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"Quando Voltei a Ser Eu" Capítulo 4 — Minha Família Escolheu Me Destruir

正文开头

Capítulo 4 — Minha Família Escolheu Me Destruir

Leonardo manteve os olhos fixos nos meus enquanto fazia a ligação.

"Há uma denúncia de violência sexual na mansão dos Rocha", informou. "Mandem uma equipe."

Camila abraçou Bianca com mais força, escondendo um sorriso satisfeito.

Eu, por outro lado, senti uma calma estranha.

Talvez porque já soubesse que não tinha muito tempo. Quando a morte se aproxima, certas ameaças perdem o poder.

"Você ainda pode mudar de ideia", Leonardo disse depois de desligar. "Assine comigo e aceite o acordo."

"Não vou me casar com uma mulher que foi paga para me acusar."

Bianca empalideceu.

Camila se levantou de imediato.

"Como ousa dizer isso?"

"Porque é verdade."

"Tem provas?"

"Ainda não."

"Então é apenas mais uma mentira."

Levei a mão ao bolso, certificando-me de que o celular continuava gravando.

"Você respondeu rápido demais quando perguntei pelas câmeras, Camila. Como sabia que o sistema estava fora do ar?"

Por uma fração de segundo, ela perdeu a compostura.

"Eu moro nesta casa."

"Não. Você mora no apartamento de Leonardo há quase um ano."

Sônia avançou, mas Leonardo ergueu uma das mãos.

"Chega."

Ele olhou para Bianca.

"Quando Rafael a trouxe para o quarto?"

"Pouco depois da meia-noite."

"E por que você só gritou às três da manhã?"

"Eu... estava com medo."

"Três horas trancada neste quarto sem chamar ninguém?"

Camila interferiu:

"Ela acabou de sofrer uma violência. Pare de interrogá-la!"

Leonardo voltou o olhar para mim.

Por um instante, pensei que começasse a perceber as rachaduras daquela história. No entanto, quando seus olhos desceram para minha camisa, a suspeita retornou.

"Basta mostrar que não existem arranhões."

"Já dei minha resposta."

Sirene e luzes vermelhas atravessaram as janelas.

Dois policiais civis entraram na mansão acompanhados por uma investigadora. Bianca repetiu a acusação, agora chorando diante de uma câmera corporal.

A investigadora, chamada Renata Farias, pediu para falar comigo em particular.

"Você deseja apresentar sua versão?"

"Sim. Eu estava dormindo."

"Existe alguém que possa confirmar?"

"Não."

"As câmeras?"

"Segundo minha irmã, estavam desligadas."

Renata anotou a informação.

"Precisaremos examinar o local e solicitar os registros eletrônicos da porta."

"Façam isso antes que sejam apagados."

Ela levantou os olhos.

"Está sugerindo que alguém armou contra você?"

"Não estou sugerindo. Estou afirmando."

Do lado de fora, ouvi Camila contar a um policial que eu era emocionalmente instável e obcecado por Leonardo.

A mentira já estava sendo construída em camadas.

Entreguei meu celular à investigadora.

"Há uma gravação dos últimos minutos. Quero que seja preservada."

Eu não precisava revelar meu corpo para começar a me defender.

Quando saí do quarto, os celulares dos empregados já vibravam. A notícia havia chegado à imprensa antes mesmo de a polícia concluir o primeiro depoimento.

Leonardo olhou a tela do próprio aparelho.

"Há jornalistas no portão."

"Como descobriram tão rápido?", perguntei.

Camila desviou o rosto.

O caminho até o carro da polícia tornou-se um corredor de câmeras.

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"Rafael, você abusou da assistente de sua irmã?"

"Leonardo vai expulsá-lo novamente da indústria?"

"Você voltou ao Brasil para destruir o casamento deles?"

Os seguranças tentaram abrir passagem. Cada grito parecia repetir a mesma sentença pronunciada cinco anos antes: culpado antes de ser ouvido.

