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"Quando Voltei a Ser Eu" Capítulo 3 — A Acusação Que Eu Não Podia Desmentir

正文开头

Capítulo 3 — A Acusação Que Eu Não Podia Desmentir

"Você não tinha o direito de comprar meu contrato sem falar comigo."

A frase escapou antes que eu pudesse medir as consequências.

Camila arregalou os olhos, fingindo choque.

Leonardo levantou-se.

"Eu fiz uma proposta à gravadora. Eles aceitaram."

"Meu contrato não é uma propriedade que pode trocar de dono sem a minha participação."

"Leia as cláusulas que assinou nos Estados Unidos."

Eu as conhecia. No início da carreira internacional, estava desesperada demais para negociar. A gravadora podia transferir meus direitos de representação dentro do mesmo grupo de investidores.

A Valença Studios havia comprado participação naquele grupo meses antes.

"Não vou me casar com Marina."

"É uma campanha pública, não um casamento de verdade."

"Também não vou fingir um relacionamento."

"Você prefere continuar alimentando rumores sobre nós dois?"

Encarei Leonardo.

"Você está noivo da minha irmã. Não existe nós dois."

Algo se contraiu no rosto dele.

Camila aproximou-se e tocou seu braço.

"Leo só está tentando proteger sua imagem."

"Minha imagem pertence a mim."

"Não enquanto suas decisões derrubarem o valor da minha empresa", Leonardo rebateu. "O anúncio com Marina neutralizará o escândalo antigo e abrirá portas para sua volta ao Brasil."

"Não quero voltar."

"Por causa daquela mulher em Los Angeles?"

"Sim."

A resposta saiu firme.

O silêncio se prolongou.

"Qual é o nome dela?", ele perguntou.

"Isso não é da sua conta."

"Se pretende construir uma vida com alguém, deveria conseguir dizer o nome."

Eu poderia inventar um, mas hesitei por tempo demais.

Leonardo percebeu.

"Essa mulher não existe."

"Existe, sim."

"Então traga-a para o Brasil. Quero conhecê-la."

A situação estava escapando do meu controle.

Pressionei discretamente a mão contra o abdômen.

"Não vou expor a pessoa que amo para satisfazer sua curiosidade."

A palavra amo alterou seu olhar.

Leonardo riu sem humor.

"Cinco anos atrás, jurava que me amava. Agora está disposto a abandonar tudo por outra pessoa."

"Cinco anos são tempo suficiente para aprender a esquecer."

Ele se aproximou.

"Você esqueceu?"

Camila levantou-se antes que eu respondesse.

"Chega. Mamãe está esperando para o almoço."

Leonardo permaneceu na mansão.

Durante a refeição, Sônia tratou-o como se já fizesse parte da família. Falou sobre o casamento, os convidados e uma futura colaboração entre a Valença Studios e os negócios dos Rocha.

Ninguém perguntou sobre meu prêmio.

Ninguém perguntou como tinham sido meus cinco anos fora.

Bebi uma taça de vinho para suportar a conversa. A combinação do álcool com os analgésicos fez a dor voltar com força.

Levantei-me.

"Com licença."

"Vai aonde?", Sônia perguntou.

"Ao banheiro."

Leonardo também se levantou.

"Mostre o caminho."

Olhei para o corredor a poucos metros.

"Você já esteve aqui dezenas de vezes."

"Faz cinco anos."

Ele não esperou meu consentimento.

Subi as escadas devagar, apoiando uma das mãos no corrimão. O suor frio escorria por minhas costas.

No terceiro degrau, minha visão escureceu.

Meu pé escorregou.

正文1

Antes que eu caísse, um braço envolveu minha cintura e me puxou para trás.

Bati contra o peito de Leonardo.

Por reflexo, tentei me afastar, mas ele me segurou com mais força.

"Fique parado."

"Estou bem."

"Você quase caiu da escada."

"Solte."

