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"A Empregada Que Treinou a Filha Cega do Chefe da Máfia" Parte 4

正文开头

Ricardo Montenegro chegou à mansão pouco depois das dez da manhã.

Entrou pela porta principal como sempre fazia.

Sem pressa.

Sem medo.

Sem pedir licença.

"Cadê minha afilhada?"

A voz dele atravessou o hall com uma naturalidade que irritou Dante mais do que deveria.

Lívia estava sentada no sofá da sala com Isabela.

Quando ouviu Ricardo, sorriu.

"Tio Ricardo."

Ele abriu os braços.

"Vem cá."

Lívia se levantou e caminhou até ele.

Ricardo a abraçou com força.

"Você me assustou."

Lívia inclinou a cabeça.

"Eu?"

"Soube que invadiram a casa."

Dante observava de longe.

Ricardo beijou a testa da menina.

"Se alguma coisa acontecer com você, seu pai me mata antes de procurar o culpado."

Lívia riu.

Por um segundo, tudo pareceu normal.

Normal demais.

Dante odiou isso.

Ricardo havia estado ao lado dele durante praticamente toda a vida.

Quando a mãe de Dante morreu, foi Ricardo quem ficou sentado ao lado do caixão até o fim do velório.

Quando Helena sofreu o acidente, foi Ricardo quem entrou no hospital primeiro.

Quando Dante não conseguiu reconhecer o corpo da própria esposa, Ricardo segurou seu ombro e disse que ele não precisava fazer aquilo sozinho.

Quando Lívia nasceu, Ricardo passou horas no corredor da maternidade.

Dante ainda lembrava dele segurando a menina pela primeira vez.

"Essa garota vai mandar em todos nós."

Ele tinha rido.

Depois aceitara ser padrinho dela sem pensar duas vezes.

Trinta e cinco anos.

Trinta e cinco anos de almoços de família, brigas, negócios, enterros, festas e segredos.

Dante olhou para o homem diante dele e sentiu algo próximo da vergonha.

Talvez estivesse ficando paranoico.

Talvez Isabela tivesse chegado naquela casa e colocado dúvidas demais em sua cabeça.

Ricardo percebeu seu olhar.

"Vai continuar me encarando ou vai me oferecer café?"

Dante forçou um sorriso.

"Você ainda sabe onde fica."

"Essa casa também é minha."

A frase saiu em tom de brincadeira.

Mas Dante sentiu o corpo endurecer.

Ricardo pareceu notar.

"Calma."

Ele levantou as mãos.

"Modo de falar."

Isabela observava tudo em silêncio.

Ricardo caminhou até o bar da sala.

Serviu água.

Depois começou a girar um pequeno anel de prata no dedo mínimo da mão direita.

Clique.

Lívia congelou.

Dante percebeu imediatamente.

A menina virou o rosto.

Ricardo girou o anel de novo.

Clique.

Lívia apertou os dedos contra o vestido.

"Eu ouvi isso ontem."

A sala ficou em silêncio.

Ricardo olhou para ela.

"O quê?"

Lívia apontou para sua mão.

"O som do seu anel."

Dante não piscou.

Ricardo olhou para o próprio dedo.

"Este?"

Ele girou a peça.

Clique.

Lívia ficou pálida.

"Esse."

Isabela se aproximou.

"Você tem certeza?"

Lívia assentiu.

"Eu ouvi perto da adega."

Ricardo riu.

Mas o riso veio rápido demais.

"Claro que ouviu."

Dante estreitou os olhos.

"Por quê?"

Ricardo ergueu a mão.

"Porque esse anel vive fazendo esse barulho."

Ele puxou a peça.

Havia uma pequena parte móvel no aro.

正文1

"Meu pai me deu isso quando eu tinha dezoito anos. Está frouxo há décadas."

Lívia franziu a testa.

"Mas eu ouvi ontem."

"Talvez algum dos homens estivesse usando algo parecido."

"Você estava aqui?"

Ricardo encarou Dante.

"Está me perguntando isso seriamente?"

"Estou."

"Não."

A resposta veio firme.

"Eu estava no apartamento da Vila Nova Conceição."

"Alguém pode confirmar?"

Ricardo demorou um segundo.

"Minha governanta."

Ele sorriu.

"Quer o telefone dela também?"

Dante não respondeu.

Ricardo colocou o anel de volta.

"Vocês estão assustados. Eu entendo."

Então olhou para Lívia.

"Mas não deixa o medo colocar todo mundo contra todo mundo, minha pequena."

Lívia baixou a cabeça.

Ricardo tocou em seu ombro.

"Eu nunca faria nada contra você."

Dante observou a mão dele.

E, pela primeira vez em trinta e cinco anos, não conseguiu acreditar completamente.

Naquela tarde, Ricardo foi embora.

Dante esperou o carro desaparecer pelo portão.

Depois fechou a porta do escritório.

"Rafael."

O advogado ergueu os olhos.

"Quero tudo."

"Tudo o quê?"

"Participações, empresas, sócios, procuradores, parentes. Qualquer movimentação ligada ao Ricardo nos últimos dois anos."

