"Seu Amor Chegou Tarde Demais" Capítulo 1 — A Dois Mil Quilômetros de Você
Capítulo 1 — A Dois Mil Quilômetros de Você
Atravessei mais de dois mil quilômetros acreditando que Lucas Azevedo me pediria em casamento.
Ele terminou comigo antes que eu conseguisse desfazer as malas.
“Não existe outra pessoa, Helena.”
Lucas mantinha as duas mãos no volante e os olhos presos ao trânsito de Brasília. Falava com a serenidade de quem comunicava o cancelamento de uma reunião, não o fim de cinco anos de amor.
“Então me diga o motivo.”
Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. Havia cinco dias que eu fazia aquela pergunta e recebia respostas cada vez mais curtas.
“Nós nos cansamos.”
“Você se cansou”, corrigi. “Eu continuei aqui.”
Ele apertou o maxilar.
“Você mora no Recife. Eu moro em Brasília. Nossos encontros dependem de feriados, passagens aéreas e projetos que nunca terminam. Não faz mais sentido insistir.”
Olhei pela janela para esconder os olhos ardendo. Dentro da minha bolsa estava a cópia do pedido de transferência que eu levara meses para conseguir. Se fosse aprovado, eu trabalharia em Brasília antes do fim do ano.
Eu ainda não havia contado a ele. Queria fazer uma surpresa.
Agora aquele documento parecia a prova de que eu havia lutado sozinha por um futuro que só existia para mim.
“Você dizia que a distância era temporária.”
“Eu dizia muitas coisas.”
O golpe foi tão limpo que levei alguns segundos para sentir a dor.
O carro entrou no estacionamento do Hospital Santa Helena. Respirei fundo e enxuguei o rosto antes que ele desligasse o motor.
“Minha avó não pode saber.”
Lucas finalmente me olhou.
“Helena...”
“O câncer se espalhou. Ontem, o médico disse que ela talvez tenha semanas, não meses. A única coisa que ainda a deixa feliz é acreditar que nós vamos nos casar.”
Ele desviou o rosto.
“Não estou pedindo que volte para mim. Só peço que não destrua essa esperança na frente dela.”
O silêncio entre nós durou tempo suficiente para que eu me arrependesse de ter implorado.
“Está bem”, ele disse. “Vou representar meu papel até o fim. Depois disso, seremos dois estranhos.”
Assenti, embora a palavra estranhos doesse mais que o término.
Dona Lurdes parecia menor a cada visita. O corpo frágil quase desaparecia sob o lençol branco, mas seus olhos se iluminaram quando entramos juntos.
“Meus dois teimosos finalmente chegaram.”
Lucas foi o primeiro a se aproximar. Ajustou os travesseiros atrás das costas dela e colocou sobre a mesa uma sacola com frutas, biscoitos sem açúcar e o creme hidratante que ela usava.
“A senhora está mais bonita hoje.”
“E você continua mentindo muito mal.” Ela riu e logo começou a tossir.
Lucas segurou o copo de água junto aos lábios dela. Seus movimentos eram cuidadosos, familiares. Dona Lurdes o conhecia desde a época da faculdade e o tratava como o neto que nunca tivera.
Ver os dois juntos tornou tudo ainda mais cruel.
Sentei-me ao lado da cama e envolvi a mão ossuda de minha avó entre as minhas.
“Como passou a noite?”
“Pensando no vestido que vou usar no casamento de vocês.”
Meu sorriso congelou.
“Vó, não precisa pensar nisso agora.”
“Preciso, sim. Não quero aparecer desleixada nas fotos.” Ela virou-se para Lucas. “Você ainda vai cuidar da minha menina quando eu não estiver aqui, não vai?”
Meu peito se fechou.
Lucas demorou apenas um instante antes de pegar minha mão.
“Vou, Dona Lurdes.”
Se eu não soubesse a verdade, teria acreditado nele.
Seu polegar roçou meus dedos, e a memória do antigo Lucas me atravessou: o estudante que me esperava depois das aulas com balas de morango no bolso; o homem que adormecia em videochamadas para que a distância parecesse menor; o namorado que jurara que nada nos separaria.
