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"Seu Amor Chegou Tarde Demais" Capítulo 5 — Viva ou Morta, Eu Vou Encontrá-la

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Capítulo 5 — Viva ou Morta, Eu Vou Encontrá-la

Quando o avião pousou no Recife, a chuva batia nas janelas como punhados de pedras.

Lucas havia passado o voo estudando mapas topográficos enviados por Rafael. Comprara lanterna, cordas, água, alimentos concentrados, um kit de primeiros socorros e um rastreador com sinal de emergência.

Não era socorrista. Era engenheiro estrutural e conhecia terrenos instáveis, cargas, rupturas e os sinais que precediam um colapso. Aquilo não o tornava preparado para uma floresta devastada, mas lhe dava uma chance de não morrer nos primeiros minutos.

Rafael o esperava no centro de operações.

O lugar funcionava dentro de um ginásio municipal. Telões exibiam rios em vermelho, rádios transmitiam pedidos de socorro e famílias molhadas aguardavam notícias em colchões improvisados. Lucas procurou Helena em cada rosto, até Rafael colocar diante dele o capacete arranhado que a equipe encontrara preso numa árvore.

“Era dela”, disse Rafael. “O impacto arrancou o capacete, mas isso também significa que ela estava acima da corrente principal naquele ponto.”

Lucas examinou a lama seca e uma marca de pedra na lateral.

“Ela foi levada para leste. A inclinação empurra tudo para a encosta rochosa, não para o rio.”

Um coordenador confirmou que aquela faixa ainda não fora vistoriada por terra. Os helicópteros não conseguiam enxergar sob a cobertura das árvores.

“Você não vai entrar.”

“Mostre onde ela desapareceu.”

“Há equipes procurando.”

“Equipes que precisam cobrir dezenas de quilômetros.” Lucas abriu o mapa. “Helena procuraria abrigo em terreno elevado, longe do curso principal da água. Existem formações rochosas nesta encosta?”

Rafael percebeu que ele não desistiria.

“Há cavernas rasas. Mas a estrada desabou e a trilha está interditada.”

“Dê-me as coordenadas.”

“Se você morrer, não vai ajudá-la.”

“Se eu ficar esperando e ela morrer sozinha, nunca mais vou conseguir viver.”

Rafael o agarrou pela camisa.

“Não transforme o desaparecimento dela em sua penitência.”

Lucas sustentou seu olhar.

“Não estou tentando ser perdoado. Estou tentando trazê-la de volta.”

Horas depois, aproveitou uma mudança de turno e ultrapassou a barreira por uma passagem lateral. Enviou sua localização a Rafael antes de desligar o telefone para preservar a bateria.

A chuva transformara o caminho em uma corrente de barro. Árvores arrancadas bloqueavam a trilha. Em alguns pontos, Lucas precisava testar o solo com uma haste antes de apoiar o peso.

Ele chamou por Helena até ficar rouco.

Ao anoitecer, encontrou um pedaço de tecido laranja preso entre galhos. Era do uniforme da Defesa Civil.

Mais adiante, marcas paralelas riscavam o barro, como se alguém tivesse arrastado uma perna ferida. Lucas seguiu os sinais até uma área onde a encosta desmoronara.

“Helena!”

Nenhuma resposta.

Dormiu menos de uma hora sob uma lona, acordando a cada ruído. Pela manhã, a chuva diminuiu, mas a neblina escondia os desníveis.

Encontrou embalagens de barras de cereal organizadas sob uma pedra. Helena não as jogaria assim por acaso. As colocara onde alguém pudesse vê-las.

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Lucas marcou o ponto no rastreador e avançou para o terreno alto.

Perto do meio-dia, o solo cedeu sob seu pé. Ele se agarrou a uma raiz e ficou suspenso sobre uma vala cheia de água. A mochila caiu e desapareceu na corrente.

Com esforço, conseguiu subir. Perdera parte dos suprimentos, machucara o ombro e abrira um corte na perna.

Continuou.

Toda vez que a razão mandava voltar, ele se lembrava de Helena esperando no hospital, no cartório, em aeroportos, diante de uma tela de chamada. Ela passara anos atravessando distâncias por ele. Lucas não tinha o direito de desistir depois de um único dia.

