"Quando Voltei a Ser Eu" Capítulo 1 — O Noivado Onde Enterraram Meu Nome
Capítulo 1 — O Noivado Onde Enterraram Meu Nome
Cinco anos depois de ser expulsa do Brasil, voltei para assistir ao noivado do homem que amava com a minha própria irmã.
No convite, porém, não estava escrito Rafaela Rocha.
Para o mundo, eu ainda era Rafael Rocha, o irmão gêmeo que eu enterrara dez anos antes.
O cantor que havia desaparecido no auge do escândalo.
O ex-integrante da Vértice que acabara de voltar dos Estados Unidos carregando um Latin Grammy nas mãos.
E, segundo os médicos, alguém que talvez não estivesse viva dali a seis meses.
A comemoração pela abertura de capital da Valença Studios ocupava o salão mais luxuoso de um hotel na Avenida Paulista. A fachada de vidro devolvia as luzes de São Paulo, enquanto empresários, artistas e jornalistas brindavam sob lustres dourados.
No palco, atores apresentavam uma esquete sobre um cantor que fingia ser amigo do líder de sua banda para seduzi-lo.
"Eu te tratava como irmão, e você estava apaixonado por mim?"
A plateia explodiu em gargalhadas.
Outro ator, usando uma jaqueta parecida com a que eu vestia nos tempos da Vértice, levou a mão ao peito de maneira exagerada.
"Não era amizade. Era estratégia. Tem gente que se infiltra num grupo de homens fingindo ser um deles só para conseguir o que quer."
Novas risadas atravessaram o salão.
Alguns convidados olharam diretamente para mim. Outros fingiram não olhar, o que era ainda pior.
Segurei a taça com força.
No reflexo do champanhe, meu rosto parecia mais pálido do que de costume. O terno preto escondia o corpo que eu aprendera a odiar, mas não conseguia ocultar o peso perdido durante o tratamento.
Ainda assim, mantive a postura.
Eu sobrevivera a dez anos de faixas apertadas em torno do peito, injeções para controlar o ciclo menstrual, vestiários trancados e exames médicos evitados.
Sobreviveria àquela última humilhação.
Quando a esquete terminou, o apresentador abriu os braços.
"Senhoras e senhores, esta noite não celebramos apenas uma nova etapa da Valença Studios. Também testemunharemos a união de duas das famílias mais conhecidas do nosso país."
As luzes se concentraram na escada central.
"Recebam Leonardo Valença e Camila Rocha!"
Minha irmã surgiu usando um vestido branco que deslizava pelo chão como espuma. O diamante em seu dedo refletiu as luzes dos fotógrafos.
Ao lado dela, Leonardo vestia um smoking preto.
O tempo o havia tornado ainda mais difícil de esquecer.
Aos trinta e um anos, ele já não era o rapaz que dividira comigo um quarto apertado durante a primeira turnê da Vértice. Havia se tornado um ator premiado, um empresário temido e o rosto mais valioso do cinema brasileiro.
Camila segurava sua mão.
Eles pareciam feitos para ocupar a capa de uma revista.
Eu desviaria os olhos se Leonardo não tivesse me encontrado primeiro.
Por um segundo, seu sorriso desapareceu.
Seu olhar percorreu meu rosto, como se procurasse algo que não conseguia nomear. Então Camila apertou seu braço e ele voltou a encarar as câmeras.
"Obrigado por estarem conosco", disse Leonardo ao microfone. "A Valença Studios nasceu de um sonho. Hoje, esse sonho se torna maior do que qualquer um de nós."
Aplausos preencheram o salão.
Ergui a taça junto com os outros convidados e bebi tudo de uma vez.
O álcool queimou minha garganta e atingiu meu estômago vazio. Uma dor profunda atravessou meu abdômen.
Prendi a respiração até ela diminuir.
Eu tinha aceitado o convite por uma única razão: queria vê-los uma última vez.
Minha mãe.
Minha irmã.
E Leonardo, o primeiro homem que amei e a pessoa que me ensinara quanto esse amor podia custar.
Quando o discurso terminou, procurei uma cadeira. Antes que pudesse me sentar, Leonardo e Camila pararam diante de mim.
As conversas ao redor diminuíram.
"Rafael", disse Leonardo.
Depois de tantos anos, ouvir aquela voz pronunciando o nome do meu irmão ainda fez meu coração tropeçar.
"Ouvi dizer que você conquistou os americanos."
Seu tom era educado. Seus olhos, não.
"Foi apenas um prêmio", respondi.
"Um Latin Grammy não é apenas um prêmio", Camila interveio, sorrindo para os fotógrafos. "Meu irmão sempre foi modesto."
Meu irmão.
Ela sabia que cada vez que dizia aquilo arrancava um pedaço de mim.
Leonardo pegou outra taça de uma bandeja.
"Como seu futuro cunhado, acho que devo recompensá-lo pelo sucesso. Diga o que quer."
