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"Morri no Dia em Que Nosso Contrato Terminou" Capítulo 5 — Quando Esqueci o Homem Que Me Quebrou

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Capítulo 5 — Quando Esqueci o Homem Que Me Quebrou

Augusto entrou no Hospital Regional da Serra carregando Elisa nos braços.

“Ela está perdendo muito sangue!”

Enfermeiros correram com uma maca. Uma médica afastou a mão que ele mantinha sobre o pescoço de Elisa e substituiu a pressão por gazes.

“Quanto tempo desde o ferimento?”

“Menos de dez minutos.”

“Arma?”

“Faca.”

As portas do centro cirúrgico se fecharam diante dele.

Augusto ficou parado no corredor, respirando como se também tivesse sido ferido. Havia sangue nas mangas do sobretudo, na camisa e dentro das linhas de suas mãos.

O motorista perguntou se deveria chamar a polícia.

“Já deveria ter chamado.”

Augusto olhou para o próprio reflexo no vidro.

“E encontre aquele homem antes deles.”

Sentou-se apenas quando as pernas ameaçaram falhar.

Durante sete anos, Elisa estivera sempre no mesmo lugar. Na cozinha quando ele voltava tarde. No corredor quando uma reunião terminava. Ao lado da cama quando a dor no estômago o acordava.

Ele nunca precisara perguntar se ela estaria lá.

No começo, chamava aquilo de lealdade.

Depois passou a tratar como obrigação.

Uma lembrança surgiu sem permissão: Elisa aos vinte anos, segurando o braço cortado depois de se colocar diante de uma faca destinada a ele.

“Corra, Augusto!”

Ela sangrava e ainda pensava em salvá-lo.

Agora seu sangue secava nas mãos dele.

O telefone vibrou.

Valentina.

Augusto rejeitou a chamada.

Ela ligou novamente. Na terceira vez, enviou uma mensagem.

Você prometeu voltar hoje.

Ele respondeu apenas:

Estou ocupado.

Desligou o aparelho.

A cirurgia durou quase seis horas. Quando a médica saiu, retirando a máscara, Augusto se levantou de imediato.

“A lâmina passou a poucos milímetros da carótida. Conseguimos controlar a hemorragia, mas houve um período de baixa oxigenação. Precisamos esperar que ela acorde para avaliar possíveis sequelas.”

“Ela vai viver?”

“Neste momento, está estável.”

Augusto fechou os olhos por um instante.

Aquilo deveria ter sido suficiente. Não foi.

Ele permaneceu ao lado da cama durante a madrugada. Quando Elisa finalmente mexeu os dedos, inclinou-se para perto.

“Elisa?”

Ela abriu os olhos devagar.

O olhar percorreu o teto, os aparelhos e o curativo em seu pescoço. Por fim, parou no rosto dele.

“Onde estou?”

“No hospital. Você foi atacada.”

Elisa tentou engolir e sentiu dor.

“Quem é você?”

Augusto ficou imóvel.

“Não me reconhece?”

Ela balançou a cabeça.

Os exames indicaram perda seletiva de memória. Elisa lembrava da infância, da morte do pai e da casa de Seu Antônio. As lembranças dos últimos sete anos, porém, eram fragmentos inacessíveis.

“Traumas físicos e emocionais podem interferir na recuperação da memória”, explicou a neurologista. “Não a force. As recordações podem voltar aos poucos ou nunca retornar por completo.”

Augusto parou diante da porta do quarto.

Elisa não se lembrava do contrato.

Não se lembrava de Valentina.

Não se lembrava de temê-lo.

Nos dias seguintes, ele percebeu que a mulher na cama era diferente daquela que conhecia.

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Ela agradecia às enfermeiras pelo nome. Pediu que abrissem a cortina para ver o sol. Riu quando uma auxiliar trouxe gelatina verde e afirmou que aquela cor não deveria existir em nenhum alimento.

Augusto nunca a vira rir daquele jeito.

Ou talvez tivesse visto, muitos anos antes, e esquecido.

Quando ele lhe entregava água, Elisa dizia “obrigada”. Quando ajustava seu travesseiro, ela repetia a mesma palavra.