“Nós já cuidamos de tudo”, ele continuou. “Assim que o trabalho permitir, vamos marcar a cerimônia.”
Dona Lurdes sorriu com uma paz que eu não via havia meses.
Eu deveria ter ficado aliviada. Em vez disso, senti vergonha por transformar seus últimos dias em uma mentira.
Quando a enfermeira veio administrar a medicação, minha avó apertou nossas mãos unidas.
“O amor precisa de coragem. Não deixem o orgulho estragar o que construíram.”
Lucas ficou imóvel.
Eu tive a impressão de que a frase o atingira, mas ele soltou minha mão assim que a porta do quarto se fechou atrás de nós.
A mudança foi imediata. A ternura desapareceu de seu rosto, substituída pela distância que ele vinha cultivando havia dias.
“Você atua muito bem”, murmurei.
“Eu só não quis magoá-la.”
“E me magoar não importa?”
Ele passou a mão pelos cabelos, impaciente.
“Não transforme isso em outra discussão.”
Saímos do hospital sem dizer mais nada. O céu estava cinzento, e um vento seco espalhava folhas pelo estacionamento.
Então o rugido de uma motocicleta rompeu o silêncio.
Uma moto preta parou diante de nós. A mulher que a pilotava usava jaqueta de couro ajustada, botas de cano alto e uma confiança que parecia ocupar todo o espaço ao redor.
Ela retirou o capacete, soltando uma cascata de cabelos escuros. Era linda de um jeito impossível de ignorar.
“Meu amor”, disse ela, sorrindo para Lucas. “Vai me dizer que esqueceu nosso encontro?”
Meu estômago se contraiu.
Lucas franziu a testa.
“Camila, temos uma inspeção no canteiro. Tente agir como uma profissional por cinco minutos.”
Ela riu.
“Hoje é sábado. Profissionalismo aos sábados custa o dobro.”
Só então Camila percebeu minha presença.
“Desculpe. Não sabia que você estava acompanhado.”
Esperei que Lucas explicasse. Esperei que dissesse meu nome com algum resquício dos cinco anos que havíamos dividido.
Ele nem hesitou.
“Esta é Helena. Minha ex-namorada.”
Camila ergueu as sobrancelhas, surpresa, e estendeu a mão.
“Camila Torres. Trabalho com o Lucas na ArcoSul.”
“Prazer.”
Minha educação sobreviveu onde meu coração falhou.
Lucas olhou o relógio.
“Estamos atrasados.”
Ele pegou o segundo capacete e subiu na garupa, como se eu já não estivesse ali.
A moto arrancou. Camila inclinou o corpo na curva, e Lucas segurou sua cintura por instinto.
Fiquei observando até os dois desaparecerem no trânsito.
Passei o restante da tarde em uma farmácia de manipulação, buscando os suplementos prescritos para minha avó. Quando saí, a noite já havia caído.
Lucas estava encostado em seu carro do outro lado da rua.
“O que está fazendo aqui?”
“A inspeção terminou.” Ele tirou as sacolas pesadas de minhas mãos. “Vou levar isso ao hospital.”
“Você não precisava voltar.”
“Eu sei.”
Caminhamos lado a lado. Ele ainda se lembrava do horário em que eu buscaria os remédios. Ainda sabia quais alimentos eu preferia e como Dona Lurdes tomava cada comprimido. Ainda se importava com tudo que me cercava.
Comigo, não.
“Você terminou comigo por causa da Camila?” perguntei.
Lucas parou.
“Não envolva outra pessoa no que aconteceu entre nós.”
A defesa automática do nome dela doeu mais que uma confirmação.
“Eu atravessei o país por você. Acho que mereço ao menos a verdade.”
“A verdade é que acabou.”
“Quando você deixou de me amar?”
Por um instante, algo violento e ferido atravessou seus olhos.
Quando respondeu, sua voz estava baixa.
“Engraçado, Helena. Durante muito tempo, achei que tivesse sido você quem deixou de me amar primeiro.”
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