"Seu Amor Chegou Tarde Demais" Capítulo 2 — O Casamento Que Já Nasceu Morto
Capítulo 2 — O Casamento Que Já Nasceu Morto
“Como pode dizer que fui eu?”
Lucas retomou o caminho até o hospital sem responder.
Apressei o passo e segurei seu braço.
“Olhe para mim. O que eu fiz?”
Ele baixou os olhos para minha mão, e eu a retirei como se tivesse tocado algo proibido.
“Não importa mais.”
“Importa para mim.”
“Esse é o problema.” Sua expressão endureceu. “Tudo sempre importa quando é você quem precisa de uma resposta.”
“E quando foi que você me fez uma pergunta?”
Antes que ele reagisse, um alarme soou no corredor.
Profissionais correram em direção ao quarto de Dona Lurdes. Uma enfermeira fechou a porta, mas não antes que eu visse médicos cercando a cama e o monitor cardíaco piscando em vermelho.
“Vó!”
Tentei entrar. A enfermeira me conteve pelos ombros.
“A paciente apresentou insuficiência cardiorrespiratória. A equipe está tentando estabilizá-la.”
Minhas pernas perderam a força.
Lucas me segurou antes que eu caísse.
“Ela vai resistir”, disse junto ao meu ouvido.
Eu queria acreditar. Apoiei-me nele porque o medo era maior que meu orgulho.
Durante quarenta minutos, o corredor se resumiu ao barulho de aparelhos e passos apressados. Quando o médico saiu, sua expressão respondeu antes de suas palavras.
“Conseguimos estabilizá-la, mas o organismo está muito debilitado. Vocês devem estar preparados.”
“Quanto tempo?” perguntei.
“Não é possível determinar. Talvez dias.”
Lucas apertou meu ombro, mas já não havia gesto capaz de me manter inteira.
Sentamos diante do quarto. Pouco depois, o telefone dele tocou. O nome de Camila brilhou na tela.
“Preciso atender.”
Ele se afastou em direção à escada de emergência.
Eu estava encarando o chão quando alguém parou diante de mim.
“Helena?”
Levantei o rosto. Rafael Nogueira segurava uma cesta de frutas e me observava com preocupação.
“O que você está fazendo em Brasília?”
“Vim para uma reunião da Defesa Civil. Você comentou que sua avó estava internada aqui.” Ele se sentou ao meu lado. “Mas você parece péssima. O que aconteceu?”
Tentei dizer que estava bem. Minha voz se desfez no meio da frase.
Rafael trabalhava comigo havia quatro anos. Já me vira coordenar evacuações, enfrentar prefeitos despreparados e passar noites inteiras diante de mapas de risco. Talvez por isso eu não suportasse que ele me visse naquele estado.
Virei o rosto, mas as lágrimas vieram.
“Ei.” Rafael tocou meu ombro. “Você não precisa ser forte o tempo todo.”
Ele enxugou uma lágrima de meu rosto com o polegar.
“Helena.”
A voz de Lucas transformou o ar.
Ele estava a poucos metros, olhando para a mão de Rafael junto ao meu rosto.
Rafael se levantou imediatamente.
“Lucas, não é o que parece.”
“Não precisa explicar.” Lucas guardou o telefone no bolso. “Vocês combinam.”
“Lucas...”
“Vou embora.”
“Minha avó pode morrer esta noite!”
Ele parou, mas não se virou.
“Camila precisa de mim no canteiro. Houve uma falha em uma estrutura provisória.”
“E eu?”
A pergunta escapou antes que eu pudesse contê-la.
Lucas olhou por cima do ombro. Seus olhos estavam cheios de uma mágoa que eu não compreendia.
“Você já tem quem cuide de você.”
Ele foi embora.
Rafael soltou o ar lentamente.
“Sinto muito. Acho que piorei as coisas.”
“Não foi você.” Enxuguei o rosto. “Nós terminamos.”
Seu espanto me fez desviar os olhos.
“Helena, vocês estavam planejando o casamento.”
“Eu estava.”
Rafael não perguntou mais nada. Deixou seu cartão sobre a mesa, embora eu soubesse seu número de memória.
“Se precisar de qualquer coisa, ligue.”
