"Morri no Dia em Que Nosso Contrato Terminou" Capítulo 3 — A Esposa Veio Me Ensinar Meu Lugar
Capítulo 3 — A Esposa Veio Me Ensinar Meu Lugar
Voltei do mercado pouco depois das seis e encontrei o portão aberto.
Meus vasos estavam quebrados no quintal. Terra e folhas de hortelã cobriam o piso.
Ouvi o salto antes de vê-la.
Valentina Sampaio saiu da sala usando um casaco claro, botas de couro e uma expressão tão impecável quanto nas fotografias do casamento.
Dois homens aguardavam atrás dela.
“Então é aqui que meu marido esconde você.”
“Eu não pedi que ele viesse.”
Valentina me deu um tapa.
Minha cabeça virou para o lado. Senti gosto de sangue.
“Não use esse tom comigo.”
Levei a mão ao rosto.
“Augusto e eu terminamos antes do casamento de vocês. O dinheiro que ele enviou foi devolvido.”
“Acha que isso muda alguma coisa?”
Ela caminhou pelo quintal destruído, esmagando folhas sob as botas.
“Ele abandonou reuniões que valiam milhões para vir atrás de você. Desde que nos casamos, passa mais tempo procurando uma mulher que chama de cachorro do que ao lado da própria esposa.”
Meu corpo esfriou.
“Foi ele quem me chamou assim?”
Valentina sorriu.
“Muitas vezes.”
Fez um gesto, e os homens agarraram meus braços.
“Eu não quero seu marido.”
“Mas ele ainda quer possuir você.”
Valentina se aproximou até que eu sentisse seu perfume.
“Por isso vim ensinar qual é o seu lugar.”
Um dos homens me empurrou de joelhos sobre os cacos de um vaso. A dor atravessou minhas pernas.
O primeiro golpe atingiu minhas costas. O segundo, meu ombro. Encolhi-me, protegendo a cabeça enquanto uma bota acertava minhas costelas.
Valentina observou sem desviar os olhos.
“Da próxima vez, não deixarei você sair andando.”
Eles foram embora tão depressa quanto chegaram.
Fiquei no chão até o som do carro desaparecer. Depois procurei meu telefone entre os móveis revirados.
Fotografei os vasos, as pegadas e os hematomas. Encaminhei tudo ao meu e-mail.
Eu queria ir à polícia.
Mas a voz ouvida no estacionamento voltou à minha cabeça.
Augusto controlava empresários, advogados e políticos. Valentina pertencia a uma família igualmente poderosa. Eu não sabia em quem podia confiar.
Tranquei as fotos e os documentos em uma pasta digital e anotei a hora da invasão.
Só depois me permiti deitar no sofá.
Anoiteceu.
A porta se abriu novamente.
Augusto entrou carregando uma sacola de farmácia. Ao me ver machucada, franziu a testa.
“O que aconteceu?”
“Sua esposa esteve aqui.”
Ele ficou em silêncio.
“Augusto, quero que isso acabe.”
Minha voz saiu rouca.
“Não quero seu dinheiro. Não quero ser sua amante. Não quero voltar para São Paulo. Deixe-me em paz.”
Ele colocou a sacola sobre a mesa.
“Tudo bem.”
Por um segundo, quase acreditei.
Então Augusto tirou uma pasta do casaco e lançou um demonstrativo diante de mim.
“Pague o que me deve.”
Olhei para o total impresso na última página.
R$ 3.800.000.
“Isso não existe.”
“Tratamentos de sua mãe, dívidas, moradia, segurança, viagens e despesas pessoais. Corrigidos desde o dia em que a tirei daquele bar.”
“O contrato dizia que pagar as dívidas dela era sua parte do acordo.”
“E você decidiu sair antes que eu liberasse você.”
“Os sete anos terminaram.”
“Mas eu não terminei.”
Augusto se ajoelhou diante do sofá e abriu um frasco de antisséptico.
“Se não consegue pagar, comporte-se. Valentina não voltará a tocar em você.”
