei-o numa gaveta.
Meu novo número só fora enviado a Rosa.
Ela ligou antes da meia-noite.
"O que você fez? A festa foi interrompida. A empresa disse que você pediu demissão, e a senhorita Valentina desapareceu diante de todos."
Sentei-me na beirada da cama.
"Mãe, Valentina está grávida. O filho é meu."
Do outro lado, o silêncio durou tanto que pensei que a ligação caíra.
"Ela já resolveu isso?"
"O que quer dizer?"
"Você sabe o que quero dizer. Ela vai interromper a gravidez?"
Fechei os olhos.
"Também é meu filho."
"Gabriel, você destruiu a aliança de duas famílias! O senhor Augusto está furioso. Dona Beatriz mal consegue olhar para mim. Antes de isso ser resolvido, não me procure."
"Mãe..."
A ligação terminou.
Fiquei sentado no escuro, ouvindo a chuva bater na janela.
Eu acreditara que partir seria a parte mais difícil. Estava enganado.
O pior era descobrir que, para todos ao meu redor, aquela criança não era uma vida. Era um problema a ser eliminado, escondido ou negociado.
Na manhã seguinte, fui a uma clínica particular para repetir meus exames. O estômago ardia desde o jantar dos Ferraz, e eu mal conseguia manter água no corpo.
O médico examinou os resultados.
"Você apresenta sinais de sangramento digestivo. Precisa de investigação e repouso. Tem alguém que possa ficar com você?"
Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Ele empurrou uma solicitação pela mesa.
"Faça os exames hoje. Se a dor aumentar, vá direto ao pronto atendimento."
Saí da clínica, comprei os medicamentos e comecei a procurar emprego pelo celular. Eu tinha experiência suficiente para reconstruir minha vida. Precisava apenas aprender a usá-la em meu próprio benefício.
Em São Paulo, Valentina passou um dia inteiro controlando o desastre público do noivado.
Henrique exigia uma nova data. Sônia ameaçava acusar a família Albuquerque de quebra de acordo. Beatriz dizia que a filha arruinara a reputação construída por gerações.
Valentina respondeu com uma única nota oficial: a cerimônia estava suspensa por decisão pessoal da noiva.
Depois entrou no escritório do avô.
Augusto Albuquerque atirou uma xícara contra a parede.
"Você abandonou os Ferraz diante da imprensa por causa de um funcionário?"
"Não foi por causa de um funcionário."
"Então por quê?"
Valentina colocou o laudo sobre a mesa.
"Gabriel é o pai do meu filho."
O rosto do velho não se alterou, mas seus dedos pararam sobre o braço da cadeira.
"Quem mais sabe?"
Valentina sentiu náusea.
Nem uma pergunta sobre ela. Nenhuma preocupação com a criança. Apenas controle de danos.
"Isso não lhe diz respeito."
"Tudo o que ameaça esta família me diz respeito."
"Gabriel não é uma ameaça."
"Um homem ressentido, filho de uma empregada, carregando informações sobre o grupo? Ele é exatamente uma ameaça."
Valentina se inclinou sobre a mesa.
"Se alguém tocar nele ou em Rosa, eu torno pública cada pressão que esta família fizer."
Augusto estreitou os olhos.
"Você nem sabe onde ele está."
Ela saiu sem responder.
Usou registros da passagem comprada antes da demissão e o contato emergencial informado à clínica. No fim da noite, descobriu que Gabriel estivera em Curitiba.
Dirigiu por quase seis horas.
Quando voltou da farmácia, encontrei uma mulher parada diante da porta de minha quitinete.
Valentina estava sem casaco, com os cabelos desfeitos e os olhos vermelhos. Nunca a vira tão distante da imagem impecável que exibia ao mundo.
Parei no corredor.
"Como encontrou este endereço?"
"Isso importa?"
"Importa para mim."
Ela respirou fundo.
"Usei o cadastro da clínica. Foi errado. Mas eu precisava encontrar você."
Pelo menos não mentiu.
Abri a porta apenas o suficiente para entrar, mas ela colocou a mão no batente.
"Você foi embora sabendo que estou grávida."
"Eu tentei falar."
"Poderia ter mostrado o laudo."
