"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 2 O Remédio Estava Quente. As Palavras, Não.
Capítulo 2
O Remédio Estava Quente. As Palavras, Não.
Por um instante, continuei parado com a mala de Henrique na mão.
Então vesti o sorriso profissional que aperfeiçoara durante três anos.
"A doutora Valentina está em uma reunião do conselho. Vou levá-lo diretamente à sede."
No carro, Henrique perguntou sobre cada detalhe da rotina dela. Que horas chegava, onde almoçava, quais noites reservava para compromissos pessoais.
Respondi somente ao que dizia respeito à agenda oficial.
Na Albuquerque Participações, usei meu crachá para abrir o elevador privativo.
Henrique observou o painel.
"Qualquer pessoa pode usar este elevador?"
"A presidente e quem estiver autorizado por ela."
"Então você está autorizado."
"Quando o trabalho exige."
As portas se abriram no último andar.
Valentina saía da sala do conselho cercada por diretores. Ao ver Henrique, a frieza em seu rosto diminuiu.
"Você chegou."
Ele a abraçou com a intimidade de quem nunca precisara pedir permissão para se aproximar.
"Seu assistente organizou tudo perfeitamente."
Valentina chamou a gerente administrativa.
"Providencie para Henrique acesso ao andar executivo e ao elevador. Quando ele vier, não precisará marcar horário."
"Claro, doutora."
Anotei a instrução no celular.
Mais uma porta aberta para ele com uma frase. Eu levara dois anos para receber a mesma autorização e ainda precisava justificar cada uso.
Valentina conduziu Henrique para conhecer os conselheiros. Antes de virar o corredor, porém, olhou para trás.
"Gabriel."
"Sim?"
"Quero o relatório do Projeto Horizonte na minha mesa antes das seis."
"Estará lá."
Voltei ao meu computador.
Quase uma hora depois, uma náusea violenta me obrigou a correr para a copa. Abri a torneira e me inclinei sobre a pia, mas meu estômago estava vazio.
Eu não tomara café da manhã. Na noite anterior, passara da meia-noite transferindo minhas coisas para o depósito.
Joguei água no rosto.
"O que aconteceu?"
Meu corpo enrijeceu.
Valentina estava à porta, segurando uma pasta.
"Nada. Deve ser queda de pressão."
"Você está branco."
"Não vai afetar a entrega do relatório."
"Gabriel."
O tom baixo era pior do que um grito.
Ela desapareceu por alguns segundos e voltou com uma caixa de remédio e um copo de água morna.
Reconheci o medicamento. Eu mesmo mantinha uma caixa na gaveta dela, porque Valentina também sofria com o estômago quando passava muitas horas sem comer.
Quantas vezes eu colocara um comprimido e um copo de água à direita do computador antes que ela precisasse pedir?
Agora era ela quem estendia o remédio para mim.
"Tome."
Meus dedos tocaram os dela.
"Obrigado."
Valentina não saiu.
"Você comeu hoje?"
"Ainda não tive tempo."
"Arrume tempo. Não trabalhe de estômago vazio outra vez."
A ordem foi dita com suavidade suficiente para alimentar todas as esperanças que eu tentava matar.
Engoli o comprimido.
O celular dela tocou.
"Sim, Henrique. Estou indo."
Depois de desligar, Valentina retirou o copo de minha mão.
"Amanhã haverá um jantar na casa dos Ferraz. Você vai conosco."
"É uma reunião familiar. Minha presença talvez não seja apropriada."
"Henrique acabou de voltar e os tios dele estarão lá. Você sabe como esse tipo de jantar funciona. Se tentarem fazê-lo beber, intervenha."
O remédio ainda descia quente pela minha garganta.
As palavras, não.
"Entendido."
Na noite seguinte, cheguei à residência dos Ferraz meia hora antes. Conferi os lugares, os presentes institucionais e o serviço de bebidas.
Henrique me recebeu perto da entrada.