Leonardo abaixou o rosto. Havia vinho em seu hálito e uma estranha falta de foco em seus olhos.

Sua mão continuava em minha cintura.

"Você está magro demais."

"Não é problema seu."

Os dedos dele apertaram levemente meu corpo.

"Sua cintura..."

Meu coração disparou.

Leonardo me encostou na parede do corredor, não com violência, mas como se precisasse confirmar que eu estava realmente diante dele.

"É fina como a de uma mulher."

Empurrei seu peito.

"Você bebeu demais."

Ele baixou os olhos para minha boca.

"Por que sempre parece que está escondendo alguma coisa de mim?"

Passos rápidos ecoaram no corredor.

Camila surgiu no alto da escada.

"Rafael!"

Leonardo se afastou.

Minha irmã atravessou o corredor e me deu um tapa.

O impacto virou meu rosto. O gosto de sangue invadiu minha boca.

"Você disse que tinha alguém nos Estados Unidos!", ela gritou. "Mesmo assim continua tentando seduzir meu noivo!"

"Eu quase caí. Ele me segurou."

"Eu vi como você estava agarrado a ele."

"Camila, pare", Leonardo ordenou.

Ela segurou o braço dele.

"Você bebeu. Não percebe o que ele está fazendo."

Leonardo parecia confuso, dividido entre a cena que presenciara e algo que ainda não compreendia.

Camila o conduziu pelo corredor.

Antes de descer, olhou para mim por cima do ombro.

Não havia raiva em seu rosto.

Havia cálculo.

Voltei para meu quarto e tomei outro analgésico. A exaustão me derrubou antes que eu conseguisse tirar o paletó.

Quando despertei, ainda estava escuro.

Uma mulher chorava ao lado da cama.

Usava apenas uma camisola rasgada. Havia marcas vermelhas em seus braços, e a maquiagem escorria pelo rosto.

Sentei-me de repente.

"Quem é você?"

Ela recuou como se tivesse medo de mim.

"Não se aproxime!"

A porta foi aberta com violência.

Camila entrou primeiro. Leonardo veio logo atrás, acompanhado por Sônia e dois seguranças.

Minha irmã correu até a mulher.

"Bianca! Meu Deus, o que aconteceu?"

Bianca começou a soluçar.

"Ele me trouxe para o quarto. Eu disse que não queria, mas ele trancou a porta."

Olhei para a fechadura.

Eu não me lembrava de ter trancado nada.

"Ela está mentindo."

Camila abraçou a assistente.

"Por que Bianca mentiria sobre uma coisa dessas?"

"Eu nunca a vi antes."

"Ela trabalha comigo há oito meses."

Leonardo permaneceu perto da porta. Seu rosto estava imóvel, mas seus olhos me examinavam como se tentassem encontrar uma resposta.

Sônia cruzou os braços.

"Você trouxe mais uma desgraça para esta casa."

Levantei-me, ignorando a tontura.

"Eu estava dormindo. Alguém colocou essa mulher aqui."

Bianca apontou para mim.

"Eu arranhei o peito dele enquanto tentava escapar. As marcas ainda devem estar lá."

O quarto ficou em silêncio.

正文2

Meu sangue pareceu congelar dentro das veias.

Camila virou-se para mim com uma expressão cuidadosamente compassiva.

"Se é inocente, basta tirar a camisa."

"Não."

"Por que não?"

"Não vou me despir diante de todos."

"Então apenas Leonardo verifica."

"Também não."

Leonardo finalmente falou:

"Rafael, se ela estiver mentindo, eu mesmo acabarei com essa acusação."

"Não preciso que você me salve."

"Precisa provar que não há marcas."

Havia marcas sob minha camisa.

Não arranhões.

Anos de feridas provocadas pelas faixas apertadas, agulhas e adesivos usados para esconder meus seios.

Se eu tirasse a roupa, Bianca seria desmascarada.

