"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 5 A Noiva Que Abandonou o Próprio Noivado
Capítulo 5
A Noiva Que Abandonou o Próprio Noivado
Valentina reconheceu o broche no mesmo instante.
Ela mesma o entregara a Gabriel, dois anos antes, depois que ele salvou uma negociação que poderia ter custado milhões ao grupo.
"Onde encontrou isso?", perguntou.
"Na suíte do corredor leste. Naquela noite de chuva, o senhor Duarte pediu que ninguém a incomodasse. Ele saiu sozinho pela manhã."
As vozes ao redor pareceram se afastar.
Fragmentos da tempestade voltaram com uma clareza brutal.
Gabriel trocando a toalha fria sobre sua testa. A luz de emergência no quarto. O instante em que a febre cedeu e ela o encontrou preparando-se para partir.
"Não vá."
Ele tinha se aproximado, preocupado.
"Você sabe quem sou?"
"Gabriel."
Ela sabia.
Também se lembrava do que aconteceu depois.
Na manhã seguinte, sentira medo. Não da noite, mas do que desejara enquanto estava plenamente consciente. Gabriel era o filho da governanta. Ela era a mulher que o empregava e cuja família sustentara a dele por anos.
Então fizera o que sempre fazia diante de algo que não conseguia controlar: enterrara sob trabalho e silêncio.
Quando ele perguntou por telefone, ela mentiu.
Não para protegê-lo.
Para proteger a si mesma.
"Doutora?", chamou a nova assistente. "A cerimônia começa em cinco minutos."
Valentina apertou o broche na palma.
O telefone corporativo de Gabriel vibrou sobre a mesa. A assistente o desbloqueou para verificar o alerta.
"Parece ser uma mensagem da clínica."
Valentina tomou o aparelho.
O lembrete informava que seus exames apresentavam resultado positivo para gestação e recomendava consulta obstétrica imediata.
Por alguns segundos, ela deixou de respirar.
Então ouviu novamente a voz de Gabriel:
Se um dia você descobrisse que está esperando um filho... um filho que não planejou... o que faria?
Ele sabia.
Estivera sozinho na clínica com o laudo nas mãos. Tentara contar, e ela o acusara de imaginar coisas que não deveria.
Valentina ligou para ele.
O aparelho estava desligado.
Ligou outra vez.
Caixa postal.
Henrique entrou na sala acompanhado de Sônia Ferraz.
"Todos estão esperando", disse ele. "Aconteceu alguma coisa?"
Valentina pegou a bolsa e caminhou para a saída.
Henrique segurou seu braço.
"Aonde você vai?"
"Ao aeroporto."
"Nosso noivado começa agora."
Ela puxou o braço.
"Gabriel está indo embora."
O rosto de Henrique perdeu a cor.
"Você vai abandonar cento e vinte convidados por causa do seu assistente?"
"Ele não é apenas meu assistente."
A frase escapou antes que Valentina pudesse medir suas consequências.
Sônia se colocou diante da porta.
"Pense bem. Há jornalistas lá fora. Seu avô, investidores e todo o conselho estão esperando. Se sair agora, humilhará nossas duas famílias."
Valentina olhou para o vestido branco que escolhera sem entusiasmo e para o nome de Henrique impresso no painel do salão.
Depois olhou para o broche em sua mão.
Gabriel organizara cada flor daquela festa. Garantira que nenhuma falha a alcançasse e partira sem lhe causar sequer um minuto de constrangimento.
Até ao desaparecer, ele cuidara dela.
"Adiem a cerimônia", ordenou.
"Valentina!", gritou Henrique.
Do salão, o cerimonialista anunciou que havia um atraso. O murmúrio dos convidados cresceu, e duas câmeras se voltaram para o corredor quando Valentina apareceu com a bolsa na mão.
Augusto Albuquerque avançou para interceptá-la.
"Volte para aquele palco. Seja qual for o problema, Gabriel foi pago para resolvê-lo."
Valentina parou.
Até então, ela também tratara cada sacrifício dele como algo quitado no fim do mês. A frase do avô soou repugnante justamente porque reproduzia sua própria lógica.
"Esse é o problema", respondeu. "Durante três anos, todos nós acreditamos que o salário nos dava direito a tudo o que ele suportava."
