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"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 4 Eu Organizei o Noivado Dela

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Capítulo 4

Eu Organizei o Noivado Dela

"Não preciso da sua permissão para pedir uma transferência."

Valentina soltou meu braço como se minhas palavras tivessem queimado seus dedos.

Durante três anos, eu jamais falara com ela daquele modo. Sempre antecipara suas ordens, corrigira seus problemas e aceitara suas decisões antes mesmo de ouvi-las por inteiro.

Naquela noite, em meio às caixas do depósito, ela finalmente encontrou uma versão de mim que não sabia controlar.

"É isso?", perguntou. "Você está me castigando por causa do jantar?"

"Não estou castigando ninguém. Só estou escolhendo o que consigo suportar."

"Você quer ir para uma cidade onde não conhece ninguém, assumir um projeto problemático e trabalhar longe da sede enquanto está doente. Isso não é uma escolha racional."

"Talvez seja a primeira escolha verdadeiramente minha."

Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas.

"Eu posso recusar o pedido."

"Pode. Nesse caso, apresentarei minha demissão."

O silêncio que se seguiu pareceu ocupar todo o depósito.

Valentina me olhou como se eu tivesse pronunciado uma palavra em outro idioma.

"Você está falando sério."

"Estou."

Ela se virou, caminhou até a porta e parou sem olhar para mim.

"Se insiste em partir, não vou prendê-lo. Mas há um último trabalho que será feito por você."

"Qual?"

Valentina retirou um envelope creme da bolsa e o colocou sobre uma caixa.

Abri.

O papel grosso trazia dois nomes em letras douradas.

Valentina Albuquerque e Henrique Ferraz.

Celebração de noivado, no sábado seguinte.

Meu peito se contraiu, mas forcei os dedos a permanecerem firmes.

"Parabéns."

Ela não agradeceu.

"Quero discrição, cento e vinte convidados e imprensa apenas na chegada. A lista, o cerimonial, os convites e a comunicação entre as famílias ficam sob sua responsabilidade. Depois disso, discutiremos Curitiba."

Olhei outra vez para os nomes.

Naquela tarde, eu descobrira que Valentina carregava um filho meu. Horas depois, ela me encarregava de organizar a festa em que prometeria a vida a outro homem.

"Henrique já escolheu o traje?", perguntei. "Preciso sincronizar a prova com o ensaio e definir a resposta para os jornalistas."

O rosto dela endureceu.

"Você é sempre muito eficiente."

"Foi por isso que me escolheu."

"Se estiver passando mal, não precisa bancar o mártir."

"Não se preocupe. Vou cumprir meu último compromisso."

Dessa vez, fui eu quem encerrou a conversa.

Nos dois dias seguintes, transformei a dor em planilhas.

Reservei um salão privado na Fazenda Boa Vista, aprovei flores brancas, montei o mapa de lugares e negociei com a assessoria dos Ferraz cada palavra do comunicado oficial.

Henrique queria que o texto chamasse a união de "um reencontro escrito desde a infância".

Valentina não comentou a frase. Apenas assinou a aprovação que deixei sobre sua mesa.

Eu também providenciei um médico de plantão no local. O laudo continuava guardado em meu armário, e Valentina ainda não sabia que estava grávida.

Mais de uma vez, pensei em entrar no escritório e colocá-lo diante dela.

正文1

Mas sempre havia alguém esperando do lado de fora: um diretor, sua mãe, Henrique.

E dentro de mim ainda ecoava a palavra erro.

Na quinta-feira à noite, acessei novamente o portal da empresa.

O pedido para Curitiba aguardava a aprovação final de Valentina.

Retirei a candidatura.

Em seguida, anexei minha carta de demissão ao sistema e enviei uma cópia ao departamento jurídico.

Eu não trocaria uma coleira curta por outra mais longa. Enquanto dependesse do Grupo Albuquerque, ela ainda poderia me chamar de volta com uma ordem.

