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"Seu Amor Chegou Tarde Demais" Capítulo 3 — Ela Morreu Esperando por Você

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Capítulo 3 — Ela Morreu Esperando por Você

Dona Lurdes morreu sem ver o documento que deveria lhe dar paz.

Morreu enquanto eu atravessava Brasília sozinha e Lucas corria para atender Camila.

Nos três dias seguintes, organizei o velório, assinei papéis, escolhi flores e ouvi pessoas dizerem que minha avó finalmente descansara. Eu agradecia, abraçava, oferecia café e fazia tudo que esperavam de mim.

Só não conseguia chorar.

Também não consegui escolher uma lápide. Dona Lurdes sempre dissera que não queria ocupar espaço depois de partir. Pedi que suas cinzas fossem guardadas até que eu pudesse levá-las ao pequeno jardim da casa onde ela me criara. Foi a primeira decisão que tomei sem procurar a opinião de Lucas — e perceber isso doeu quase tanto quanto o silêncio dele.

Lucas não apareceu.

Na tarde da cremação, saí carregando a urna contra o peito. O telefone tocou quando eu chegava ao estacionamento.

“Helena.”

A voz dele parecia exausta.

“A situação aqui finalmente foi controlada. Como está Dona Lurdes?”

Parei de andar.

“Ela morreu há três dias.”

Do outro lado, houve um silêncio absoluto.

“Onde você está?”

“No crematório.”

“Estou indo.”

“Não precisa.”

Ele desligou.

Quinze minutos depois, o carro de Lucas entrou rápido demais no estacionamento. Ele saiu com a camisa amarrotada, barba por fazer e os olhos vermelhos de cansaço.

Quando viu a urna, perdeu o passo.

“Helena...”

“Ela perguntou por você.”

Lucas fechou os olhos.

“Sinto muito.”

“Onde você estava?”

“No trabalho.”

“Durante três dias?”

“Houve um acidente grave. Uma estrutura cedeu, dois funcionários ficaram feridos e...”

“Ela morreu esperando por você!”

Minha voz ecoou entre os carros.

Tudo que eu mantivera sob controle se rompeu.

“Você prometeu voltar. Prometeu diante dela que cuidaria de mim. Depois me deixou sozinha com um registro de casamento que não significa nada e nem sequer atendeu ao telefone.”

“Meu celular ficou com a equipe de segurança. A área foi isolada.”

“Sempre existe uma explicação para sua ausência.”

“Helena, tente se acalmar.”

“Não me mande ficar calma!” Apertei a urna com tanta força que meus braços doeram. “Passei cinco anos esperando. Esperei suas obras terminarem, esperei suas férias, esperei uma transferência. Esperei até você decidir se ainda me amava. Minha avó só precisava que você cumprisse uma promessa por algumas horas.”

“Eu não sabia que ela pioraria tão depressa.”

“Você nunca sabe, Lucas. Porque nunca fica tempo suficiente para descobrir.”

“Helena!”

Camila atravessou o estacionamento quase correndo. Havia um curativo em sua testa e poeira nas botas.

“Por favor, não o culpe pelo que aconteceu. O desabamento bloqueou o acesso ao canteiro. Lucas ficou coordenando a retirada dos feridos e a vistoria para impedir outra queda.”

Ela tocou meu braço.

O gesto fez explodir tudo que eu tentava conter: a voz dela chamando meu namorado de “meu amor”, Lucas segurando sua cintura na moto, o telefonema no dia do casamento, minha avó morrendo sozinha.

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“Não toque em mim!”

Afastei seu braço. Camila perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos.

Lucas avançou imediatamente.

“Camila!”

Ele a ajudou a se levantar e se voltou para mim com raiva.

“Qual é o seu problema? Ela só tentou explicar.”

“Meu problema?”

“Você está sofrendo, eu entendo, mas isso não lhe dá o direito de atacar as pessoas.”

“Eu não a ataquei.”

“Você sempre transforma tudo em uma tragédia pessoal.”

A frase me deixou completamente imóvel.

Minha avó estava dentro de uma urna em meus braços. Meu casamento durara menos que uma viagem de carro. O homem que eu amava protegia outra mulher e chamava minha dor de exagero.

Alguma coisa morreu dentro de mim com uma calma assustadora.

“Você tem razão”, falei.

Lucas pareceu surpreso.

“Helena...”

“Não há mais nada para explicar.”

Rafael estacionou do outro lado da rua e veio até nós. Ao perceber a tensão, aproximou-se de mim sem tocar, esperando que eu escolhesse.

“Está pronta?”

“Estou.”

Passei por Lucas.

Ele segurou meu cotovelo.

“Você vai embora com ele?”

Baixei os olhos para sua mão. Lucas me soltou.

“Rafael veio porque foi a única pessoa que se ofereceu para me ajudar a levar as cinzas de minha avó para casa.”

“Eu teria ajudado.”

“Mas não ajudou.”

Entrei no carro de Rafael. Lucas bateu no vidro antes que partíssemos.

“Helena, desça. Precisamos conversar.”

Mantive os olhos na urna.

“Dirija, por favor.”

Quando chegamos à antiga casa de Dona Lurdes, coloquei suas cinzas ao lado de uma fotografia em que ela sorria com um avental florido.

Rafael deixou comida na geladeira e permaneceu à porta.

“Quer que eu fique?”

“Não. Obrigada por hoje.”

“Ligue se precisar.”

Depois que ele saiu, sentei-me no chão da sala e abri a conversa com Lucas. A indicação de que ele digitava aparecia e desaparecia. Talvez estivesse escrevendo uma explicação. Talvez outra acusação.

Eu não queria mais nenhuma das duas.

Enviei uma única mensagem.

“Amanhã, às nove. No cartório. Vamos iniciar o divórcio.”

Lucas demorou quase uma hora para responder.

“Entendi.”

Antes que eu desligasse o telefone, uma notificação urgente surgiu no grupo da Defesa Civil.

Chuvas extremas haviam atingido municípios da Zona da Mata pernambucana. Rios transbordaram, estradas foram destruídas e centenas de famílias estavam isoladas.

Todos os analistas e agentes da unidade regional deveriam se apresentar no Recife antes das nove da manhã para integrar a operação de evacuação.

Rafael me ligou segundos depois.

“Eu vi a convocação. Você não está em condições de ir.”

Olhei para a fotografia de minha avó.

Quando eu era criança, ela me perguntara o que eu queria ser. Eu respondera que queria proteger pessoas que não tinham para onde correr.

“Há famílias presas pela enchente”, falei. “Eu vou.”

“Helena, você acabou de perder sua avó.”

“E é justamente por isso que sei o que significa perder alguém.”

Comprei uma passagem para o primeiro voo da madrugada. Depois, escrevi para Lucas:

“Fui convocada para uma emergência em Pernambuco. Resolveremos o divórcio quando eu voltar.”

Ele não respondeu.

Às cinco da manhã, fechei a porta da casa de Dona Lurdes e levei comigo apenas uma mochila, o uniforme da Defesa Civil e a dor que ainda não sabia carregar.

Naquele momento, nenhum de nós podia imaginar que, cinco dias depois, uma equipe bateria à porta de Lucas para dizer que eu havia desaparecido sob uma montanha de lama.

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