No fim da tarde, encontrou uma seta feita com pedras apontando para o norte.

“Helena!”

Algo respondeu, tão fraco que ele pensou ser o vento.

“Socorro...”

Lucas correu na direção da voz. Atrás de uma cortina de vegetação havia uma abertura estreita na rocha.

Helena estava encolhida no fundo, coberta de lama. Uma tala improvisada com galhos protegia sua perna esquerda. Ao lado dela havia um recipiente montado com plástico para recolher água da chuva e pedaços de tecido manchados de sangue marcando a entrada.

Ela não esperara passivamente. Criara sinais, racionara água e tratara o próprio ferimento.

Mas estava no limite.

“Helena.”

Seus olhos se abriram devagar.

“Lucas?”

Ele caiu de joelhos diante dela.

“Sou eu. Eu encontrei você.”

“Não.” Ela tocou o rosto dele, confusa. “Você está em Brasília.”

“Eu vim buscá-la.”

Lucas abriu o kit que carregava preso ao corpo. Deu-lhe pequenos goles de solução de reidratação, verificou sua respiração e substituiu os tecidos sujos por um curativo limpo.

Helena observava os cortes em suas mãos.

“Veio sozinho?”

Ela apontou com dificuldade para uma sequência de riscos na parede.

“Cada risco é um dia. No segundo, ouvi um helicóptero, mas a neblina cobria a entrada. No terceiro, meu rádio morreu. Usei o último pedaço da camisa para marcar as pedras.”

Lucas contou cinco marcas.

“Como conseguiu água?”

“Plástico do kit de campo. A comida acabou ontem.”

Ele ofereceu mais solução, controlando a quantidade para que ela não passasse mal. Helena havia transformado conhecimento técnico em sobrevivência. Aquilo reforçou o que Rafael dissera: Lucas conhecera a mulher que o esperava nos aeroportos, mas ignorara a profissional capaz de permanecer lúcida sob uma montanha em colapso.

“As equipes sabem a região onde estou.”

“Isso não foi o que perguntei.”

Ele não respondeu.

“Você ultrapassou a barreira.” Mesmo febril, ela compreendeu. “Pode haver outro deslizamento.”

“Eu não ia esperar em segurança enquanto você estava aqui.”

“Podia ter morrido.”

“Achei que você já estivesse morta.” A voz dele se partiu. “Foram à nossa casa para me avisar.”

“Sua casa”, ela corrigiu por hábito.

Lucas baixou a cabeça.

“Disseram que a chance de sobrevivência era mínima. Eu não acreditei.”

Helena tentou se sentar e gemeu de dor.

“Por quê?”

Ele ajustou a tala.

“Porque você é a pessoa mais teimosa que conheço.”

“Não brinque.”

“Porque eu precisava encontrá-la.”

“Depois de tudo que fez para se livrar de mim?”

Lucas respirou fundo. Não havia mais lugar para orgulho naquela caverna.

“Rafael me contou a verdade.”

Helena ficou imóvel.

“Que verdade?”

“Sobre as duas vezes em que vi vocês juntos.”

O rosto dela perdeu o pouco de cor que restava.

“Foi por isso?”

“Helena...”

“Você terminou comigo por causa de Rafael?”

Um estrondo distante percorreu a montanha. Pequenas pedras caíram da entrada.

Lucas ativou o sinal de emergência do rastreador.

“Precisamos sair daqui primeiro.”

“Não.” Ela agarrou seu pulso. “Passei meses achando que deixara de ser suficiente. Minha avó morreu acreditando numa mentira. Diga agora.”

Lucas viu a dor que havia provocado, nua e incontornável.

“Eu vi Rafael colocar o paletó em você e, meses depois, segurá-la diante do prédio. Convenci a mim mesmo de que vocês tinham um caso.”

“Você perguntou a ele antes de me condenar?”

“Não.”

“Perguntou a mim o que acontecera naqueles dias?”

“Não.”

Helena soltou seu pulso.

“Então você não deixou de me amar. Apenas nunca confiou em mim.”

Ao longe, um helicóptero rompeu o som da chuva.

Lucas deveria sentir alívio. Em vez disso, percebeu que encontrá-la viva não significava que ainda pudesse salvá-los.

 

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