Na sexta-feira, terminei os últimos documentos do evento.

Entreguei à nova assistente uma pasta com os contatos dos conselheiros, os horários preferidos de Valentina e as regras que ninguém jamais escrevera.

Nada de café depois das quatro. Água sem gás nas reuniões. Se ela tocasse duas vezes no relógio, encerrar o compromisso em cinco minutos. Remédio para o estômago na gaveta direita.

A moça folheou as páginas, surpresa.

"Como conseguiu memorizar tudo isso?"

"Prestando atenção."

"Ela vai sentir sua falta."

Fechei a pasta.

"Sentir falta de uma rotina não é o mesmo que sentir falta de uma pessoa."

À noite, levei o material final à mansão.

Valentina estava no escritório, diante da janela. Sobre uma poltrona, vi o vestido branco escolhido para o noivado.

"Tudo pronto", anunciei. "O cerimonial recebeu o roteiro. A equipe de Henrique chegará às nove. A imprensa terá quinze minutos para fotografias."

Coloquei meu crachá, a chave do andar executivo e o telefone corporativo sobre a mesa.

Ela olhou para os três objetos.

"O que significa isso?"

"Minha carta de demissão já está com o jurídico. Amanhã farei a última passagem do evento e sairei ao meio-dia. Meu voo para Curitiba é às três."

Valentina se virou devagar.

"Você retirou o pedido de transferência."

"Sim."

"E comprou uma passagem sem me avisar."

"Depois de amanhã não serei mais seu funcionário."

Ela pegou o crachá, apertando-o entre os dedos.

"Meu noivado não terá acabado ao meio-dia."

"Meu trabalho terá."

"Você planejou cada minuto dessa fuga, não foi?"

"Planejei minha saída com o mesmo cuidado com que sempre organizei sua vida."

Valentina pareceu querer dizer alguma coisa, mas Henrique a chamou do corredor.

"Valentina, pode ver se o paletó ficou bom?"

Olhei para a porta.

"Ele está esperando."

"Você agora parece ansioso para me entregar a ele."

"Só estou concluindo o que me pediu."

Saí antes que ela encontrasse outra ordem capaz de me deter.

No sábado, cheguei à fazenda às sete da manhã. Conferi as flores, a iluminação, o gerador e os envelopes reservados aos convidados. Às onze e quarenta, entreguei o telefone corporativo à nova assistente.

"Os códigos estão no arquivo protegido. Se houver atraso, elimine o segundo discurso, nunca o brinde do avô."

Ela segurou o aparelho com os olhos marejados.

"Você não vai mesmo ficar?"

"Não."

Peguei minha mala e atravessei o salão.

Valentina acabava de chegar. O vestido branco desenhava sua figura com uma perfeição quase cruel. Henrique descia do carro logo atrás.

Ela viu a mala antes de olhar para meu rosto.

"Você vai agora?"

Entreguei-lhe a última cópia do roteiro.

"Não haverá erros."

"Não foi isso que perguntei."

"Preciso estar em Congonhas com antecedência."

Algo frio atravessou seu olhar.

"Então vá. Mas não espere que eu lhe deseje boa viagem."

Sorri, embora meu peito parecesse aberto por dentro.

"Tudo bem. Desta vez, eu mesmo desejo sorte a mim."

Afastei-me.

Ouvi Henrique chamá-la, mas não virei.

Durante anos, eu sempre olhara para trás, mesmo quando ela não percebia.

Naquela manhã, caminhei até o carro sem fazer isso uma única vez.

Atrás de mim, faltavam dez minutos para o início da cerimônia.

Valentina permaneceu imóvel até o gerente do salão se aproximar com uma pequena caixa de veludo.

"Doutora Albuquerque, encontramos isto na suíte durante uma conferência realizada aqui há dois meses. Acreditamos que pertença ao senhor Duarte."

Dentro da caixa havia um broche de prata em forma de ramo de café.

Eu o usava na noite da tempestade.

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