“Você sabia que ela viria?”
Ele não respondeu.
Molhou uma gaze e começou a limpar o corte no meu joelho. Seu gesto parecia cuidadoso, mas cada toque me lembrava que eu estava diante do homem cuja voz ouvira enquanto sangrava no concreto.
“Você mandou me matar?”
A mão dele parou.
“O quê?”
“Nada.”
Eu não possuía prova. Ainda não.
Augusto terminou o curativo e se levantou.
“Fique aqui. Voltarei quando as coisas se acalmarem em São Paulo.”
“Não volte.”
Ele me lançou um olhar frio.
“Você ainda não entendeu. Não estou pedindo permissão.”
Quando saiu, fotografei o demonstrativo e guardei a pasta. Depois liguei para uma central de atendimento jurídico gratuito. Marcaram uma orientação para a semana seguinte.
Eu não sabia se conseguiria enfrentar Augusto.
Mas já não pretendia aceitar a palavra dele como lei.
No dia seguinte, trabalhei apesar da dor. Cada movimento fazia minhas costelas arderem.
Ao voltar para casa, reparei que Lúcia ainda não respondera às minhas mensagens.
Às dez e quarenta da noite, o telefone tocou.
“Senhora Elisa Moreira?”
“Sim.”
“Aqui é o delegado Marcelo Nunes, da Polícia Civil. Encontramos seus dados nos pertences de Lúcia Moreira.”
Meu coração acelerou.
“Minha mãe fez alguma coisa?”
Do outro lado, houve uma pausa curta demais para ser casual.
“A senhora precisa vir ao Hospital Regional da Serra.”
“Ela está ferida?”
“Venha o mais rápido possível.”
Peguei a bolsa e saí sem trocar de roupa.
Durante o trajeto, liguei para Lúcia sete vezes. Em todas, caiu na caixa postal.
A chuva fina se transformou em granizo quando cheguei ao hospital. Marcelo me esperava no corredor. Era um homem de pouco mais de quarenta anos, com olheiras profundas e uma pasta sob o braço.
“Onde ela está?”
Ele não respondeu de imediato.
Apenas começou a caminhar.
Seguimos por dois corredores até uma área sem visitantes. Quando vi a placa na porta, minhas pernas perderam a força.
Necrotério.
O mesmo lugar de onde eu havia saído viva poucas semanas antes.
Marcelo segurou a porta e falou com cuidado:
“Sua mãe sofreu uma hemorragia cerebral durante uma partida clandestina. Quando chegou ao hospital, já não havia nada que os médicos pudessem fazer.”
Entrei.
Lúcia estava sob um lençol branco. Seu rosto parecia menor, livre da ansiedade que carregara durante anos.
“Mãe?”
Minha voz morreu no silêncio.
Marcelo colocou uma bolsa gasta sobre a mesa.
“Estes eram os pertences dela.”
Dentro havia chaves, lenços, um baralho incompleto e um caderno.
Abri na primeira página.
As anotações começavam no ano em que meu pai morreu. Falavam de contas atrasadas, material escolar e uma menina que precisava de sapatos novos.
Depois vinham os jogos.
Ganhei cem reais. Posso pagar a excursão de Elisa.
Perdi o dinheiro da luz. Amanhã eu recupero.
Ganhei duzentos. Vou comprar o vestido amarelo que ela queria.
As páginas seguintes eram uma queda lenta: empréstimos, juros, promessas e culpa.
Na última folha, a tinta estava borrada.
Mas consegui ler.
Se for verdade que uma vida pode pagar por outra, levem a minha. Eu já perdi meu marido. Não vou perder minha filha também.
As datas coincidiam.
Minha mãe escrevera aquilo na noite em que meu coração parou.
Levantei os olhos para o corpo coberto e senti o mundo desaparecer ao meu redor.
Não fora meu avô.
Não fora Augusto.
Lúcia havia me devolvido a vida.
E eu a expulsara sem dizer que ainda a amava.
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