"A SOCIALITE HUMILHOU UMA JOVEM POBRE… SEM SABER QUE ELA ERA A HERDEIRA DO IMPÉRIO" Capítulo 3
O relógio atrás da recepção marcava três e quatro quando Helena entrou no elevador reservado à diretoria.
O painel rejeitou o cartão que Marina lhe entregara.
— Acesso cancelado — anunciou a voz eletrônica.
Helena tentou outra vez. A luz vermelha refletiu no sangue seco de seus dedos.
— Ele apagou você do prédio — disse Rafael.
— Ainda não.
Marina chamou o elevador de serviço. Davi ordenou que dois seguranças vigiassem o lobby e entrou por último.
O grupo subiu em silêncio. No espelho manchado, Helena parecia menor do que nas fotografias dos relatórios anuais. O casaco de Marina escondia a regata, mas não o rasgo no jeans.
— Quantas pessoas respondem diretamente a Alexandre? — perguntou ela.
— No hotel, vinte e três — disse Marina. — No grupo, talvez cem.
— Quantas responderiam a mim?
Marina apertou o botão do décimo sétimo andar.
— Hoje de manhã, eu teria dito cinco. Depois do lobby, não sei.
— Isso foi uma resposta otimista?
— Foi a resposta honesta.
Rafael abafou um sorriso. Helena lançou-lhe um olhar que não durou o suficiente para ser repreensão.
No décimo sétimo andar, as luzes estavam apagadas. Uma faixa de interdição bloqueava o corredor que levava ao antigo escritório de Lúcia.
Davi leu o aviso.
— Vazamento de gás.
Marina tocou a parede.
— Não recebi ordem de evacuação.
— Porque não houve vazamento — disse Helena.
Ela passou por baixo da faixa. Davi segurou seu braço.
Helena olhou para a mão dele. O segurança soltou-a no mesmo instante.
— Desculpe.
— Da próxima vez, pergunte.
Davi retirou a fita e caminhou à frente. A porta do setor administrativo tinha duas fechaduras novas e um leitor biométrico.
— Posso chamar um técnico — disse Marina.
— Alexandre saberá em cinco minutos.
— Ele já sabe que estamos aqui — respondeu Rafael, apontando para a câmera no teto.
A luz da câmera estava apagada. Davi abriu a carcaça e encontrou o cabo cortado.
— Isso foi feito hoje.
Helena aproximou o rosto. Um fio de cobre ainda brilhava sem poeira.
— Abra a porta.
Davi retirou do bolso um conjunto de chaves mestras. A primeira fechadura cedeu; a segunda exigiu que ele removesse a placa do leitor e ligasse dois contatos.
O corredor além da porta cheirava a papel úmido. Gavetas estavam abertas, caixas vazias empilhadas e telas de computador mostravam círculos girando.
Marina correu até a central.
— Estão apagando os arquivos.
Rafael desligou o cabo de rede. Helena puxou a tomada do servidor auxiliar.
O círculo congelou em setenta e três por cento.
Marina encontrou uma impressora ainda quente. A última página continha a lista dos acessos apagados, mas alguém puxara o papel antes do fim. Restavam o horário e quatro dígitos de uma matrícula.
Davi reconheceu o número.
— Pertence a um segurança demitido há seis meses.
— Morto há dois — disse Marina, consultando o cadastro.
Rafael fotografou a folha.
— Alexandre coleciona mortos úteis.
Helena abriu o histórico local. A impressão fora ordenada pelo gabinete da presidência doze minutos depois de ela entrar no prédio.
Davi colocou os dois homens capturados numa sala vazia e tomou os telefones deles. Durante anos, obedecera a Lúcia e depois transferira essa lealdade ao cargo de Alexandre.
Naquele corredor, escolheu a pessoa.
— Entendido, senhora Valença.
— Dá para recuperar? — perguntou Davi.
— Parte — respondeu Marina. — Se o disco não tiver sido sobrescrito.
Helena abriu o armário onde Lúcia guardava contratos antigos. Vazio.
Abriu o segundo. Vazio.
No fundo do terceiro havia apenas a marca retangular de uma caixa retirada às pressas.
— O cofre — disse ela.
Ficava atrás de um painel de madeira. Helena pressionou o medalhão contra uma pequena reentrância escondida no desenho do brasão.
Um mecanismo interno estalou.
Rafael se aproximou.
— Sua mãe gostava de segredos.
— Minha mãe gostava de sobreviver.
O painel abriu e revelou um teclado. Helena digitou a data de nascimento de Lúcia. Luz vermelha.
Tentou a data do primeiro hotel. Vermelha.
Marina examinou o teclado.
— Mais uma tentativa bloqueia o sistema.
Helena fechou os olhos por um instante. Lúcia mudava as senhas a cada mês e sempre deixava uma pista em algo cotidiano.
Na última conversa entre as duas, a mãe havia reclamado que Helena não telefonava aos domingos.
“Um dia você vai querer ouvir minha voz e não vai poder.”
Na época, Helena respondera com um emoji e a promessa de ligar depois. A lembrança vinha sempre acompanhada da tela silenciosa do telefone na manhã do acidente.
Rafael fora a primeira pessoa a chegar ao apartamento. Encontrara Helena sentada no chão da cozinha, ainda de pijama, enquanto dois canais exibiam o carro destruído.
Ele cuidara do funeral, das ligações e dos jornalistas. Na terceira noite, descobriu que o segurança do prédio aceitara dinheiro para entregar gravações a Alexandre.
— Você devia ter me contado sobre os homens na porta — disse Rafael.
— Você teria tentado me tirar da cidade.
— Teria tentado mantê-la viva.
— Era isso que eu estava fazendo.
— Sozinha.
Helena não respondeu.
Helena digitou o número do telefone de infância sem o código de área.
A luz ficou verde.
Dentro do cofre restava uma chave comprida de latão. Havia sangue seco perto dos dentes.
Marina levou a mão à boca.
— Isso pertence ao apartamento presidencial.
— Minha mãe não usava aquele apartamento — disse Helena.
— Usou na noite anterior ao acidente.
Passos soaram no corredor.
Davi apagou a lanterna e indicou uma sala lateral. Os quatro se esconderam enquanto dois homens entravam no arquivo.
— Reis mandou limpar tudo — disse um deles. — Inclusive o cofre.
— Chegamos tarde.
— Então procure a chave.
Davi saiu primeiro. Imobilizou um homem contra a parede e derrubou o outro com o ombro.
Rafael recolheu o celular que caiu do bolso de um deles. A tela mostrava uma mensagem de Alexandre:
Quarto 1708. Antes que ela chegue.
Helena fechou os dedos em torno da chave ensanguentada.
— Agora sabemos onde ele está indo.
O elevador apitou no fim do corredor.
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