Mas Rafaela também apareceria diante de todos.

A história da Vértice seria destruída. Minha carreira se transformaria numa fraude internacional. O nome do meu irmão seria arrastado para um escândalo que ele jamais escolhera.

Camila sabia disso.

Ela não precisava provar que eu atacara Bianca.

Só precisava criar uma acusação que eu não pudesse negar sem destruir a mim mesma.

Olhei para a câmera de segurança no corredor. Depois, para o leitor eletrônico junto à porta.

Alguém havia entrado naquele quarto.

E registros podiam ser recuperados.

Coloquei discretamente a mão no bolso e ativei o gravador do celular.

"Bianca, a que horas eu trouxe você para cá?"

Ela hesitou.

"Pouco depois da meia-noite."

Eu acordara por volta das três. A informação serviria mais tarde.

"Você diz que eu tranquei a porta?"

"Sim."

"Então meu cartão deve ter sido usado."

Camila interrompeu:

"Pare de interrogá-la. Ela acabou de sofrer uma violência."

"Estou tentando entender a acusação."

"Não há nada para entender", Sônia disse. "Tire a roupa e prove sua inocência."

Encarei minha mãe.

Ela sustentou meu olhar sem demonstrar culpa.

Também sabia.

As três mulheres naquele quarto sabiam que eu jamais poderia obedecer.

Leonardo se aproximou.

"Venha comigo. Ninguém mais precisa assistir."

Dei um passo para trás.

"Não."

"Por que está protegendo tanto o próprio corpo?"

A pergunta atravessou todos os anos em que ele nunca percebera.

"Porque ele pertence a mim."

Leonardo parou.

Camila enxugou uma lágrima inexistente.

"Rafael, eu ainda quero acreditar em você. Mas, se não aceitar a verificação, está confessando."

Olhei para Bianca.

Seu choro diminuíra. Ela esperava minha resposta com os dedos apertados contra a camisola.

Tinha medo, mas não de mim.

Tinha medo de que o plano falhasse.

"Quero as imagens das câmeras", falei.

Camila respondeu rápido demais:

"O sistema ficou fora do ar durante a madrugada."

Mais uma prova.

Eu precisava sair dali viva e manter meu segredo por tempo suficiente para recuperar os registros do leitor eletrônico, as câmeras externas e as mensagens que certamente ligavam Bianca à minha irmã.

Por enquanto, porém, elas controlavam a sala.

Baixei a cabeça.

"Não vou tirar a camisa."

Leonardo agarrou meu queixo e me obrigou a encará-lo.

"Então me dê outra explicação."

"Não posso."

"Você fez isso?"

Vi decepção nascer nos olhos que um dia me prometeram proteção.

Engoli o gosto de sangue.

"Eu assumo a acusação."

Camila soltou o ar devagar.

Bianca voltou a chorar, agora mais alto.

Leonardo me soltou como se meu rosto queimasse sua mão.

"Há uma maneira de impedir que isso vire um processo."

Eu já sabia que o preço seria outra prisão.

"Qual?"

"Você assinará com a Valença Studios e se casará com Bianca. Publicamente, diremos que houve um desentendimento entre um casal."

Olhei para a mulher que me acusava e depois para a irmã que criara aquela armadilha.

"Não."

O rosto de Leonardo endureceu.

"Se recusar, Bianca pode registrar a denúncia. Sua carreira termina antes do amanhecer."

"Então termina."

"Não teste minha paciência."

"Passei dez anos vivendo uma vida que outras pessoas escolheram para mim. Não vou entregar o pouco que resta a você."

Sônia avançou um passo.

"Faça o que Leonardo está mandando!"

Pela primeira vez, não baixei os olhos diante dela.

"Não."

Leonardo pegou o celular.

"Última chance. Você se casa com Bianca e assina comigo, ou eu chamo a polícia."

Meu corpo inteiro tremia, mas minha voz saiu firme.

"Chame a polícia."

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