Parei junto ao portão.

A dor atravessou meu abdômen com tanta força que precisei me apoiar numa coluna.

Leonardo percebeu.

"Rafael?"

Cobri a boca, mas não consegui impedir o sangue.

As câmeras capturaram tudo.

Ouvi Camila chamar meu nome. Depois, as pernas deixaram de me sustentar.

Antes de atingir o chão, braços conhecidos me seguraram.

"Chamem uma ambulância!", Leonardo gritou.

Abri os olhos por um instante.

Ele me carregava contra o peito, o rosto tomado por um pânico que nunca demonstrara quando me expulsou da Vértice.

"Leo..."

"Estou aqui."

Eu quase ri.

Ele sempre chegava depois que o pior já havia acontecido.

"Está doendo", murmurei.

Então tudo ficou escuro.

Quando acordei, estava novamente no quarto dos fundos.

Não havia pulseira de hospital em meu braço. Nenhum médico havia sido autorizado a me examinar.

Sônia preferira mandar o motorista me buscar assim que recuperei a consciência na ambulância. Disse aos paramédicos que eu sofria de gastrite e precisava apenas descansar.

Meu celular não estava comigo.

Levantei com dificuldade e procurei pelos bolsos. A investigadora ficara com o aparelho, o que significava que a gravação estava protegida.

Uma batida suave veio da janela.

Afastei a cortina.

Valentina Hayes aguardava do lado de fora, vestindo um sobretudo claro e sapatos completamente inadequados para o jardim molhado.

Abri a janela.

"Como entrou aqui?"

"Subornei o jardineiro. Foi mais fácil do que passar pela sua mãe."

Ela entrou, examinou meu rosto e perdeu o sorriso.

"Você está pior."

"Estou bem."

"Pare de repetir a mentira favorita das pessoas que querem morrer."

Valentina colocou sobre a cama uma pasta com o logotipo do Hayes Music Group.

"Seu vídeo cuspindo sangue está em todos os portais. A gravadora americana quer saber se você consumiu drogas. A imprensa brasileira prefere acreditar que foi uma crise de culpa."

"Não me importo mais."

"Mas seus fãs se importam."

Ela abriu a pasta. Dentro havia passagens para Los Angeles, relatórios médicos e o nome de uma especialista.

"Dra. Helena Costa. Ela trabalha num centro oncológico associado à UCLA. Revisou seus exames e acredita que seu tumor pode ter sido classificado de maneira incompleta."

"Três médicos disseram que não há o que fazer."

"Três médicos não são todos os médicos do mundo."

"Não quero passar meus últimos meses presa a uma cama."

Valentina se sentou diante de mim.

"Então passe-os lutando."

"Por quê?"

"Porque sua música vale a luta."

Ela abriu outra página.

"E porque eu não me importo se o artista que conheci como Rafael é homem, mulher ou uma criatura enviada de Marte."

Meu corpo ficou imóvel.

"Como descobriu?"

"Você desmaiou durante uma gravação em Los Angeles. Eu vi os exames antes que sua equipe pudesse escondê-los."

正文2

"Por que nunca disse nada?"

"Porque o segredo era seu."

A resposta me atingiu de um jeito que eu não esperava.

Durante dez anos, todos que descobriram alguma parte da verdade a usaram para me controlar. Valentina era a primeira pessoa que sabia e não exigia nada em troca.

"Venha comigo", ela insistiu. "Assine com a minha empresa, aceite o tratamento e deixe essa família para trás."

A porta do corredor se abriu.

Valentina se levantou.

"Preciso ir."

"Por onde?"

"Do mesmo jeito que entrei."

Antes de passar pela janela, ela colocou um cartão em minha mão.

"Se escolher viver, estarei esperando."

Horas depois, Sônia entrou acompanhada por Camila e por um advogado.

Minha mãe jogou um documento sobre a cama.

"Assine."

