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"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 3 Um Filho Que Não Deveria Existir

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Capítulo 3

Um Filho Que Não Deveria Existir

Sequei o rosto, endireitei a gravata e saí do banheiro.

Valentina estava no fim do corredor.

Ela não havia voltado para a mesa. Estava esperando por mim.

Por um segundo, meu coração voltou a cometer o mesmo erro.

"Sua aparência está péssima", ela disse.

"É apenas o estômago."

Ela se aproximou e segurou meu pulso. O calor de sua mão fez a lembrança da tempestade atravessar meu corpo inteiro.

"Você estava chorando?"

"Não."

"Olhe para mim."

Obedeci.

Seu rosto estava mais perto do que deveria.

"O que está acontecendo com você?"

Eu poderia contar naquele instante. Poderia perguntar por que ela passara dois meses fingindo que só existia trabalho entre nós.

"Valentina, eu preciso lhe dizer uma coisa."

"Valentina?"

Henrique apareceu à porta da sala de descanso, apoiando uma das mãos no batente.

"Não consigo lidar com todos sozinho."

Os dedos dela soltaram meu pulso.

"Falamos depois", disse Valentina.

"Claro."

Na mesa, outra taça foi empurrada na direção de Henrique.

"Desta vez, o assistente bebe por você", brincou o tio.

Minha mão começou a se mover por hábito, mas parou no meio do caminho.

Eu sempre aceitara. Era isso que esperavam de mim.

Naquela noite, pela primeira vez, tive medo de beber.

"Doutora Valentina, hoje eu não posso."

O silêncio foi imediato.

Ela me encarou.

"Gabriel?"

Henrique ofereceu um sorriso paciente.

"Não o pressione. Eu mesmo bebo."

Quando ele estendeu a mão, Valentina pegou a taça antes.

"Ninguém mais vai beber."

Ela engoliu a dose e colocou o copo sobre a mesa com força.

"A noite acabou."

Ninguém discutiu.

No estacionamento, depois que Henrique entrou no carro, Valentina parou diante de mim.

"O que você queria dizer no corredor?"

Olhei para ela sob a luz branca da garagem.

Talvez ainda houvesse coragem suficiente dentro de mim.

Então Henrique abaixou o vidro.

"Valentina, minha cabeça está girando."

Ela olhou para ele e depois voltou os olhos para mim.

Minha coragem desapareceu.

"Quero a manhã de folga. Preciso fazer exames."

"Por causa do estômago?"

"Sim."

"Envie o resultado para mim. E aproveite para buscar meus exames anuais. A clínica ainda não mandou a cópia física."

"Está bem."

Na manhã seguinte, o gastroenterologista confirmou o que eu já esperava: gastrite, esgotamento e episódios de vômito causados por estresse e má alimentação.

"Se continuar bebendo sem comer, vai acabar internado", advertiu ele.

Saí com uma receita e fui ao balcão buscar o envelope de Valentina.

No corredor, abri apenas para conferir se todos os documentos estavam ali.

Uma linha no laudo fez o barulho da clínica desaparecer.

Gestação intrauterina compatível com aproximadamente oito semanas.

Li novamente.

Oito semanas.

Sentei-me na primeira cadeira vazia.

Minhas mãos ficaram frias. A tempestade não tinha desaparecido com o silêncio. Deixara uma vida crescendo dentro dela.

O telefone tocou.

Valentina.

"Como foram seus exames?"

"O médico disse que preciso descansar."

"É grave?"

正文1

Olhei para o laudo em meu colo.

"Posso fazer uma pergunta?"

"Faça."

"Se um dia você descobrisse que está esperando um filho... um filho que não planejou... o que faria?"

Houve uma pausa.

Então ela soltou uma risada curta, sem humor.

"Gabriel, eu lhe dei um remédio e evitei que você bebesse mais uma taça. Foi o suficiente para você começar a imaginar coisas que não deveria?"

Minha garganta se fechou.

"Não estou imaginando. Estou perguntando sobre aquela noite."

O silêncio do outro lado ficou mais pesado.

"Que noite?"

"A tempestade. Você já estava sem febre. Pediu que eu ficasse. Disse meu nome."

Valentina demorou a responder.

"Lembro que beijei você. Nada além disso com clareza."

Eu sabia que era mentira. A mulher que administrava contratos bilionários podia esconder sentimentos, mas nunca soubera mentir para mim sem fazer uma pausa antes.

