"Quando Voltei a Ser Eu" Capítulo 5 — O Homem Que Só Me Amava Quando Eu Era Um Homem
Capítulo 5 — O Homem Que Só Me Amava Quando Eu Era Um Homem
Na manhã seguinte, Leonardo acordou com a sensação de que algo estava errado.
Durante a madrugada, sonhara novamente com Rafael.
O mesmo sonho que o perseguia havia cinco anos.
Nele, os dois estavam sozinhos no antigo estúdio da Vértice. Rafael usava uma camisa branca, os cabelos mais longos do que na época da banda.
Quando Leonardo o abraçava, não havia choque nem repulsa.
Havia desejo.
Ele despertava sempre antes de ver o rosto que se escondia contra seu pescoço.
Desta vez, porém, uma palavra permanecera em sua mente.
Rafaela.
Leonardo saiu da cama e ligou para Bruno.
"Quero saber onde Rafael está."
Houve uma hesitação do outro lado.
"Senhor, há uma situação urgente na empresa."
"Resolva."
"É sobre ele."
Uma hora depois, Leonardo entrou na sala de reuniões da Valença Studios. Os diretores jurídicos e financeiros já o aguardavam.
Na tela principal apareciam duas fichas de identificação.
Uma pertencia a Rafael Rocha.
A outra, a Rafaela Rocha.
As fotografias eram de duas crianças quase idênticas.
Leonardo ficou de pé diante da tela.
"O que é isso?"
Bruno fechou a porta.
"Revisei os documentos do contrato americano. Havia divergências nos exames médicos e nos registros antigos."
"Que divergências?"
"O CPF usado por Rafael pertence a uma pessoa declarada morta dez anos atrás."
Um dos advogados se levantou.
"Pode ser fraude documental."
Bruno apertou o controle.
Surgiu na tela a certidão de óbito de Rafael Rocha, emitida quando ele tinha dezesseis anos.
Abaixo dela, uma antiga certidão de nascimento registrava dois bebês.
Rafael Rocha.
Rafaela Rocha.
"Os gêmeos eram um menino e uma menina", Bruno continuou. "Rafael morreu antes da estreia da Vértice."
Leonardo não conseguia desviar os olhos da fotografia da garota.
"Então quem entrou no grupo?"
"Rafaela."
O silêncio na sala tornou-se absoluto.
Memórias que nunca haviam se encaixado começaram a encontrar seus lugares.
Rafael evitando vestiários.
Rafael recusando exames.
Rafael dormindo com a porta trancada.
Rafael jamais tirando a camisa diante dos outros integrantes.
A cintura estreita sob a mão de Leonardo.
O pânico na noite anterior, quando ele exigira uma verificação física.
"Meu Deus."
Ele se apoiou na mesa.
Rafaela fora acusada de violentar uma mulher.
Camila e Sônia sabiam que ela era incapaz de se defender sem revelar o segredo.
E ele oferecera um casamento como punição.
O diretor jurídico abriu uma pasta.
"Leonardo, isso é grave. Ela ocultou a identidade e o sexo biológico durante dez anos. Podemos mover uma ação por fraude e recuperar—"
"Não."
"Mas os prejuízos à marca Vértice—"
"Eu disse não."
Leonardo levantou o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, mas sua voz saiu firme.
"Retirem a rescisão. Cancelem a multa de oito milhões e todas as medidas relacionadas à denúncia."
Os executivos se entreolharam.
"Ela ainda está sob investigação", argumentou o advogado.
"Então investiguem Bianca."
Leonardo apontou para Bruno.
"Quero registros bancários, mensagens, acesso à mansão, câmeras da rua e o leitor eletrônico do quarto. Tudo."
"Sim, senhor."
"E preparem um contrato novo."
O diretor financeiro franziu a testa.
"Que tipo de contrato?"
"Diretora da divisão musical. Controle criativo total, participação nos lucros e uma turnê mundial."
Alguém soltou uma exclamação.
"Vai recompensá-la depois de descobrir uma fraude?"
"Ela não será recompensada por mentir."
Leonardo pegou as chaves do carro.
"Será compensada pelo que todos nós fizemos com ela."
Ele deixou o edifício antes que alguém tentasse impedi-lo.
Durante o trajeto até a mansão, ligou repetidas vezes para o número de Rafaela.
Desligado.
Cada chamada não atendida aumentava a pressão em seu peito.
Cinco anos antes, ele encontrara a carta e sentira o mundo desabar.
Acreditava que Rafael fosse um homem.
Ainda assim, o que o assustara não fora a declaração.
Fora perceber que também o amava.
Em vez de enfrentar o próprio sentimento, expulsara Rafael do grupo e o mandara para longe. Depois, escolhera Camila, a mulher que mais se parecia com ele, numa tentativa covarde de convencer o mundo e a si mesmo de que nunca tivera dúvidas.
Mas Rafael nunca fora Rafael.
E isso não aliviava sua culpa.
Tornava tudo pior.
Ao chegar à mansão, Leonardo sequer esperou que o portão terminasse de abrir.
Sônia apareceu no hall. Camila desceu a escada logo atrás.
"Leo, por que não avisou que vinha?", ela perguntou.
"Onde está Rafaela?"
Camila parou.
Sônia empalideceu.
"Quem?"
"Não minta para mim."
Ele colocou a certidão de nascimento sobre a mesa.
"Eu sei que Rafael morreu dez anos atrás. Sei que a pessoa que vocês obrigaram a ocupar o lugar dele é Rafaela."
Camila tentou tocá-lo.
"Eu queria contar, mas mamãe não permitiu."
