"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 1 O Homem Mais Útil da Vida Dela
Capítulo 1
O Homem Mais Útil da Vida Dela
Minha chefe, Valentina Albuquerque, nunca precisou procurar por admiradores.
Eles surgiam sozinhos.
Empresários recém-divorciados mandavam orquídeas para o escritório. Herdeiros de famílias tradicionais inventavam reuniões que poderiam ter sido resolvidas por e-mail. Em festas beneficentes, sempre havia algum homem com sobrenome importante esperando o instante em que ela ficasse sozinha.
Durante três anos, meu trabalho foi garantir que esse instante nunca chegasse.
Eu recusava os convites particulares, devolvia os presentes caros e aparecia com a agenda aberta sempre que alguém confundia educação com interesse.
Naquela noite, em um hotel nos Jardins, um investidor segurou o braço de Valentina quando ela se afastava do salão.
"Só uma última taça, Valentina. Sem falar de negócios."
Antes que ela respondesse, dei um passo à frente.
"A senhora Albuquerque tem uma videoconferência com Londres em vinte minutos. O carro já está esperando."
Era mentira. Ele percebeu. Eu também sabia que ele tinha percebido.
Mas Valentina apenas me entregou a taça intacta e passou por nós.
"Boa noite, senhor Azevedo", disse ela, sem olhar para trás.
Eu a acompanhei até o elevador.
Assim que as portas se fecharam, ela tirou os saltos e os segurou pela ponta dos dedos.
"Londres?"
"Foi a primeira cidade que me ocorreu."
O canto de sua boca se ergueu por menos de um segundo.
Para qualquer outra pessoa, aquilo não teria significado nada. Eu, porém, conhecia cada uma de suas expressões. Sabia quando ela estava irritada pelo jeito como tocava o relógio. Sabia que uma única linha entre suas sobrancelhas significava dor de cabeça e duas significavam que alguém seria demitido.
Também sabia que aquele quase sorriso era o mais perto que Valentina chegava de um elogio.
No mundo corporativo de São Paulo, diziam que havia algo entre nós.
Eu era o único homem que permanecera tanto tempo ao lado dela. Tinha acesso ao elevador privativo, ao calendário pessoal e ao código de emergência do apartamento. Conhecia os medicamentos que ela tomava e quais diretores não deveriam ser colocados na mesma mesa.
Ninguém sabia que, depois de deixar o prédio da Faria Lima, eu voltava para a propriedade da família Albuquerque, no Morumbi, e entrava pelo portão de serviço.
Na sede do grupo, eu era Gabriel Duarte, assistente especial da presidente.
Na mansão, continuava sendo o filho da governanta.
Quando cheguei naquela noite, minha mãe separava roupas na lavanderia dos funcionários.
"Os vestidos da dona Beatriz vão para a lavanderia a seco", ela disse. "E esse é da senhorita Valentina. Precisa estar no quarto dela antes das sete."
Peguei o vestido preto que Valentina usaria na reunião da manhã seguinte.
"Eu levo."
Minha mãe, Rosa, segurou meu pulso antes que eu saísse.
"Gabriel, você trabalha diretamente com ela há três anos. Não deixe isso subir à sua cabeça."
"Nunca deixei."
"É bom mesmo. Seu pai morreu devendo até o último centavo. Foi o senhor Augusto quem pagou o hospital, negociou com o banco e permitiu que nós ficássemos aqui. Não podemos retribuir causando problemas."
Eu conhecia aquela história de cor.
Tinha dez anos quando meu pai morreu. Desde então, cada refeição, caderno escolar e teto sobre minha cabeça vinha acompanhado do mesmo lembrete: nós devíamos tudo aos Albuquerque.
"Eu sei quem sou, mãe."
Ela soltou meu braço.
Levei o vestido até a casa principal. O corredor do segundo andar estava escuro, exceto pela luz que escapava do escritório.
Eu pretendia entregar a roupa a uma camareira, mas a porta se abriu.
Valentina apareceu sem o blazer, com os cabelos presos de qualquer jeito e o cansaço tornando seu rosto menos inacessível.
