"Morri no Dia em Que Nosso Contrato Terminou" Capítulo 6 — Eu Não Quero Ir Com Você
Capítulo 6 — Eu Não Quero Ir Com Você
“Se você é meu namorado, por que ela está chamando você de marido?”
Minha voz saiu fraca por causa do ferimento, mas ninguém deixou de ouvir.
Augusto colocou a faca e a maçã sobre a mesa.
“Elisa, não é tão simples.”
“É uma pergunta simples.”
Valentina cruzou os braços.
“Eu também gostaria de ouvir a resposta.”
Ele permaneceu entre nós, como se ainda pudesse controlar as duas versões de sua vida.
“Valentina é minha esposa.”
Senti o estômago se contrair.
“E eu?”
“Você estava comigo antes.”
“Antes do casamento?”
“Sim.”
“Então terminou.”
Augusto apertou o maxilar.
“Não foi isso que eu disse.”
Valentina soltou uma risada curta.
“Ele nunca termina nada, Elisa. Apenas guarda o que acredita que ainda pode usar.”
Augusto voltou-se para ela.
“Chega.”
“Você mentiu para uma mulher sem memória e passou dias brincando de marido dedicado. Mas sou eu quem deve ficar calada?”
O monitor ao lado da cama acelerou.
Rafael entrou acompanhado de uma enfermeira. Bastou olhar para meu rosto para entender que havia algo errado.
“Esta paciente acabou de passar por uma cirurgia delicada. Os dois precisam sair.”
“Isso é assunto de família”, disse Augusto.
“Ela acabou de descobrir que não faz parte da sua.”
Valentina pegou a bolsa.
“Dê sete dias a ele, doutor. Augusto costuma precisar de prazo para decidir qual mulher pretende humilhar.”
Saiu sem olhar para trás.
Augusto tentou permanecer, mas Rafael chamou a segurança do hospital.
“Voltarei quando você estiver mais calma”, disse ele.
“Não volte.”
Augusto me lançou um olhar que misturava raiva e surpresa.
“Você não sabe o que está dizendo.”
“Sei que é casado.”
“Você perdeu sete anos de memória.”
“Mas não perdi meus valores.”
Ele saiu antes que os seguranças chegassem.
Naquela noite, pedi a Rafael que me levasse ao jardim do hospital. Eu precisava respirar longe daquele quarto.
Caminhamos devagar. Ele colocou o próprio casaco sobre meus ombros quando começou a ventar.
“Tenho a sensação de que meu corpo se lembra dele”, confessei. “Sempre que Augusto se aproxima, fico tensa.”
“Memória não existe apenas em palavras.”
“Você acha que ele me machucou?”
Rafael demorou a responder.
“Acho que você tem o direito de descobrir sem ficar sob o controle dele.”
Uma mão agarrou meu pulso.
Augusto estava atrás de nós.
“Volte para o quarto.”
Puxei o braço.
“Solte.”
Rafael colocou-se entre nós.
“Ela pediu que a soltasse.”
“Não se meta.”
“Sou médico dela.”
“E está claramente interessado em ser mais do que isso.”
Augusto tentou avançar. Rafael segurou seu braço antes que ele o empurrasse.
“Não estamos em uma de suas empresas”, disse Rafael. “Aqui, seu sobrenome não lhe dá o direito de tocar em ninguém.”
Os dois ficaram frente a frente.
“Pergunte a ela”, Rafael continuou. “Se Elisa quiser ir com você, não vou impedir.”
Augusto olhou para mim.
“Vamos embora.”
Não era um convite.
Dei um passo para trás.
“Não.”
“Elisa.”
“Eu não quero ir com você.”
Ele abriu a boca, mas eu continuei:
“Não sei o que fomos. Só sei que mentiu quando eu estava vulnerável. E, quando me toca, sinto medo.”
Dois seguranças se aproximaram. Augusto ajeitou o punho da camisa, tentando recuperar a compostura.
“Você vai se arrepender.”
“Talvez. Mas a escolha ainda é minha.”
Na manhã seguinte, solicitei transferência e alta assim que os médicos autorizaram. Rafael pagou a parte das despesas que ainda estava pendente, mas aceitei apenas depois de registrar tudo como empréstimo.
“Vou devolver cada centavo.”
“Está bem”, respondeu ele. “Assim não precisa achar que me deve qualquer outra coisa.”
Ele me levou para uma casa vazia de sua família, distante do hospital e protegida por câmeras. Deu-me uma chave e saiu naquela mesma tarde para um congresso médico em Curitiba.
“Ninguém além de nós sabe que está aqui.”
“Obrigada.”
“Não agradeça ainda. A geladeira está quase vazia.”
Pela primeira vez desde que acordara, sorri sem esforço.
Augusto procurou por mim na casa alugada, no hospital e no endereço de Seu Antônio. Não me encontrou.
Naquela noite, sentado dentro do carro diante do meu portão, recebeu uma ligação do chefe de segurança.
“Identificamos o agressor das imagens da rua. Ele também aparece perto do estacionamento em São Paulo no dia do primeiro ataque.”
Augusto segurou o telefone com mais força.
“Quem pagou?”
“O dinheiro passou por duas empresas, mas a origem leva a uma conta administrada pelo escritório da família Sampaio.”
“Valentina.”
“Há mais uma coisa. Encontramos registros de edição de áudio. Alguém solicitou arquivos antigos com a sua voz.”
Augusto olhou para a casa vazia.
Pela primeira vez, compreendeu o que Elisa quisera dizer quando perguntara se ele mandara matá-la.
Ainda assim, ao ligar para Valentina, não conseguiu confrontá-la.
Se ela confessasse, ele teria de admitir que colocara Elisa ao alcance de uma assassina.
Se negasse, ele continuaria querendo acreditar.
“Quando você volta?” perguntou Valentina.
“Ainda não sei.”
Augusto desligou.
Na casa de Rafael, abri uma caixa onde ele guardara alguns objetos recolhidos do meu antigo endereço. Entre eles estava a pasta com o demonstrativo de R$ 3,8 milhões.
Assim que toquei o papel, uma imagem atravessou minha mente.
Augusto encostando-me contra a parede.
Termina quando eu decidir.
Depois vieram outras.
Valentina me obrigando a ajoelhar sobre os cacos.
O cartão preto sobre a mesa.
A lâmina entrando nas minhas costas.
A voz de Augusto no telefone.
Não eram sonhos.
Sentei-me no chão enquanto sete anos retornavam de uma só vez: as noites em claro, as ordens, as dívidas de Lúcia, a cicatriz no braço, o modo como Augusto me chamava de cachorro.
Lembrei-me também de fotografar as marcas, copiar o contrato e salvar os comprovantes.
Eu já começara a me defender antes de perder a memória.
Na manhã seguinte, fui à Delegacia de Polícia Civil.
Marcelo levantou-se ao me ver.
“Elisa? Disseram que você tinha perdido a memória.”
Coloquei sobre a mesa o contrato, as fotografias, o relatório médico e uma cópia das transferências.
“Eu recuperei tudo.”
Ele fechou a porta da sala.
“Tem certeza de que quer fazer isso?”
Olhei para a cicatriz em meu braço. Depois toquei o curativo em meu pescoço.
“O mesmo homem tentou me matar duas vezes.”
Empurrei a fotografia borrada do agressor na direção dele.
“E eu sei por onde devemos começar.”
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