"Morri no Dia em Que Nosso Contrato Terminou" Capítulo 2 — A Mulher Que Ele Queria Esconder
Capítulo 2 — A Mulher Que Ele Queria Esconder
São Joaquim me recebeu com neblina, araucárias escuras e um frio que atravessava o casaco.
Meu avô morava em uma casa antiga, no fim de uma rua inclinada. Quando bati à porta, Seu Antônio apareceu apoiado em uma bengala.
Por alguns segundos, apenas me encarou.
“Elisa?”
A voz dele falhou.
Eu o abracei com cuidado. Seu corpo estava mais magro do que eu lembrava, mas os braços ainda tinham o mesmo calor da minha infância.
Contei que meu coração havia parado e que, durante aquele vazio, alguém dissera que outra pessoa entregara a vida para que eu voltasse.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
“Se eu soubesse, daria todos os dias que me restam por você.”
“Então não foi o senhor?”
“Não, minha menina.”
Ele apertou minha mão.
“Talvez você nunca descubra. Mas, seja quem for, honre essa pessoa vivendo como deseja. Não volte para quem tentou destruir você.”
Não contei que suspeitava de Augusto. Meu avô tinha o coração fraco e não precisava carregar aquele medo.
Também não fiquei na casa dele. Aluguei uma pequena construção no bairro São José, com um quintal estreito e vista para uma fileira de araucárias.
Comprei dois vasos de manjericão e um de hortelã. Abri as janelas. Deixei o sol tocar minhas mãos.
Cada sensação provava que eu continuava ali.
Consegui emprego como caixa em um mercado. O salário era modesto, mas cobria o aluguel e a comida. Pela primeira vez, o dinheiro que entrava na minha conta não vinha de Augusto.
Antes de começar, fotografei o antigo contrato, os comprovantes das transferências feitas para os credores de minha mãe e o cartão que Augusto deixara comigo. Salvei cópias em um e-mail novo.
Eu ainda não sabia como usaria aquilo.
Só sabia que nunca mais permitiria que alguém apagasse minha história.
Duas semanas depois, uma notícia apareceu no celular de uma colega.
“Olha isso, Elisa. Casamento de bilionários parece novela.”
Augusto e Valentina ocupavam a tela.
Ela vestia um modelo branco de alta-costura e caminhava sob milhares de orquídeas. Augusto colocou a aliança em seu dedo diante de empresários, políticos e câmeras.
Ele sorria.
Durante sete anos, eu tentara descobrir como provocar aquele sorriso.
Nos comentários, as pessoas os chamavam de casal perfeito. Diziam que finalmente Augusto encontrara uma mulher à altura dele.
Fechei a notícia e olhei para meu dedo vazio.
Eu nunca tivera vestido, cerimônia ou aliança. O contrato nem sequer me transformara em esposa legal. Eu fora apenas uma companheira fabricada para fotografias e jantares de família.
Naquela noite, chorei por tudo o que acreditara ter vivido.
Na manhã seguinte, levantei, lavei o rosto e fui trabalhar.
Três dias depois, Augusto apareceu diante da minha porta.
“Sua mãe foi ao Grupo Montenegro”, disse, sem me cumprimentar. “Fez um escândalo na recepção e exigiu oitocentos mil reais.”
“Você pagou?”
“Sim.”
“Não deveria. Agora ela voltará.”
Augusto entrou sem ser convidado. Olhou para a sala pequena, os móveis usados e as plantas no quintal.
“Você pretende morar neste lugar?”
“Pretendo.”
“Quando volta para São Paulo?”
“Não volto.”
Ele retirou um cartão preto do bolso e o colocou sobre a mesa.
“Todos os meses depositarei o mesmo valor de antes. Você pode ficar aqui, se prefere. Eu virei quando tiver tempo.”
Demorei alguns segundos para compreender.
“Você acabou de se casar.”
“E daí?”
“Valentina sabe que você quer me manter como amante?”
Augusto soltou um suspiro impaciente.
“Homens na minha posição não precisam explicar cada relação. Se você se comportar, não terá problemas. Eu cuidarei das dívidas de sua mãe.”
“Não quero seu dinheiro.”
“Você sempre quis.”
“Eu queria que minha mãe não fosse morta por agiotas. É diferente.”
Empurrei o cartão na direção dele.
Augusto não o pegou.
“Durante sete anos, você dormiu na minha casa, usou meus carros e viveu do que eu pagava. Não finja dignidade agora.”
“Durante sete anos, servi de escudo para você.”
Ergui a manga e mostrei a cicatriz no braço.
“Nosso acordo terminou.”
Ele segurou meu pulso.
“Termina quando eu decidir.”
Tentei me afastar, mas Augusto me encurralou contra a parede. O cheiro do perfume dele, que antes significava casa, fez meu estômago se revirar.
“Solte-me.”
“Você está mais magra.”
Seus dedos tocaram meu rosto como se ainda tivesse direito sobre ele.
“Augusto, não.”
Minha recusa não o deteve.
Quando finalmente saiu, deixou o cartão sobre a mesa e dez mil reais transferidos para minha conta.
Fiquei sentada no chão do banheiro por muito tempo, abraçando os joelhos. Depois tomei banho, vesti roupas limpas e fotografei a marca deixada em meu pulso.
Não apaguei a transferência.
Não toquei no dinheiro.
Mandei tudo para o e-mail onde guardava as outras provas.
Augusto pensava que meu silêncio ainda significava obediência.
Não sabia que eu começava a registrar cada coisa que ele fazia.
Uma semana depois, ao voltar do mercado, encontrei Lúcia me esperando na esquina.
Ela correu para me abraçar.
“Filha, senti tanto sua falta!”
Por um instante, permiti-me descansar naquele abraço. Então ela se afastou e esfregou as mãos.
“Perdi mais trinta mil. Se você me der pelo menos cinco, consigo recuperar o restante.”
O pouco calor que eu sentira desapareceu.
“Você veio por mim ou pelo dinheiro?”
“Que pergunta é essa? Sou sua mãe.”
“Então pare de jogar.”
Minha voz quebrou.
“Tenho vinte e seis anos e não possuo nada. Vendi sete anos da minha vida para pagar suas dívidas. Morri sem ter uma casa, uma profissão ou uma família de verdade.”
Lúcia empalideceu.
“Morreu?”
“Quase.”
As lágrimas escorreram antes que eu pudesse contê-las.
“Eu queria viver como uma pessoa normal. Queria acordar sem medo de receber uma cobrança sua. Quando isso vai acabar?”
Minha mãe ergueu a mão para enxugar meu rosto, mas eu recuei.
“Não me peça mais dinheiro.”
Lúcia permaneceu imóvel. Depois assentiu, com os olhos vermelhos.
“Está bem. Desta vez eu vou cumprir. Vou devolver tudo o que tirei de você.”
Ela foi embora antes que eu respondesse.
Na manhã seguinte, entrei no aplicativo do banco e devolvi os dez mil reais para Augusto. Na descrição da transferência, escrevi:
Não sou sua amante. Não sou sua propriedade.
Na mesma hora, em São Paulo, o celular de Augusto vibrou sobre a mesa de reuniões.
Valentina estava sentada ao lado dele quando a notificação apareceu.
Ela leu meu nome.
Não disse nada.
Mas naquela tarde contratou um investigador para descobrir onde eu morava.
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