Passei a noite ao lado de Dona Lurdes. Adormeci com a cabeça perto de sua mão e despertei ao sentir um casaco escorregando de meus ombros.
Lucas estava junto à janela.
“Você voltou.”
“A situação no canteiro foi controlada.” Ele apontou para a mesa. “Trouxe café da manhã.”
Havia mingau de abóbora, pão de queijo e uma bebida de soja sem açúcar. Tudo escolhido exatamente como eu gostava.
“Não faça isso”, pedi.
“Isso o quê?”
“Não cuide de mim como se ainda me amasse.”
Lucas ficou em silêncio.
“Eu só não quero que sua avó acorde e encontre você desmaiada ao lado da cama.”
A resposta recolocou cada coisa em seu lugar.
Um gemido fraco veio da cama.
“Helena...”
Corri até minha avó.
“Estou aqui, vó.”
Dona Lurdes abriu os olhos com esforço. Depois de me observar, procurou Lucas.
“Chegue mais perto, meu filho.”
Ele obedeceu.
Ela pegou nossas mãos e as juntou sobre o lençol.
“Não tenho medo de morrer”, sussurrou. “Tenho medo de deixar Helena sozinha.”
“Vó, não fale assim.”
“Meu único desejo é ver vocês casados. Preciso saber que, quando eu for embora, ela ainda terá uma família.”
Abri a boca. A mentira precisava terminar, mesmo que doesse.
Lucas falou antes de mim.
“Nós vamos nos casar hoje.”
Meu coração parou.
Meses antes, quando ainda planejávamos morar juntos, já havíamos iniciado a habilitação no cartório. A cerimônia civil estava marcada para aquela tarde. Eu viera a Brasília acreditando que Lucas finalmente confirmaria a data.
Depois do término, supus que tudo seria cancelado.
Ele não cancelara.
“Hoje?”, Dona Lurdes repetiu.
Lucas assentiu.
“Voltaremos com o registro. A senhora será a primeira pessoa a vê-lo.”
O sorriso de minha avó foi tão luminoso que não encontrei coragem para negar.
Quando ela adormeceu, arrastei Lucas para o corredor.
“Você enlouqueceu?”
“A habilitação ainda está válida e o horário continua reservado.”
“Nós terminamos.”
“Você pediu que eu representasse até o fim.”
“Representar um namoro é diferente de casar.”
“Depois pedimos o divórcio.” Ele falou como se sugerisse mudar uma passagem. “Dona Lurdes parte em paz. É isso que importa.”
“E o casamento não significa nada para você?”
Lucas sustentou meu olhar.
“Não mais.”
Às quatro da tarde, estávamos diante do oficial do Registro Civil.
Eu usava um vestido branco simples porque saíra de casa naquela manhã sem imaginar que me casaria. Lucas vestia uma camisa clara. Na fotografia, parecíamos um casal bonito e triste.
“Podem se aproximar”, pediu a fotógrafa.
Lucas passou o braço por minha cintura.
Meu corpo reconheceu o dele antes que minha razão pudesse resistir. Por um segundo, sorri como a mulher que viajara até Brasília esperando começar uma vida a dois.
O flash registrou a mentira perfeita.
Minutos depois, ele assinou. Eu assinei.
Saímos legalmente casados e emocionalmente separados.
No estacionamento, o telefone de Lucas tocou.
“Camila?”
Enquanto ouvia, seu rosto mudou.
“Não toque em nada. Estou indo agora.”
“Prometemos voltar ao hospital”, lembrei.
“É uma emergência.”
“Minha avó também é.”
Ele já abria a porta do carro.
“Você pode mostrar o documento a ela. Eu volto assim que puder.”
O carro desapareceu antes que eu encontrasse uma resposta.
Segurei o registro de casamento contra o peito e chamei um carro por aplicativo.
Durante todo o caminho, uma inquietação cresceu dentro de mim.
Quando cheguei ao andar de Dona Lurdes, médicos e enfermeiros estavam imóveis diante do quarto.
Ninguém corria. Nenhum alarme tocava.
Uma enfermeira veio ao meu encontro com os olhos úmidos.
“Senhora Helena... sinto muito.”
Olhei por cima do ombro dela.
O rosto de minha avó estava coberto por um lençol branco.
O registro de casamento escapou de meus dedos e caiu no chão.
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