"Para você, foi apenas um beijo?"

"Se isso fez você confundir as coisas, eu peço desculpas. Mas não transforme um erro em outra coisa."

Um erro.

Fechei os olhos.

"Entendi. Fui eu que me enganei."

"Gabriel..."

"Preciso desligar."

Guardei o laudo no envelope e voltei para a propriedade.

Minha mãe preparava o antigo quarto para o assistente de Henrique.

"Mãe, preciso falar com você."

Ela se virou e, ao ver meu rosto, empalideceu.

"Não me diga que fez alguma loucura com a senhorita Valentina."

Minha mão parou sobre o envelope dentro do paletó.

"Eu não fiz nada contra a vontade dela."

"Não importa. Gente como nós não sobrevive a um escândalo com gente como eles. Valentina vai se casar com Henrique. Você não pode confundir proximidade com oportunidade."

"E se não for uma confusão?"

"É pior ainda."

Rosa abaixou a voz.

"Os Albuquerque pagaram o hospital de seu pai. Deram estudo a você e trabalho a nós dois. Não manche o nome deles por causa de um sentimento que nunca deveria ter alimentado."

O laudo permaneceu no meu bolso.

Naquela casa, eu não conseguira conservar nem um quarto.

Como poderia acreditar que me permitiriam conservar o direito de ser pai?

Voltei ao depósito e tranquei a porta.

Liguei para a clínica, expliquei que minha companheira descobrira uma gestação e perguntei quais eram os próximos passos caso ela não quisesse continuar.

A médica não ofereceu decisões simples. Disse que Valentina precisava de avaliação presencial, que qualquer conduta dependeria do exame, da legislação e da vontade expressa dela. Também alertou que o laudo indicava fragilidade física e necessidade de acompanhamento imediato.

Depois da ligação, permaneci sentado na cama estreita.

Eu não podia decidir por Valentina. Também não conseguiria continuar ao lado dela, servindo Henrique enquanto carregava sozinho aquele segredo.

Abri o portal interno da Albuquerque Participações.

Havia uma vaga temporária para coordenar um projeto em Curitiba. O responsável deveria assumir em uma semana.

Preenchi cada campo.

Não era uma fuga, repeti para mim mesmo.

Era a primeira decisão sobre minha vida que não dependia da gratidão de minha mãe, das necessidades de Valentina ou das ordens de um Albuquerque.

Cliquei em Enviar.

A confirmação apareceu na tela.

Menos de vinte minutos depois, a porta do depósito se abriu.

Valentina estava no corredor, ainda usando a roupa do escritório. Seu olhar percorreu as caixas, as paredes úmidas e a cama improvisada.

"Por que você está morando aqui?"

Levantei-me.

"Precisava de alguma coisa, doutora?"

Ela ergueu o celular. Na tela, estava minha solicitação de transferência.

"Acabo de receber isto."

"Fui eu quem solicitou."

"Por quê?"

"Quero trabalhar em outra área. Curitiba será uma boa experiência."

"Você está doente."

"Lá não precisarei beber por ninguém."

O maxilar dela se contraiu.

"Está me culpando?"

"Estou dizendo que meu corpo não aguenta mais."

Valentina entrou no depósito. Sua presença fez o espaço parecer ainda menor.

"Eu lhe dou alguns dias de folga."

Por um instante, quase acreditei.

Então ela acrescentou:

"Assim que Henrique estiver instalado e a situação dele na empresa se estabilizar."

Algo dentro de mim finalmente se partiu sem fazer barulho.

"E se ele nunca se estabilizar?"

Valentina ficou imóvel.

"Gabriel, você precisa mesmo ir?"

"Preciso."

Ela me encarou como se não reconhecesse o homem diante dela.

Talvez realmente não reconhecesse. Durante anos, eu fora apenas a pessoa que dizia sim.

Valentina se aproximou, baixando a voz.

"Você pode ter enviado o pedido, mas continua sendo meu assistente."

"Até a transferência ser aprovada."

Ela segurou meu braço.

"Não foi isso que eu quis dizer."

Ergui os olhos para seu rosto.

"Então o que quis dizer?"

Por um segundo, vi alguma coisa vacilar por trás de sua frieza. Medo, talvez. Ou apenas irritação por perder uma peça importante de sua rotina.

Quando falou, sua voz saiu baixa e cortante.

"Quem lhe deu permissão para sair do meu lado?"

 

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