Li o título.

Declaração de rompimento familiar e renúncia ao fundo Rocha.

"Está me deserdando?"

"Você destruiu o nome desta família."

"Eu paguei as dívidas desta família."

"Com a carreira que pertencia ao seu irmão."

O advogado evitou me encarar.

Camila colocou outro documento sobre a mesa.

"A Valença Studios rescindiu seu contrato por violação moral. A multa é de oito milhões de reais."

"Leonardo assinou isso?"

"O departamento jurídico assinou em nome dele."

Ela tirou um cheque da bolsa.

"Em troca do seu silêncio e da renúncia a qualquer participação futura nos bens da família, mamãe está disposta a lhe dar dinheiro suficiente para desaparecer."

"Quanto?"

"Duzentos mil reais."

Dez anos de trabalho.

Milhões em direitos autorais.

Turnês, campanhas publicitárias e músicas que continuavam gerando dinheiro.

Minha família decidira que tudo valia duzentos mil.

"Vocês sabiam que Bianca mentia?", perguntei.

Sônia perdeu a paciência.

"Não importa se mentiu."

"Quero ouvir a resposta."

"Camila fez o necessário para proteger o casamento dela."

"E cinco anos atrás? Ela também fez o necessário quando roubou minha carta?"

Sônia me encarou sem qualquer vergonha.

"Se você não tivesse se apaixonado por Leonardo, ela não teria encontrado nada para usar."

A porta do meu quarto estava entreaberta.

Do outro lado, sem que elas soubessem, o velho tablet que eu usava para compor continuava conectado à nuvem. Antes de confrontá-las, eu ativara o gravador por comando de voz.

Cada palavra estava sendo enviada automaticamente para uma conta que nem Camila nem Sônia conheciam.

"Então você sabia de tudo."

"Sabia."

"E ainda assim me obrigou a continuar vivendo como Rafael."

"Era sua obrigação."

"Não."

Peguei a caneta.

"Foi a minha prisão."

Assinei a renúncia e empurrei o documento de volta.

Sônia pareceu satisfeita.

Em seguida, assinei o recebimento do cheque.

Camila sorriu.

"Sabia que acabaria entendendo."

"Entendi perfeitamente."

Retirei do pulso a corrente que Sônia me dera no dia da estreia da Vértice. Durante anos, acreditei que aquele presente escondia algum afeto.

Deixei-a cair aos pés da minha mãe.

"Rafaela morreu no dia em que Rafael foi enterrado. Foi isso que você disse."

Sônia permaneceu em silêncio.

Peguei minha mala, já preparada, e caminhei até a porta.

"Pois hoje Rafael também morreu."

Camila veio atrás de mim.

"Para onde você vai?"

"Isso não é mais problema seu."

"Se tentar expor nossa família, destruirei todos que trabalham com você nos Estados Unidos."

Parei no corredor.

"Faça o que quiser."

"Você acha que pode nos ameaçar?"

"Não estou ameaçando."

Olhei para a mulher que chamara de irmã.

"Estou apenas avisando: quando eu desaparecer, você vai descobrir que nunca teve nada que fosse realmente seu."

Saí da mansão pela porta principal.

Desta vez, ninguém conseguiu me obrigar a usar a entrada dos fundos.

No carro que aguardava do lado de fora, Valentina abriu a porta para mim.

Entreguei-lhe o tablet.

"Envie a gravação para sua advogada. Faça três cópias."

Ela viu o cheque em minha mão.

"Vai aceitar o dinheiro delas?"

"Vou guardá-lo como prova."

Antes de o carro partir, olhei uma última vez para a mansão.

Eu chegara ao Brasil para me despedir das pessoas que amava.

Partia sabendo que nenhuma delas havia me amado de verdade.

"Para onde agora?", Valentina perguntou.

Apertei o cartão da médica entre os dedos.

"Para algum lugar onde eu ainda possa escolher viver."

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