"Humilhada Como Substituta, Ela Se Casou em Segredo com o Bilionário Mais Poderoso da Alta Sociedade" Capítulo 1
O cheiro de mofo e cera barata de piso impregnava cada centímetro daquele apartamento antigo, abafado e profundamente sufocante situado no bairro do Bixiga, em São Paulo.
Na sala de estar, que era banhada por uma luz fluorescente barulhenta e piscando, Carmen ostentava um sorriso triunfante, largo e cheio de dentes, enquanto ajeitava com extrema meticulosidade o tecido caríssimo do vestido de grife da filha mais velha.
Olhe para isso, Valentina! Você está simplesmente deslumbrante, minha filha, exclamava Carmen repetidas vezes, com a voz esganiçada de pura excitação e de uma vaidade completamente desmedida que parecia transbordar por todos os poros do seu rosto.
Nenhum herdeiro da alta sociedade paulistana vai conseguir resistir a essa elegância toda. Os Silva vão cair aos seus pés esta exata noite, e finalmente vamos sair da lama.
Valentina girou diante do espelho bisotado com uma pose estudada, ostentando o corpete bordado à mão com pedrarias e os cabelos ruivos perfeitamente escovados pelo melhor e mais caro salão de beleza localizado nos Jardins.
No canto mais escuro, úmido e abafado da sala, quase totalmente engolida pelas sombras densas projetadas pelo aparador de mogno escuro, Victoria recolhia os seus pincéis gastos com os dedos trêmulos e frios.
O pulôver de lã cinzenta que ela vestia, completamente desbotado nas dobras e puído nas mangas, parecia um grito silencioso de miséria diante daquela orgia de lantejoulas, cetim importado e promessas de uma riqueza que parecia vir de outro mundo.
Victoria, saia daí do meio da nossa frente agora mesmo, você está atrapalhando a circulação da luz e o reflexo perfeito do espelho, disparou Carmen, sem sequer virar o rosto para a caçula, como se ela fosse apenas um móvel inútil.
E trate de esconder essa sua cara de quem vai a um enterro. Parece que está sempre pedindo esmola nas esquinas por aí, continuou a mãe com um tom de voz carregado de um desprezo visceral e antigo.
A sua irmã vai mudar o destino financeiro e social da nossa família esta noite, e o mínimo que você pode fazer para ajudar é não nos passar vergonha com essa sua aura constante de derrotada e imprestável.
Deixa ele quieta, mãe, riu Valentina com desdém, ajeitando com total descaso os brincos de zircônia falsa que simulavam perfeitamente brilhantes e diamantes verdadeiros.
A Victoria nasceu para ser invisível e morar no lixo mesmo. Se ela tentar aparecer na festa de noivado mais tarde, o choque térmico da pobreza dela vai espantar todos os bilionários de plantão.
Victoria sentiu o estômago revirar em um nó doloroso, gélido e profundamente amargo que rasgava sua garganta por dentro, ameaçando sufocarla ali mesmo.
O peso esmagador daquela indiferença crônica vinha esmagando seus ombros desde a infância mais remota, mas hoje, cada sílaba cuspida parecia revestida de lâminas de barbear muito afiadas.
Ela não disse uma só palavra em sua própria defesa perante o ódio gratuito e diário; limitou-se a morder o lábio inferior com uma força desesperada.
O gosto ferroso e denso do próprio sangue misturou-se rapidamente ao suor frio que brotava em sua testa pálida sob a luz fraca e amarelada da lâmpada.
Lá no fundo do peito, trancada a sete chaves contra aquele mundo hostil e impiedoso, a imagem de Enzo Silva ardia como uma brasa viva, intocável e proibida.
O magnata implacável, o homem cujo império dominava os noticiários econômicos de todo o Brasil com mão de ferro, era o dono secreto de todos os seus suspiros solitários.
Carmen, impaciente com a lentidão e com a simples presença incômoda da caçula, deu um encontrão violento com o quadril no ombro frágil de Victoria.
A força súbita do empurrão forçou a garota a dar dois passos tropeçados para trás, desequilibrando-se completamente sobre o piso de taco encerado da sala de estar.
A velha lousa de desenho e os pesados tubos de tinta óleo que Victoria segurava com tanto desvelo e cuidado escorregaram de suas mãos de uma vez só, fazendo um barulho feio.