"Você trabalha mais do que deveria, Gabriel."
"É uma noite importante para sua família."
Valentina estava ao lado dele, usando um vestido azul-escuro. Seus olhos foram diretamente para meu rosto.
"Você comeu?"
"Sim."
"Trouxe o remédio?"
"Está comigo."
Henrique alternou o olhar entre nós.
"Valentina parece cuidar muito bem do assistente."
Baixei a cabeça.
"Ela só não quer que eu comprometa a programação."
Valentina me lançou um olhar indecifrável, mas não me corrigiu.
Durante o jantar, um dos tios de Henrique ergueu a taça.
"Então nosso rapaz voltou para assumir o Grupo Ferraz?"
Henrique sorriu sem responder.
Valentina falou por ele.
"É o sucessor natural. O conselho deve reconhecer isso."
O tio riu.
"Defendendo-o desse jeito, você já parece parte da família."
Outras pessoas fizeram comentários sobre casamento. Ninguém pareceu surpreso. Nem mesmo Valentina.
O tio encheu outra taça.
"Já que está defendendo Henrique, precisa brindar conosco."
Vi a tensão no rosto dele. Henrique sempre tivera pouca tolerância ao álcool; a informação constava da ficha que sua secretária enviara.
Antes que Valentina tocasse na bebida, peguei a taça.
"O senhor Ferraz ainda está se adaptando ao fuso. Eu brindo em nome dele."
A cachaça envelhecida queimou até o estômago.
"O assistente é bem treinado", comentou alguém.
Um segundo copo apareceu diante de mim.
Quando estendi a mão, Valentina segurou a borda.
"Chega."
A mesa silenciou.
O tio de Henrique arqueou uma sobrancelha.
"Está com pena dele?"
Por um instante, a mão de Valentina permaneceu sobre o copo.
"Ele tem trabalho amanhã. Não me serve de nada se estiver de ressaca."
A pequena chama que surgira dentro de mim se apagou.
Peguei a taça.
"Não se preocupe, doutora. Conheço meus limites."
Bebi tudo.
O estômago se contraiu, mas mantive a expressão neutra.
Henrique tocou o braço de Valentina.
"Estou um pouco tonto."
Ela se levantou imediatamente.
"Vou levá-lo até a sala de descanso."
Ao passar por mim, falou baixo:
"Vá ao banheiro e se recomponha. Depois volte. Henrique não pode ficar sozinho."
"Claro."
Tranquei a porta do banheiro e me apoiei na pia. Minhas mãos tremiam tanto que o frasco de remédio caiu dentro da água.
Quando mergulhei os dedos para pegá-lo, o frio atingiu meu pulso.
E me levou de volta à tempestade de dois meses antes.
Naquela noite, Valentina voltara de uma viagem com febre alta. Uma queda de energia isolara parte da propriedade, e eu permanecera no quarto cuidando dela até a temperatura baixar.
Já estava lúcida quando segurou meu braço e pediu que eu não fosse embora.
"Olhe para mim", eu disse, porque precisava ter certeza. "Você sabe quem sou?"
"Gabriel."
Ela disse meu nome como nunca dissera no escritório.
Eu deveria ter saído mesmo assim.
Em vez disso, fiquei.
Na manhã seguinte, Valentina vestiu sua armadura habitual e nenhum de nós mencionou o que acontecera.
Durante dois meses, convenci a mim mesmo de que o silêncio poderia apagar aquela noite.
Meu celular acendeu sobre a bancada.
Era uma mensagem dela.
Henrique não está bem. Volte imediatamente.
Segundos depois, chegou outra.
Gabriel, sei que você entende os limites.
Fiquei olhando para aquelas palavras enquanto a água gelada corria sobre meus dedos.
Eu entendia os limites melhor do que ninguém.
O problema era que, naquela noite de tempestade, por algumas horas, Valentina fizera parecer que eles não existiam.
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