Cada agradecimento criava uma distância educada entre os dois.

“O que nós éramos?” ela perguntou certa tarde.

Augusto fechou o notebook.

“Éramos próximos.”

“Parentes?”

“Não.”

“Amigos?”

Ele deveria ter dito a verdade. Em vez disso, escolheu a versão que lhe permitiria mantê-la.

“Eu sou seu namorado.”

Elisa o observou por alguns segundos.

“Então por que não há nenhuma fotografia nossa no meu telefone?”

“Você perdeu o aparelho antigo.”

“E por que me sinto nervosa quando chega perto?”

Augusto sustentou seu olhar.

“Porque quase morreu. Está assustada com tudo.”

Ela pareceu aceitar, embora não sorrisse para ele como sorria para os outros.

Dois dias depois, um novo médico entrou no quarto com a ficha nas mãos. Era alto, usava óculos de armação fina e tinha o cabelo castanho ainda úmido da chuva.

Ao ler o nome no prontuário, ergueu os olhos.

“Elisa Moreira?”

Ela o encarou. Então seu rosto se iluminou.

“Rafael?”

O médico retirou a máscara.

“Você se lembra de mim?”

“Você morava ao lado da casa do meu avô. Colocou uma escada na janela quando eu fiquei trancada no quarto.”

Rafael riu, emocionado.

“E você dividiu comigo uma batata-doce porque minha mãe me deixou de castigo sem sobremesa.”

Elisa riu também.

Conversaram sobre a escola, o riacho onde procuravam vaga-lumes e a figueira da praça. A voz dela ganhou uma leveza que Augusto não ouvira em anos.

Ele permaneceu à porta com uma sacola de comida na mão.

Rafael notou sua presença primeiro.

“O senhor é familiar?”

“Sou namorado dela.”

Elisa franziu a testa, como se ainda tentasse encaixar aquela informação.

Rafael fechou a ficha.

“Sou o cirurgião responsável pelo acompanhamento da lesão. Qualquer alteração deve ser comunicada à equipe.”

“Mantenha sua relação com ela no âmbito profissional”, respondeu Augusto.

O médico não se intimidou.

“Minha relação com Elisa começou antes de eu vestir um jaleco.”

Augusto deu um passo para dentro, mas Elisa interrompeu o confronto.

“Rafael, você pode voltar amanhã?”

“Claro.”

Depois que ele saiu, Augusto colocou a comida sobre a mesa.

“Você parece feliz em vê-lo.”

“Ele é meu amigo.”

“Não quero que fique sozinha com ele.”

Elisa ergueu as sobrancelhas.

“Você sempre decide com quem posso falar?”

A pergunta o atingiu porque a resposta era sim.

Na tarde seguinte, Elisa observou Augusto derramar metade da sopa enquanto tentava servi-la.

“Se é meu namorado, por que contratou uma cuidadora em vez de cuidar de mim?”

Ele pousou a concha.

“Você quer que eu cuide?”

“Quero saber se o que diz é verdade.”

Augusto dispensou a cuidadora.

Aprendeu a descascar maçãs, separar os remédios e preparar uma sopa simples. Elisa agradecia cada gesto, mas nunca o tocava espontaneamente.

Mesmo assim, ele começou a gostar da rotina.

Numa manhã de chuva, ela desenhou um rosto sorridente no vidro embaçado. Augusto quase sorriu também.

A porta se abriu.

Valentina entrou usando um casaco bege e segurando os óculos escuros. Seus olhos foram da maçã nas mãos de Augusto para Elisa na cama.

“Então era isso que o mantinha tão ocupado.”

Ela se aproximou e pousou a bolsa sobre a poltrona.

“Meu amor, você não pretende apresentar sua paciente à sua esposa?”

Elisa olhou para Augusto.

“Esposa?”

Valentina sorriu sem qualquer calor.

“Sim. Esposa.”

Elisa arrancou a mão quando Augusto tentou tocá-la.

“Você disse que era meu namorado.”

O silêncio dele respondeu antes de qualquer palavra.

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