"E você poderia ter dito a verdade sobre aquela noite."
Valentina empalideceu.
"Eu me lembro."
"Agora se lembra."
"Sempre me lembrei."
A confissão atravessou o corredor.
"Eu estava consciente, Gabriel. Sabia que era você. No dia seguinte, fiquei com medo do que aquilo significava e fingi que não tinha acontecido. Quando você perguntou, menti."
Soltei uma risada sem humor.
"Então não foi esquecimento. Foi covardia."
"Foi."
"Volte para São Paulo."
"Não sem conversar."
"Henrique deve estar esperando."
"O noivado foi suspenso."
Meu coração reagiu, mas eu não permiti que aquela notícia decidisse por mim.
"Você deixou uma cerimônia. Ainda não significa que escolheu uma vida diferente."
"Eu quero esta criança."
"Você quer a criança ou quer impedir que eu desapareça?"
Valentina deu um passo para perto.
"Quero vocês dois."
"Por quê? Porque seu café veio errado hoje? Porque ninguém lembrou do remédio?"
Ela fechou os olhos por um instante.
"Eu mereço isso."
"Não se trata do que você merece. Trata-se do que eu não aceito mais."
Repeti, palavra por palavra, o que ela dissera ao telefone.
"Você me deu um remédio e evitou que eu bebesse uma taça. Eu comecei a imaginar coisas que não deveria. Lembra?"
Os olhos de Valentina se encheram de uma dor que antes eu teria feito qualquer coisa para apagar.
"Lembro."
"Pois eu não imaginei nada. Mas também não vou transformar um filho em licença para você me possuir."
Tentei fechar a porta.
Ela não forçou a entrada. Apenas retirou a mão.
"Está bem. Não vou obrigá-lo a me receber. Mas preciso saber se você está bem."
"Passei três anos sem que perguntasse isso de verdade. Posso sobreviver a mais uma noite."
Dei um passo para trás.
Uma dor aguda rasgou meu estômago.
A parede pareceu inclinar-se. Soltei a sacola da farmácia e tentei me apoiar, mas minhas pernas cederam.
Valentina atravessou a porta antes que eu atingisse o chão.
"Gabriel!"
Acordei no pronto atendimento com uma agulha no braço e o gosto metálico do sangue na boca.
O médico explicou que o sangramento exigia internação e exames complementares.
Valentina permaneceu ao lado da cama enquanto eu assinava os formulários.
Quando uma enfermeira perguntou qual era sua relação comigo, ela hesitou.
"Sou a mãe do filho dele."
Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.
Mais tarde, ouvi-a falando ao telefone no corredor.
"Não me interessa o que Henrique contou à imprensa. Cancele todos os compromissos."
Uma pausa.
"E avise ao meu avô: ninguém vai pressionar Gabriel. Quem tocar nele ou em Rosa estará comprando uma guerra comigo."
Quando voltou, sentei-me com cuidado.
"Valentina, preciso de uma resposta honesta."
Ela ficou diante da cama.
"Se eu não tivesse pedido demissão... se continuasse ao seu lado, organizando seu noivado e cuidando de Henrique... você estaria aqui agora?"
Seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra veio.
A falta de resposta foi mais clara do que qualquer confissão.
"Você não sentiu minha falta enquanto eu estava ao seu lado", falei. "Só entrou em pânico quando perdeu o direito de me dar ordens."
"Não é tão simples."
"Então descubra o que é antes de chamar isso de amor."
Batidas secas interromperam a conversa.
A porta se abriu.
Otávio Nunes, o administrador mais antigo da família Albuquerque, entrou acompanhado de dois homens de terno.
Seu rosto permaneceu impassível.
"Senhor Duarte, peço que venha conosco para São Paulo."
Valentina se colocou entre ele e minha cama.
"Ele não vai a lugar nenhum."
Otávio não olhou para ela. Manteve os olhos em mim.
"Dona Rosa está na propriedade do senhor Augusto. Seu emprego, sua moradia e todos os direitos previstos para a aposentadoria serão revistos esta noite."
Meu sangue gelou.
Ele ajustou os punhos da camisa e concluiu:
"Seu avô mandou avisar que, se o senhor não voltar agora, sua mãe arcará com as consequências."
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