"Você ainda está trabalhando?"
"Este é o vestido de amanhã, senhorita Albuquerque."
No escritório, ela sempre era doutora Valentina. Na propriedade, diante de sua família, minha mãe insistia que eu usasse o tratamento antigo.
Os olhos dela demoraram um instante em meu rosto.
"Achei que já tivéssemos superado essa formalidade."
Antes que eu respondesse, ela pegou o vestido e apontou para uma pasta sobre a mesa.
"Henrique volta na quinta-feira. Organize tudo."
Henrique Ferraz.
Único filho de uma família dona de um dos maiores grupos de infraestrutura do país. Amigo de infância de Valentina. Havia sete anos na Europa e, segundo as colunas sociais, voltava para assumir os negócios do pai.
Peguei a pasta.
"Quer que eu providencie o desembarque pelo terminal executivo?"
"Sim. Carro, jantar e acomodação."
"Ele ficará no hotel?"
"Aqui. No quarto de hóspedes do terceiro andar."
O único quarto daquele andar ficava ao lado da suíte de Valentina.
Mantive os olhos na pasta.
"Entendido."
"Henrique passou muito tempo fora. Você conhece minha rotina melhor do que qualquer pessoa. Cuide para que ele tenha tudo de que precisar."
"Pode deixar."
Subi para preparar o quarto naquela mesma noite. Conferi os lençóis, as flores, o frigobar e até a marca de água mineral indicada no formulário enviado pela secretária de Henrique.
Eu alisava a última dobra da colcha quando Valentina surgiu à porta.
"Você é rápido."
"É meu trabalho."
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
"Gabriel, você acha que Henrique e eu combinamos?"
Ergui a cabeça.
Seu rosto não revelava nada. Talvez fosse uma pergunta casual. Talvez ela quisesse apenas a opinião do funcionário que analisava todos os riscos antes que chegassem à sua mesa.
Mas eu sabia que havia respostas que um homem como eu não tinha o direito de dar.
"As famílias Albuquerque e Ferraz têm os mesmos interesses. Vocês cresceram no mesmo ambiente."
"Não foi isso que perguntei."
Meu coração bateu com força, embora minha voz permanecesse estável.
"Vocês pertencem ao mesmo mundo."
O olhar dela ficou preso ao meu por tempo demais.
Depois, Valentina se afastou sem dizer nada.
Meu celular vibrou.
Era uma mensagem de minha mãe.
Gabriel, o assistente do senhor Henrique virá com ele. Seu quarto será usado pelo rapaz. Arrume suas coisas e vá para o depósito dos fundos por enquanto.
Li duas vezes.
O quarto onde eu dormia desde a adolescência era pequeno, mas tinha uma janela e uma cama de verdade. O depósito ficava ao lado da antiga garagem, cheirava a umidade e ainda estava cheio de caixas.
Olhei para a suíte que eu acabara de preparar para Henrique.
Então respondi apenas: Está bem.
Na quinta-feira, às três da tarde, eu esperava no terminal executivo de Guarulhos.
Henrique apareceu usando um sobretudo escuro, mesmo no clima ameno, e trazendo o tipo de elegância que parecia ter sido treinada desde o berço.
"Senhor Ferraz, bem-vindo. Sou Gabriel Duarte, assistente da doutora Valentina."
Ele apertou minha mão e me observou por alguns segundos.
"Eu sei quem você é. Valentina fala de você com frequência."
Meu coração cometeu o erro de acelerar.
Henrique sorriu enquanto me entregava a mala.
"Ela diz que você resolve tudo, nunca reclama e é incrivelmente útil."
Útil.
Segurei a alça da mala com mais força.
Durante anos, eu aprendera a aceitar migalhas como se fossem banquetes. Um olhar mais longo, uma pergunta sobre minha saúde, um quase sorriso dentro de um elevador.
Naquele terminal, ouvi pela primeira vez como Valentina me descrevia quando eu não estava presente.
Não como o homem que permanecia ao lado dela.
Não como alguém em quem confiava.
Apenas como uma ferramenta que funcionava bem.
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