Leonardo afastou a mão dela.
"Você queria contar ontem, quando colocou Bianca na cama de sua irmã?"
"Não fui eu!"
"Então por que as câmeras foram desligadas?"
"Como vou saber?"
"Porque o código usado para desativá-las pertence a você."
A cor desapareceu do rosto de Camila.
Leonardo ainda não tinha a confirmação de Bruno. Estava blefando.
O medo dela respondeu por si só.
"Onde está Rafaela?"
Sônia cruzou os braços.
"Foi embora."
"Para onde?"
"Não sabemos."
"Ela estava doente."
"Minha filha sempre foi dramática."
"Ela vomitou sangue!"
Camila começou a chorar.
"Ela assinou a renúncia ao fundo e pegou o dinheiro. Disse que voltaria para os Estados Unidos."
"Que dinheiro?"
"Um acordo para evitar que atacasse nossa família."
Leonardo encarou as duas.
"Vocês pagaram para que ela desaparecesse?"
"Nós a sustentamos a vida inteira", Sônia retrucou. "Tudo o que ela conquistou foi usando o nome do irmão."
"Foi ela quem sustentou vocês."
Sônia abriu a boca, mas Leonardo não permitiu que falasse.
"O noivado acabou."
Camila congelou.
"O quê?"
"Você ouviu."
"Não pode fazer isso por causa dela."
"Nunca deveria ter pedido você em casamento."
Camila tentou agarrá-lo.
"Leo, pense na empresa. O anúncio já foi feito, os investidores—"
"Que as ações caiam."
"Você vai destruir tudo por Rafaela?"
Leonardo retirou a aliança da mão dela.
"Não. Você destruiu tudo quando decidiu destruir sua própria irmã."
Subiu as escadas e encontrou o quarto no fim do corredor.
Era pequeno, úmido e frio.
Nada ali combinava com um artista que ganhara milhões.
No armário havia ternos antigos e camisetas largas. Numa gaveta, Leonardo encontrou faixas compressoras, frascos de hormônios e pomadas para feridas.
Suas mãos começaram a tremer.
Debaixo das roupas havia exames médicos.
O primeiro relatório, de cinco anos antes, mencionava uma lesão no pâncreas. Os documentos seguintes registravam o crescimento do tumor.
O último fora emitido seis meses antes.
Suspeita de neoplasia pancreática avançada. Prognóstico reservado.
Leonardo precisou sentar-se na cama.
A frase escrita no verso da fotografia voltou à sua memória.
Estou voltando ao Brasil para vê-lo uma última vez.
Ela não voltara para recuperar o lugar na Vértice.
Não voltara para separá-lo de Camila.
Voltava para se despedir.
E ele a recebera com uma piada cruel diante de centenas de pessoas.
Seu celular tocou.
Era Bruno.
"Encontramos os registros do quarto. O cartão de Camila foi usado à 1h47. O de Bianca, dois minutos depois."
Leonardo fechou os olhos.
"Continue."
"Também conseguimos imagens da rua. Bianca chegou à mansão num carro pago por uma empresa ligada a Camila."
"E Rafaela?"
"Não há registro de que tenha saído do quarto antes da chegada de todos."
A acusação era falsa.
Leonardo sentiu náusea.
"Entregue tudo à polícia. E descubra onde ela está."
"Já estamos tentando. Há uma reserva para Los Angeles no nome de Valentina Hayes."
Leonardo se levantou.
"Horário do voo?"
"Já decolou."
"Consiga um avião."
Houve silêncio.
"Leonardo..."
A maneira como Bruno pronunciou seu nome o fez parar.
"Acabou de surgir uma notícia."
"Que notícia?"
Bruno enviou um link.
Na tela apareceu uma fotografia de Rafaela entrando numa ambulância na pista do aeroporto. Ela usava o mesmo casaco preto com que deixara a mansão.
A manchete dizia:
Rafael Rocha morre após emergência médica durante viagem aos Estados Unidos.
Leonardo leu uma vez.
Depois outra.
"É mentira."
A voz não pareceu sua.
"Dois portais americanos confirmaram", Bruno respondeu. "A equipe de Valentina Hayes informou que houve uma parada cardiorrespiratória."
"É mentira!"
Leonardo atirou o celular contra a parede.
Desceu as escadas e agarrou Camila pelo braço.
"O que vocês fizeram com ela?"
"Eu não fiz nada!"
"Ela estava morrendo e você sabia."
Camila começou a soluçar.
"Sabíamos que estava doente, mas ela nunca disse que era tão grave."
Sônia virou o rosto.
Leonardo percebeu.
"Você sabia."
"Ela tinha médicos nos Estados Unidos."
"Você a expulsou mesmo sabendo que ela poderia morrer."
"Ela escolheu partir."
"Depois que vocês tomaram o nome, o dinheiro e a única defesa que ela possuía!"
Bruno entrou correndo na mansão.
"Consegui falar com Valentina."
Leonardo soltou Camila.
"E?"
O assistente segurava o telefone com as duas mãos.
"Ela confirmou a morte."
O mundo pareceu perder o som.
Leonardo olhou para a escada, esperando que Rafaela aparecesse e dissesse que tudo não passava de outra mentira.
Ninguém apareceu.
Bruno continuou, com a voz baixa:
"Valentina disse que o corpo será enterrado em Los Angeles. E pediu que ninguém da família Rocha compareça."
Leonardo pegou o telefone.
"Arrume o avião."
"Para quando?"
"Agora."
"Leonardo, talvez seja melhor—"
"Eu não vou acreditar que ela morreu até vê-la."
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