"Quando Voltei a Ser Eu" Capítulo 2 — A Noiva Sabia Que Eu Era Uma Mulher
Capítulo 2 — A Noiva Sabia Que Eu Era Uma Mulher
Dobrei o bilhete e o escondi na palma da mão.
"Isso não significa mais nada."
Leonardo olhou para meus dedos fechados.
"Você guardou uma declaração dentro de um presente que ficava no meu quarto."
"Eu tinha dezoito anos."
"Não respondeu à pergunta."
Baixei os olhos.
"Sim. Eu estava apaixonado por você."
Mesmo depois de tantos anos, ainda precisei usar o masculino.
Leonardo ficou em silêncio.
Seu perfume de cedro trouxe de volta noites em hotéis baratos, ensaios até o amanhecer e o calor de seu casaco sobre meus ombros quando eu fingia não sentir frio.
"Mas passou", acrescentei. "Eu era jovem e confundi amizade com outra coisa. Não precisa se preocupar."
"Não estou preocupado."
"Ótimo."
Coloquei o bilhete no bolso interno do paletó.
"Peço desculpas pelo constrangimento de cinco anos atrás. Também desejo felicidades no seu casamento."
A mandíbula dele se contraiu.
"Você fala comigo como se estivéssemos numa reunião."
"Você é o presidente da Valença Studios. Qual seria a forma apropriada?"
"Antes, você me chamava de Leo."
Antes, eu também acreditava que tinha um lugar ao lado dele.
"Antes eu fazia muitas coisas inadequadas."
A resposta pareceu irritá-lo mais do que deveria.
Leonardo virou-se para a porta.
"Um médico está vindo."
Meu coração acelerou.
"Não é necessário."
"Você desapareceu por quase meia hora e voltou com o rosto branco."
"Foi algo que comi no avião."
"Você sempre inventava desculpas para evitar médicos. Até quando quebrava uma costela nos ensaios, dizia que estava bem."
Eu não evitava médicos por coragem. Evitava porque um exame simples poderia revelar que Rafael Rocha nunca existira no palco.
"Posso consultar alguém no hotel."
"A médica já está chegando."
"Leonardo, eu disse que não preciso."
Ele se virou lentamente.
"Está me enfrentando?"
A pergunta me fez voltar aos dezesseis anos, quando ainda dependia da aprovação de outras pessoas para respirar.
Soltei as mãos.
"Desculpe. Só estou cansado."
A porta se abriu, e uma mulher entrou carregando uma maleta. Ela se apresentou como doutora Luciana e começou a retirar o aparelho de pressão.
Recuei.
"Não quero fazer exames. Apenas me dê alguma coisa para enjoo."
"Preciso avaliá-lo primeiro", ela respondeu.
"Eu assumo a responsabilidade."
Leonardo me lançou um olhar duro.
"Por que está com tanto medo?"
"Não estou."
"Então tire o paletó."
A sala pareceu ficar sem ar.
Sob a camisa eu usava uma faixa compressora apertada demais. Se a médica tocasse meu tórax ou pedisse que eu removesse a roupa, tudo terminaria ali.
Antes que eu encontrasse uma saída, a porta se abriu novamente.
Camila entrou sorrindo.
"Leo, os investidores estão perguntando por você."
O olhar dela passou pela médica e parou no meu rosto.
Ela entendeu imediatamente.
"Rafael odeia hospitais", disse. "Desde que nosso irmão gêmeo morreu, qualquer exame o deixa nervoso."
A crueldade daquela mentira quase me fez rir.
Eu era a irmã gêmea.
O homem cuja morte ela mencionava era a pessoa que eu fingia ser.
Camila aproximou-se e colocou a mão em meu ombro.
"Eu cuido dele. Vá falar com os investidores."
Leonardo hesitou.
"Se ele piorar, me chame."
Quando os dois saíram, Camila dispensou a médica com a justificativa de que eu precisava apenas descansar.
Assim que ficamos sozinhas, retirei a mão dela do meu ombro.
"Não encoste em mim."
"Você deveria me agradecer."
"Por impedir que ele descobrisse o segredo que você usa para me controlar?"
O sorriso dela desapareceu.
"Não comece, Rafaela."
Meu nome verdadeiro soou quase obsceno naquela sala.
"Você escolheu voltar."
"Recebi um convite de Leonardo."
"E achou que isso significava que ele sentia saudade?"
Camila olhou para o anel em seu dedo.
"Ele queria que você visse quem escolheu."
A dor em meu abdômen voltou, lenta e profunda.
"Não se preocupe. Depois de hoje, não pretendo interferir na vida de vocês."
"É bom que seja verdade."
Ela abriu a porta.
"Venha. Tenho presentes para você."
Na sala reservada ao lado, araras inteiras exibiam vestidos, bolsas e sapatos de marcas internacionais. Uma assistente organizava caixas sobre a mesa.
"Leonardo comprou a coleção quase inteira para mim", disse Camila. "Mas pensei que você poderia escolher alguma coisa."
Passei os olhos pelos vestidos.
Nenhuma peça havia sido feita para o homem que o mundo acreditava que eu era.
"Não tenho uso para isso."
Leonardo entrou atrás de nós.
"É um presente de sua irmã. Aceite."