Rafael respirou fundo.

"Isso pode levar tempo."

"Então começa agora."

Dois dias depois, a primeira pasta chegou.

Depois a segunda.

Depois uma planilha impressa com dezenas de nomes que Dante nunca havia visto.

Empresas pequenas.

Fundos.

Participações cruzadas.

Pessoas sem qualquer relação aparente com a família Montenegro.

Dante passou horas analisando os documentos.

No início, nada parecia importante.

Um por cento.

Dois por cento.

Meio por cento.

Três por cento em outra empresa.

Valores pequenos demais para chamar atenção.

Mas Rafael colocou várias folhas lado a lado.

"Olhe o conjunto."

Dante aproximou as páginas.

Um fundo comprara participação em uma empresa de logística ligada ao grupo.

Meses depois, outra empresa adquirira ações de uma companhia de segurança.

Depois surgira uma sociedade patrimonial em nome de um primo distante de Ricardo.

Outra participação aparecia ligada a um antigo funcionário dele.

"Somadas?"

Rafael respirou fundo.

"Já passam do que eu chamaria de coincidência."

Dante sentiu o maxilar travar.

"Ele está montando posição."

"Devagar."

"Para ninguém perceber."

Rafael assentiu.

"Exatamente."

Dante se levantou.

Andou até a janela.

São Paulo estava cinzenta do lado de fora.

Durante trinta e cinco anos, Ricardo havia sido o homem que ficava ao seu lado quando todos os outros desapareciam.

Agora cada lembrança parecia exigir uma segunda leitura.

Isabela entrou sem bater.

"Rafael me contou."

Dante virou.

"Você sabia?"

"Não."

"Helena sabia?"

Isabela ficou em silêncio.

"Responde."

"Ela desconfiava que alguém estava usando empresas paralelas."

Dante apertou as mãos.

"Por que ela não me contou?"

"Talvez porque ainda não tivesse prova."

"Ou porque não confiava em mim."

Isabela se aproximou.

"Helena confiava em você."

Dante riu amargamente.

"Escondeu uma guarda-costas. Escondeu uma carta. Escondeu uma investigação."

"Porque sabia como você reagia."

"Com ação."

"Com controle."

Dante ficou calado.

Isabela olhou pela janela.

"Quando Lívia nasceu, os médicos disseram que ela não enxergaria."

正文2

Dante virou o rosto.

Não gostava de voltar àquele dia.

"Eu lembro."

"Você não lembra de tudo."

Isabela sorriu de leve.

"Você saiu do quarto para falar com três especialistas diferentes."

Dante franziu a testa.

"E Helena ficou comigo."

"Ela chorou?"

"Sim."

A resposta doeu.

"Por quanto tempo?"

"Cinco minutos."

Dante baixou os olhos.

"E depois?"

"Depois ela pegou Lívia no colo."

A voz de Isabela ficou mais suave.

"Ela beijou o rosto da filha e disse uma frase que nunca esqueci."

Dante esperou.

"Então vamos ensiná-la a enxergar de outra maneira."

Ele fechou os olhos.

Aquela frase atingiu um lugar que nenhum soco conseguia alcançar.

Durante anos, Dante pensara que proteger Lívia significava impedir qualquer risco.

Helena, aparentemente, pensava o contrário.

Naquela noite, Lívia insistiu em jantar na cozinha.

Não na sala de jantar.

Não com empregados servindo cada prato.

Na cozinha.

"Quero fazer alguma coisa normal."

Dante cedeu.

Isabela colocou uma panela no fogo.

Lívia ficou responsável por separar os tomates.

Dante tentou cortar cebola.

"Você está segurando a faca errado."

Isabela comentou.

Dante olhou para ela.

"Eu sei usar faca."

"Não parece."

Lívia riu.

Foi um som raro naquela casa nos últimos dias.

Dante acabou rindo também.

Por alguns minutos, ninguém falou de invasores.

Nem de Ricardo.

Nem de ações.

Nem de Helena.

Apenas do molho que estava salgado demais.

Então passos apressados surgiram no corredor.

Bruno entrou na cozinha.

Seu rosto estava branco.

Dante largou a faca.

"O que aconteceu?"

Bruno respirou fundo.

"O homem que pegamos na adega."

Dante ficou imóvel.

"O que tem ele?"

"Está morto."

O sorriso desapareceu do rosto de Lívia.

Isabela se virou lentamente.

"Como?"

"Alguém entrou no quarto onde ele estava sendo mantido."

Dante avançou.

"Esse quarto tem segurança."

"Eu sei."

"Câmera?"

"Desligada por sete minutos."

"Porta?"

"Não foi arrombada."

Dante sentiu o sangue gelar.

"Quem tinha acesso?"

Bruno não respondeu.

"Quem?"

Bruno engoliu em seco.

"Três pessoas."

Dante já sabia.

Mesmo assim, ouviu.

"O senhor."

Bruno fez uma pausa.

"Eu."

Outra pausa.

"E Ricardo."

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