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"Seu Amor Chegou Tarde Demais" Capítulo 4 — As Duas Cenas Que Destruíram Cinco Anos

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Capítulo 4 — As Duas Cenas Que Destruíram Cinco Anos

Cinco dias depois da última mensagem de Helena, Lucas ainda olhava para o celular a cada poucos minutos.

Ela não havia ligado para remarcar o divórcio. Também não respondera às três mensagens formais que ele enviara perguntando quando voltaria a Brasília.

Lucas tentou se convencer de que aquilo era apenas consequência da operação em Pernambuco. Contudo, uma inquietação persistente o acompanhava desde o crematório.

Ele estava em uma cafeteria próxima à ArcoSul quando Rafael Nogueira puxou a cadeira à sua frente.

“Precisamos conversar.”

Lucas deixou a xícara sobre a mesa.

“Não temos nada para conversar.”

“Temos Helena.”

O nome bastou para endurecer seu rosto.

“Foi ela quem pediu que viesse?”

“Helena está numa operação de emergência. Nem sabe que estou aqui.” Rafael se inclinou. “Quero entender por que você terminou com uma mulher que passou três anos tentando voltar para você.”

Lucas soltou uma risada sem humor.

“Você sabe muito bem.”

“Não sei.”

“Vinte de maio de dois anos atrás. Eu viajei ao Recife sem avisar. Era nosso aniversário de namoro.”

A lembrança permanecia inteira. Helena saindo de uma unidade de saúde, pálida, envolta no paletó de Rafael. A mão dele em suas costas. A intimidade silenciosa entre os dois.

“Depois, no Dia dos Namorados do ano passado, tentei surpreendê-la novamente. Vi você abraçá-la diante do prédio da Defesa Civil.”

Rafael o encarou, incrédulo.

“Você destruiu cinco anos por causa dessas duas cenas?”

“Perguntei se existia alguém. Ela disse que não. Mentiu olhando nos meus olhos.”

Rafael bateu a palma na mesa, fazendo a xícara estremecer.

“Na primeira vez, Helena estava com quarenta graus de febre depois de passar uma semana vistoriando áreas de risco. Quase desmaiou na rua. Meu chefe mandou que eu a levasse ao hospital.”

Lucas ficou imóvel.

“Na segunda, ela estava há três noites sem dormir por causa de um alerta de deslizamento. Torceu o tornozelo ao descer a escada. Eu a segurei para que não caísse.”

“Você a abraçou.”

“Eu a impedi de bater a cabeça no chão.” Rafael baixou a voz. “Você esteve perto o bastante para condená-la, mas não para perguntar se estava ferida.”

Lucas sentiu o sangue abandonar seu rosto.

Durante dois anos, alimentara aquelas imagens até transformá-las em certeza. Cada atraso de Helena passara a parecer suspeito. Cada menção a Rafael ganhara um significado secreto.

“Por que ela nunca me contou?”

“Porque, para ela, não havia nada para contar. Você perguntou se existia outro homem, não se ela tinha adoecido ou se machucado.”

Rafael abriu no celular uma fotografia e a colocou diante dele. Era Helena dormindo sobre uma mesa, cercada de mapas. Ao lado, havia um formulário com o cabeçalho de transferência para Brasília.

“Ela assumiu plantões extras, cursos e missões de campo para conseguir pontuação. Queria ser transferida antes do fim do ano.”

Lucas aproximou os dedos da tela, mas não a tocou.

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“Ela nunca me disse.”

“Era uma surpresa. Quando conseguiu protocolar o pedido, comprou uma passagem para encontrá-lo. Voltou de Brasília com o coração destruído.”

O ar pareceu desaparecer da cafeteria.

Lucas se lembrou de Helena no carro, dizendo que economizara para construir uma vida com ele. Lembrou-se de ter chamado aquelas palavras de dramatização. Lembrou-se de Dona Lurdes pedindo que não deixassem o orgulho destruir o amor.

“Eu achei que ela tivesse me traído.”

“Você preferiu acreditar nisso porque era mais fácil sentir raiva do que admitir que tinha medo de perdê-la.”

Lucas ergueu os olhos.

“Você a ama?”

Rafael não desviou.

“Isso não importa. Ela amava você. E você fez desse amor uma culpa.”

Ele se levantou.

“Se ainda tiver algo humano para dizer, diga sem exigir que ela o perdoe.”

Lucas ficou sozinho diante da fotografia. Pela primeira vez, as duas cenas que justificavam sua crueldade não pareciam provas. Pareciam fragmentos arrancados de uma verdade que ele nunca quis conhecer.

Pegou o telefone e ligou para Helena. A chamada foi direto para a caixa postal.

“Helena, eu preciso falar com você. Eu sei o que aconteceu. Sei que errei.”

Ligou outra vez. E outra.

No caminho para casa, comprou uma passagem para o Recife. Pretendia pegar roupas, seguir ao aeroporto e esperar no centro de operações até que ela regressasse.

Quatro pessoas usando coletes da Defesa Civil entraram no edifício antes dele. No saguão, uma vizinha cochichou com o porteiro.

“Vieram falar com a família de uma agente desaparecida.”

Lucas sentiu um frio inexplicável.

Ao sair do elevador, viu a equipe parada diante de sua porta.

Uma mulher de cabelos grisalhos consultou uma pasta.

“Senhor Lucas Azevedo?”

“Sim.”

“Somos da coordenação da operação na Zona da Mata. Helena Duarte o registrou como cônjuge e contato de emergência.”

As paredes do corredor pareceram se aproximar.

“O que aconteceu com ela?”

“Há cinco dias, a equipe de Helena retirava moradores de uma comunidade isolada quando ocorreu um novo deslizamento. Ela conseguiu empurrar uma criança para a área segura, mas foi arrastada pela lama.”

Lucas segurou a maçaneta para não cair.

“Onde ela está?”

“As buscas continuam. Não encontramos o corpo, mas, pelas condições da área e pelo tempo decorrido, a possibilidade de sobrevivência é considerada muito baixa.”

“Então ela está viva.”

“Senhor Lucas...”

“Se não encontraram o corpo, ela está viva.”

A coordenadora tentou impedi-lo de sair.

“A área permanece instável. Até profissionais treinados estão trabalhando com restrições.”

Lucas entrou no elevador.

“Mandem a localização exata.”

“O senhor não pode entrar naquela mata.”

As portas começaram a fechar.

“Passei dois anos acreditando numa mentira porque não procurei a verdade.” Ele a encarou pela abertura cada vez menor. “Desta vez, vou encontrá-la com meus próprios olhos.”

No estacionamento, a coordenadora ainda o alcançou e entregou uma folha com os contatos oficiais.

“Não estamos autorizando sua entrada. Mas, se pretende ir ao Recife, apresente-se ao comando antes de fazer qualquer coisa.”

Lucas pegou o papel.

“Eu me apresentarei.”

Não prometeu obedecer. Pela primeira vez, porém, compreendeu que amar Helena não significava agir como se apenas sua vontade importasse. Precisaria compartilhar sua localização e aceitar ajuda — exatamente o tipo de confiança que negara a ela.

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