Camila segurou um vestido vermelho contra o próprio corpo.
"Posso mandar ajustar para alguém especial que Rafael tenha nos Estados Unidos."
"Não existe ninguém."
Ela inclinou a cabeça.
"Na festa, você disse que não queria relacionamentos. Não que estivesse sozinho."
Eu precisava encerrar aquele assunto.
"Existe alguém."
Leonardo ficou imóvel.
"Quem?"
"Uma mulher em Los Angeles."
A mentira surgiu pronta.
"Prometi que resolveria tudo no Brasil e voltaria para viver com ela. Não pretendo retornar."
Camila pareceu satisfeita.
Leonardo, não.
"Vai abandonar seu país por uma mulher?"
"Minha vida está nos Estados Unidos agora."
"Cinco anos e você já não tem nada aqui?"
A pergunta soou pessoal demais.
"Foi você quem fez questão de que eu partisse."
Os olhos dele escureceram.
Antes que pudesse responder, Camila segurou seu braço.
"Rafael acabou de chegar. Não vamos discutir."
Aproveitei o silêncio.
"Minha mãe está esperando. Preciso ir."
Na mansão dos Rocha, nos arredores de São Paulo, a governanta me aguardava junto ao portão lateral.
"A senhora Sônia pediu que você não entre pela porta principal."
Olhei para a fachada iluminada.
"Por quê?"
"Ela disse que você trouxe escândalos demais para esta casa."
Dez anos sustentando aquela família não haviam me dado o direito de atravessar a própria entrada.
Contornei a propriedade e entrei pela área de serviço.
Sônia estava na antiga sala de música, diante de uma fotografia de Rafael. O verdadeiro Rafael.
Meu irmão sorria na imagem, com os cabelos compridos caindo sobre os olhos.
"Você demorou", ela disse.
"Eu estava na comemoração."
"Vi a cena que fez diante de Leonardo."
"Que cena?"
"Desmaiando, chamando atenção, rondando a sala particular dele."
Sônia pegou a fotografia do aparador.
"Seu irmão morreu antes de poder realizar o sonho dele. Tudo o que você conquistou pertence a Rafael."
"Fui eu quem escreveu as músicas."
"Com o nome dele."
"Fui eu quem subiu nos palcos."
"Com o rosto dele."
"Fui eu quem pagou todas as dívidas desta casa."
Ela bateu a fotografia contra a mesa.
"E continuará pagando!"
Minha mãe aproximou-se.
"Você não tem o direito de aparecer como mulher depois de dez anos enganando o país. Se a verdade vier à tona, todos nós seremos destruídos."
"Talvez eu não me importe mais."
Pela primeira vez, vi medo nos olhos dela.
"Você vai se importar enquanto depender de mim para proteger a memória do seu irmão."
Ela apontou para a fotografia.
"Rafaela morreu no dia em que Rafael foi enterrado. Entendeu?"
Não respondi.
Sônia agarrou meu queixo.
"Entendeu?"
"Entendi."
Ela me soltou com desprezo.
"Leonardo virá tomar café amanhã. Não quero você perto dele."
Passei a noite no quarto estreito dos fundos, o mesmo em que dormia antes da fama.
Na manhã seguinte, Camila apareceu carregando uma caixa de remédios.
"Soube que mamãe foi dura com você."
"Não finja."
Ela fechou a porta.
"Não estou fingindo."
"Foi você quem roubou meu caderno cinco anos atrás?"
Camila não respondeu.
"A carta estava num compartimento trancado. Apenas você e mamãe sabiam onde eu guardava a chave."
"Talvez Rafael tenha contado a alguém."
"Pare de me chamar assim."
Ela sorriu.
"Esse é seu nome, não é?"
"Você entregou a carta ao jornalista porque queria me afastar de Leonardo."
"Não seja ridícula."
"Lembro de como você cuidava dos meus ferimentos quando éramos crianças. Sei como você parece quando está preocupada. E sei como parece quando está mentindo."
O rosto dela endureceu.
"Você e Rafael sempre me deixaram de lado."
"Ele era nosso irmão."
"Para você, talvez."
Camila abriu a porta.
"Leonardo está na sala. Vista algo apresentável."
Quando me aproximei, ouvi a voz dela do outro lado.
"Minha mãe sempre foi exigente com Rafael. Quando éramos mais jovens, ele corria para você sempre que era castigado. Talvez tenha confundido sua proteção com amor."
"Isso ficou no passado", Leonardo respondeu.
"Você voltou a ajudá-lo. Tenho medo de que ele interprete errado outra vez."
Minha mão parou sobre a maçaneta.
Leonardo demorou alguns segundos para responder.
"Não haverá outra vez."
"Como pode ter certeza?"
"Comprei o contrato internacional dele."
Meu sangue esfriou.
"Rafael passará para a Valença Studios. Também vou anunciar uma união publicitária entre ele e Marina Albuquerque."
Camila soltou uma risada satisfeita.
"Você vai mesmo obrigá-lo a se casar?"
"Vou resolver o problema de uma vez."
Abri a porta.
Leonardo não demonstrou surpresa ao me ver. Talvez soubesse que eu estava ouvindo.
Ele pousou a xícara.
"Seu contrato já é meu."
Seu olhar encontrou o meu.
"E desta vez você não vai fugir."
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