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"Morri no Dia em Que Nosso Contrato Terminou" Capítulo 4 — A Vida Que Minha Mãe Me Deu

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Capítulo 4 — A Vida Que Minha Mãe Me Deu

Toquei a mão de minha mãe.

Estava fria.

O caderno escorregou dos meus dedos e caiu no chão do necrotério. A página permaneceu aberta naquela última frase, escrita na noite em que meu coração parara.

Se for verdade que uma vida pode pagar por outra, levem a minha.

“Onde encontraram isso?” perguntei.

O delegado Marcelo recolheu o caderno e o colocou sobre a mesa.

“Dentro da bolsa dela.”

“Alguém leu?”

“Apenas o necessário para localizar um familiar.”

Eu me apoiei na borda metálica. Minha mãe não conhecia aquela mulher do lugar escuro, nem o livro que continha meu nome. Ainda assim, escrevera exatamente o que eu ouvira antes de voltar.

Uma vida por outra.

“A hemorragia começou quando?”

Marcelo consultou a ficha.

“Segundo as testemunhas, ela passou mal há cerca de quarenta minutos. Mas algumas pessoas disseram que vinha sentindo dores de cabeça desde o mês passado.”

Desde a noite em que eu morrera.

Fechei os olhos.

Durante anos, eu transformara Lúcia apenas na mulher que perdia dinheiro. Era mais fácil sentir raiva do que lembrar da mãe que costurava minha mochila à luz de vela ou deixava de jantar para que eu repetisse o prato.

Depois da morte de meu pai, ela começou a jogar para pagar uma conta.

Depois passou a jogar para recuperar o que perdera.

No fim, já não sabia viver sem apostar na próxima vitória.

Ela me amava. Também me ferira profundamente.

As duas coisas eram verdade.

“Posso ficar com ela um pouco?”

Marcelo assentiu e saiu.

Sentei-me ao lado do corpo e segurei a mão de Lúcia entre as minhas.

“Eu ainda amava você, mãe.”

As palavras saíram tarde demais.

“Eu só não conseguia continuar morrendo para pagar suas dívidas.”

Inclinei a testa sobre nossos dedos unidos.

“Você me devolveu uma vida. Eu prometo que não vou entregá-la a mais ninguém.”

Providenciei o funeral com a ajuda de Seu Antônio. Os agiotas ligaram duas vezes durante o velório. Na terceira, entreguei o número a Marcelo e bloqueei todos os contatos.

Quando um homem apareceu no cemitério exigindo pagamento, o delegado já tinha uma equipe esperando.

“A dívida era dela”, disse o homem, antes de ser conduzido para prestar esclarecimentos.

“E morreu com ela”, respondi.

Eu não sabia se a lei resolveria tudo, mas aquela foi a primeira vez que não pedi a Augusto que resolvesse por mim.

Lúcia foi enterrada em uma manhã de céu cinzento. Coloquei sobre o caixão uma pequena flor amarela, da mesma cor do vestido citado no diário.

Fiquei diante da sepultura até todos irem embora.

“Vou viver por nós duas”, sussurrei.

Quando voltei para a casa alugada, encontrei três envelopes empurrados sob a porta. Nenhum trazia nome de empresa, CNPJ ou contrato. Havia apenas valores escritos à mão e uma fotografia minha saindo do mercado.

No verso da foto, alguém escrevera:

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Filha herda dívida de mãe.

Meu primeiro impulso foi telefonar para Augusto. Durante sete anos, eu resolvera todo perigo entregando-o a ele. Augusto pagava, ameaçava alguém e depois acrescentava o favor à lista invisível das coisas que eu lhe devia.

Deixei o número dele na tela sem apertar o botão.

Em vez disso, coloquei luvas, guardei os envelopes em sacos separados e liguei para Marcelo.

Ele chegou acompanhado de uma investigadora chamada Camila Reis. Fotografaram a porta, recolheram os papéis e pediram as mensagens de cobrança que eu ainda possuía.

“Não faça nenhum pagamento”, Camila orientou. “Dívida de jogo clandestino não se transforma em obrigação da filha. E usar ameaça para cobrar dinheiro é crime.”

“Eles sabem onde trabalho.”

“Então vamos avisar o gerente e solicitar as imagens das câmeras. Se aparecerem, não confronte ninguém. Ligue para nós.”

Entreguei também os números das contas que Lúcia usava. Algumas transferências iam para pessoas diferentes, mas todas continham a mesma descrição abreviada.

Marcelo anotou cada detalhe.

“Isso pode nos levar aos responsáveis pelo salão.”

Depois que saíram, troquei a fechadura e avisei Seu Antônio de que não deveria abrir a porta para desconhecidos. Também pedi ao mercado que não informasse meus horários por telefone.

Eram providências pequenas. Mesmo assim, naquela noite senti algo que não conhecia.

Eu não tinha esperado um homem poderoso me salvar.

Eu havia reconhecido o perigo, preservado as provas e procurado a polícia por conta própria.

Talvez fosse assim que uma nova vida começava: não com coragem suficiente para deixar de sentir medo, mas com a decisão de não obedecer a ele.

Nos dias seguintes, voltei ao trabalho. Precisava de rotina para não me afogar na culpa.

Na sexta-feira, saí do mercado e vi um carro preto estacionado do outro lado da rua.

Augusto estava encostado na porta.

Trazia um envelope e o mesmo olhar impassível de sempre.

“Soube de sua mãe.”

“Como?”

“Tenho pessoas que me informam sobre você.”

A resposta não continha vergonha.

“Sinto muito”, acrescentou.

“Obrigada.”

Ele abriu o envelope e retirou um cartão.

“Há quinhentos mil reais nesta conta. É a última vez. Depois disso, farei o que Valentina quer e encerraremos tudo.”

Olhei para o cartão sem tocá-lo.

Eu passara sete anos esperando Augusto escolher ficar. Agora que ele finalmente dizia que partiria, senti apenas cansaço.

“Não preciso.”

“Você acabou de pagar um funeral.”

“Paguei com o dinheiro que ganhei.”

“Esse orgulho não combina com você.”

“Talvez você nunca tenha me conhecido.”

Augusto apertou o cartão entre os dedos.

“Elisa, aceite. Não vou oferecer de novo.”

“É exatamente por isso que não quero.”

Passei por ele.

“Espero que você e sua esposa sejam felizes.”

Augusto ficou imóvel atrás de mim. Não discutiu nem tentou me segurar.

Cheguei a acreditar que aquela seria nossa despedida.

Ouvi a porta do carro bater. O motor ligou.

Então Augusto gritou meu nome.

“Elisa!”

Virei-me.

Um homem de boné escuro surgiu da esquina. Reconheci o jeito de caminhar antes de enxergar o rosto coberto.

Era o homem do estacionamento.

Tentei recuar, mas ele já estava perto demais.

O brilho da lâmina passou diante dos meus olhos.

Senti calor no pescoço.

Levei a mão à garganta, e meus dedos ficaram vermelhos.

O homem fugiu.

Minhas pernas cederam.

Augusto me alcançou antes que minha cabeça atingisse o chão. Pressionou a ferida com a mão enquanto gritava para o motorista chamar uma ambulância.

“Olhe para mim.”

O rosto dele perdeu a cor.

“Elisa, abra os olhos!”

Tentei falar, mas o sangue entrou em minha boca.

A última coisa que vi foi Augusto ajoelhado no asfalto, com as mãos cobertas pelo meu sangue.

Na primeira vez, eu morrera ouvindo sua voz.

Na segunda, morria em seus braços.

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