Ele enfatizou as palavras futuro cunhado.
Olhei para o casal diante de mim.
Eu poderia ter pedido que retirassem a esquete humilhante do evento. Poderia ter exigido uma explicação por tudo o que acontecera cinco anos antes.
Mas já não queria nada que viesse deles.
"Não preciso de recompensa."
Camila soltou uma risada delicada.
"Então eu escolho por ele. Rafael já está com vinte e sete anos e continua sozinho. Você tem tantas atrizes solteiras na empresa, Leo. Poderia apresentar alguém a ele."
Meu corpo enrijeceu.
Camila conhecia meu segredo desde o primeiro dia. Sabia que um casamento transformaria minha vida em uma armadilha impossível.
Leonardo assentiu.
"É uma boa ideia."
Ele olhou ao redor do salão, como se realmente estivesse procurando uma candidata.
"Escolha quem quiser. Eu faço a apresentação agora."
"Não estou procurando um relacionamento."
"Por quê?"
"Minha carreira está crescendo. Não seria justo envolver outra pessoa nisso."
Um sorriso frio tocou a boca de Leonardo.
"Curioso."
O salão pareceu silenciar de uma vez.
"Cinco anos atrás, você não estava tão preocupado com a carreira nem com a confiança dos fãs."
Não precisava explicar.
Todos sabiam da carta.
A declaração que eu escrevera aos dezoito anos e escondera dentro de um caderno de composições. A carta que nunca pretendi entregar, mas que apareceu nas mãos de um jornalista.
Em poucas horas, eu fora transformada em um predador obcecado pelo líder da própria banda.
Leonardo me expulsara da Vértice antes que eu pudesse explicar.
"Eu era jovem", falei. "E cometi um erro."
"Finalmente admite."
"Admito que não deveria ter escrito o que escrevi."
Minha visão oscilou, mas continuei de pé.
"Também garanto que isso não voltará a acontecer."
Algo mudou no rosto dele.
Camila apertou sua mão antes que ele respondesse.
"Não vamos estragar uma noite tão bonita falando do passado."
Ela ergueu a taça.
"Afinal, Rafael voltou para celebrar nossa felicidade."
"É claro."
Sorri como aprendera a fazer diante das câmeras.
"Que vocês sejam muito felizes."
A náusea veio antes que eu terminasse a frase.
Larguei a taça em uma mesa e atravessei o salão. Entrei no banheiro, tranquei-me na primeira cabine e caí de joelhos.
O sangue que saiu da minha boca manchou o vaso de vermelho.
Esperei a tontura passar, limpei os lábios e joguei vários lenços por cima da mancha. Quando me levantei, meu reflexo no espelho parecia o de uma pessoa que já havia começado a desaparecer.
Ao voltar ao salão, encontrei Leonardo olhando para a porta.
Seus olhos desceram até minha mão, ainda úmida.
"Você vomitou?"
"Foi a viagem."
"Seu rosto está péssimo."
Camila se pendurou no braço dele.
"Você assustou meu irmão falando daquela história antiga."
Leonardo continuou me observando.
Por um instante, vi preocupação em seu rosto. Então ela foi substituída pela mesma frieza de cinco anos antes.
"Bruno, leve Rafael à minha sala particular."
"Não precisa."
"Não foi um pedido."
Eu já não tinha forças para discutir.
A sala de Leonardo ficava no andar superior, longe do barulho. Assim que Bruno me deixou sozinha, sentei no sofá e tentei controlar a dor.
Foi então que vi o abajur.
Estava sobre uma estante, cercado por prêmios e fotografias.
A base de madeira continuava levemente torta. Eu o fizera com as próprias mãos quando tinha dezoito anos, depois de Leonardo reclamar que não conseguia dormir sob a luz branca dos hotéis.
Pensei que ele o tivesse jogado fora.
Aproximei-me devagar e toquei a madeira.
Na base havia um compartimento secreto. Pressionei a lateral, e a pequena tampa se abriu.
O papel continuava lá.
Amarelado pelo tempo, dobrado exatamente como eu o deixara.
As palavras haviam sido escritas por uma garota que ainda acreditava que amar alguém podia ser uma coisa bonita.
Assisti a tantos vídeos sobre nós dois. Todos dizem que eu olho para você como alguém apaixonado. Eu queria dizer que é verdade.
Meus dedos começaram a tremer.
Eu precisava destruir aquilo.
Estava dobrando o papel quando ouvi a porta se fechar atrás de mim.
"Esse abajur foi o presente que você me deu no seu aniversário de dezoito anos."
A voz de Leonardo atravessou a sala.
Virei-me.
Ele estava parado diante da porta, sem Camila, sem fotógrafos e sem o sorriso de empresário.
Seus olhos estavam presos ao papel em minha mão.
Leonardo se aproximou até restar apenas um passo entre nós.
"Então você já me amava naquela época?"
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