"Você vai destruir uma aliança empresarial por causa de um capricho?"
"Se eu subir naquele palco sem saber se Gabriel está seguro, destruirei algo que talvez não consiga recuperar."
Henrique surgiu atrás dela, pálido.
"E o que pretende recuperar? Seu assistente ou o homem que passou uma noite em seu quarto?"
Algumas conversas cessaram. Valentina percebeu os celulares erguidos e a satisfação escondida no rosto de Sônia.
"Não transforme isso em espetáculo", disse ela.
"Foi você quem criou o espetáculo ao me deixar esperando diante de todos."
Valentina retirou o anel que Beatriz lhe entregara naquela manhã e o colocou na mão de Henrique.
"Então não espere."
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
Ela não explicou a gravidez nem pronunciou o nome de Gabriel outra vez. Recusou-se a oferecer aquele segredo às câmeras como pagamento por sua saída.
Ela já atravessava o corredor.
No carro, ligou para o setor de recursos humanos.
"Cancelem a demissão de Gabriel Duarte. Agora."
"Doutora, o desligamento foi protocolado pelo próprio funcionário e validado pelo jurídico. Não podemos revogá-lo unilateralmente."
"Então liguem para ele."
"O número pessoal não atende."
Valentina desligou e acelerou.
Na Marginal Pinheiros, o trânsito parecia uma provocação. Ela tentou o número dezessete vezes.
Em cada chamada, a mesma voz automática respondeu.
Pela primeira vez, Valentina não tinha alguém capaz de abrir caminho diante dela.
Enquanto os carros avançavam centímetros, lembrou-se dos três anos anteriores.
Gabriel esperando do lado de fora de reuniões até a madrugada. Gabriel colocando água e remédio à direita de seu computador. Gabriel descendo do carro na chuva para que ela não molhasse os sapatos.
Nunca pedira aumento. Nunca usara a proximidade para obter favores. Nunca lhe pedira sequer que o tratasse como igual.
Ela interpretara aquele silêncio como satisfação.
Agora entendia que talvez fosse apenas resignação.
Quando chegou a Congonhas, correu até o balcão da companhia aérea.
"Preciso falar com um passageiro do voo para Curitiba. Gabriel Duarte."
"A senhora tem passagem?"
"Não."
"Então não pode acessar a área de embarque. Posso tentar fazer um anúncio, mas não garantimos que ele ainda esteja no terminal."
O nome de Gabriel ecoou pelos alto-falantes.
Nenhum homem voltou.
Valentina correu até o setor de embarque doméstico e mostrou sua identificação a um supervisor.
"Apenas diga a ele que eu descobri. Diga que preciso ouvi-lo."
O homem consultou o sistema e balançou a cabeça.
"O embarque foi encerrado. Não podemos retirar um passageiro do voo sem justificativa de segurança."
"Ele está doente."
"A senhora chamou atendimento médico antes de ele embarcar?"
Ela não soube responder.
Gabriel estivera doente diante dela por dias. Mesmo assim, fora obrigado a cumprir agendas, beber por Henrique e organizar aquela cerimônia.
Agora nem mesmo a verdade poderia abrir o portão que já se fechara.
Valentina encarou o painel.
O relógio marcou quinze horas e um minuto.
Ao lado do número do voo, a palavra mudou.
DECOLADO.
Ela chegara tarde demais.
No avião, mantive a testa encostada à janela enquanto São Paulo desaparecia sob as nuvens.
Meu telefone registrava dezessete chamadas antes de eu desligá-lo.
Eu não sabia que Valentina descobrira o laudo. Não sabia que deixara Henrique diante dos convidados nem que correra até o aeroporto.
Só sabia que, pela primeira vez desde os dez anos, eu estava indo para algum lugar que os Albuquerque não haviam escolhido por mim.
Quando aterrissei em Curitiba, uma chuva fina cobria a cidade.
Comprei um novo chip antes mesmo de deixar o aeroporto.
O número antigo, o cargo e a casa onde nunca tive um quarto verdadeiramente meu ficariam para trás.
Eu também deixaria para trás a mulher que amava.
Porque havia sentimentos que só sobreviviam enquanto a gente aceitava morrer um pouco todos os dias.
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