Tudo se espalhou pelo chão polido com um estalo seco, manchando o carpete claro e limpo com grandes borrões de tinta preta, azul cobalto e vermelho sangue.
Olha o que você fez, garota inútil! Menina imprestável, até para segurar uns trapos velhos e papéis rasgados você serve nessa casa? gritou Carmen, perdendo de vez a frágil compostura.
Recolha essa porcaria nojenta do meu chão agora mesmo e suma da minha vista para nunca mais voltar! Vai se enfiar no seu cubículo de uma vez por todas antes que eu perca a cabeça.
Victoria agachou-se em silêncio absoluto, tateando o chão frio para juntar os tubos amassados, os pincéis sujos e os pequenos esboços de paisagens urbanas melancólicas.
Nenhum daquelas telas ou rabiscos tinha o menor valor monetário ou sentimental para a mãe; eram apenas lixo inútil ocupando espaço vital em um apartamento obcecado por aparências.
Com o rosto completamente banhado por lágrimas grossas, quentes e absolutamente silenciosas, ela recolheu os retalhos e correu pelo corredor estreito, escuro e abafado.
Aquele cômodo minúsculo localizado nos fundos do apartamento não tinha nenhuma janela para a rua e fedia permanentemente a umidade, mofo e papel velho guardado por décadas.
A única fonte de iluminação vinha de uma lâmpada nua pendurada no teto por um fio descascado que balançava levemente com a vibração constante da estrutura do prédio velho.
Sentada na cadeira de madeira gasta e rangente, Victoria limpou o rosto úmido com as costas da mão calejada e manchada de azul-prússio e vermelho-carmim.
Foi exatamente quando, ao tentar arrumar a gaveta emperrada da velha escrivaninha de madeira onde guardava seus materiais de desenho, o fundo falso de compensado cedeu com um estalo oco.
De lá de dentro, arrastados pelo movimento brusco, escorregaram alguns papéis oficiais, timbrados e confidenciais que Carmen havia deixado cair por engano dias atrás durante uma faxina.
Victoria respirou fundo, tomada por uma onda repentina de curiosidade súbita, e começou a empilhar os documentos espalhados para recolocá-los no lugar devido e evitar brigas.
Foi então que o seu olhar travou de maneira definitiva em um fragmento de papel timbrado com o logotipo inconfundível, luxuoso e pesado da principal holding dos empreendimentos Silva.
As palavras impressas em alta qualidade saltaram diante de seus olhos em letras nítidas, frias e absolutamente implacáveis: Contrato de Aliança Estratégica e Exclusividade Absoluta para Matrimônio.
E, logo abaixo daquele cabeçalho assustador, escrito à mão com uma caligrafia firme, elegante, traçada com tinta preta e de um ar aristocrático inegável, estava o nome completo do homem dos seus sonhos.
Enzo Silva era o nome impresso com todas as letras naquele documento ultra secreto que sua mãe escondia com tanto afinco e desespero na imundície e na escuridão daquele quartinho.
O coração de Victoria deu um salto violento e doloroso na garganta, quase sufocando-a em uma onda de puro pavor, choque e uma incredulidade que paralisava cada músculo do seu corpo.
Ela puxou o pedaço de papel rasgado contra o peito com força, sentindo o relevo daquela tinta como se fosse o toque físico e real daquele homem bilionário e intocável.
O que diabos isso significa de verdade? Por que a minha mãe tem documentos confidenciais e contratos de casamento sobre a família de Enzo guardados aqui? pensou ela, com as mãos trêmulas.
Antes que pudesse processar o tamanho colossal daquela revelação absurda e perigosa, o som estridente e contínuo da campainha ecoou pelo apartamento da frente, quebrando o silêncio.
Seguiu-se o som de passos apressados, saltos altos batendo no chão e os gritos eufóricos, falsos e estridentes de Carmen recebendo as convidadas de honra na sala principal e chique.
Naquele segundo exato e aterrorizante, o barulho abafado da festa misturou-se de forma fantasmagórica com o ranger metálico da porta da despensa que se abria sozinha na penumbra.
Victoria congelou completamente na cadeira de madeira, segurando a folha de papel contra o peito enquanto a respiração lhe faltava por completo, tornando-se um sopro fraco.
A fresta da porta de madeira empurrada por alguém abriu-se mais um pouco, revelando o piso escuro do corredor onde uma sombra longa, pesada e desconhecida começava a se projetar.
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