"Meu Filho Voltou do Futuro Para Escolher Outra Mãe" Parte 4 — Ele Tentou Me Matar de Novo
Parte 4 — Ele Tentou Me Matar de Novo
Davi Moura estava parado no estacionamento do hospital, ao lado de um carro preto, observando a entrada.
O mesmo rosto.
O mesmo tipo de veículo.
O mesmo homem que quase me matou na outra vida.
"Lívia, não saia daí", Camila ordenou pelo telefone. "A segurança do hospital já foi avisada. Estou chamando a polícia."
"Se ele perceber que foi descoberto, pode fugir."
"Melhor ele fugir do que você morrer tentando detê-lo."
Afastei-me da janela.
Dentro do quarto, Caio ainda consolava Theo e acreditava em cada palavra de Bianca. Se eu voltasse para pedir ajuda, provavelmente teria de explicar por que desconfiava do suposto primo dela.
Não perderia tempo tentando convencer um homem que já escolhera em quem acreditar.
Abri o aplicativo do Grupo Montenegro e ativei o compartilhamento permanente da minha localização com Camila. Em seguida, enviei à nuvem as fotos de Davi, da placa e do veículo.
Dois seguranças do hospital chegaram minutos depois.
"Senhora Montenegro?"
"Sim."
"Vamos acompanhá-la até uma saída reservada. A polícia está a caminho."
Olhei outra vez pela janela.
Davi já não estava ao lado do carro.
"Ele percebeu."
"Então precisamos sair agora."
Desci pelo elevador de serviço e entrei em um veículo do hospital. Um segurança dirigia; o outro permaneceu no banco traseiro comigo.
Meu carro ficaria na garagem até Camila buscá-lo.
Quando atravessamos o portão lateral, procurei o carro preto entre os veículos estacionados. Não o encontrei.
Talvez Davi tivesse desistido.
Não acreditei nisso nem por um segundo.
O segurança me deixou na sede do Grupo Montenegro. Meu pai já estava me esperando no saguão, acompanhado por Camila e dois homens da segurança corporativa.
Augusto Montenegro atravessou o salão e me abraçou.
"Você viu o homem que tentou matá-la e não me ligou?"
"Eu liguei para Camila."
"Camila é advogada. Eu sou seu pai."
A culpa na voz dele doeu mais que a bronca.
Durante anos, eu os mantivera afastados porque Caio dizia que meu pai nunca o aceitaria. Na primeira vida, até mesmo quando sofri o acidente, escondi a gravidade dos ferimentos para impedir que meus pais usassem aquilo como motivo para atacar meu casamento.
Desta vez, não faria isso.
"Desculpe."
Meu pai segurou meu rosto.
"Você não precisa pedir desculpas. Só precisa parar de enfrentar tudo sozinha."
Camila colocou um envelope sobre a mesa da sala de reuniões.
"O investigador concluiu a primeira etapa."
As fotografias mostravam Bianca entrando em hotéis, restaurantes e apartamentos com homens diferentes. Em várias imagens, Davi aparecia dirigindo para ela ou recebendo envelopes.
"Bianca nunca teve câncer", Camila disse. "O hospital onde ela afirma ter recebido o diagnóstico não possui nenhum registro em seu nome."
Meu pai soltou uma risada amarga.
"Então aquela história de ter recusado Caio para não fazê-lo sofrer..."
"Foi inventada. Na época, Bianca contou a amigas que Caio era pobre demais para ela. Nos últimos anos, viveu de presentes e transferências feitas por homens com quem se relacionava."
Camila apontou para uma sequência de extratos.
"Também encontramos pagamentos de Bianca para uma empresa ligada a Davi. Um deles ocorreu três dias antes do seu primeiro acidente."
"Isso prova que ela o contratou?"
"Ainda não. A empresa presta serviços de transporte. A defesa alegará que foi um pagamento legítimo."
"E as mensagens?"
"Precisamos de autorização judicial para acessar os aparelhos. Por enquanto, temos indícios fortes, mas não a ligação final."
Peguei uma fotografia de Bianca beijando Davi.
"Caio sabe que eles não são parentes?"
"Não."
"Não contem a ele."
Meu pai me encarou.
"Por quê?"
"Porque Caio a avisaria. Mesmo acreditando que está me protegendo, daria a Bianca tempo para destruir provas."
Camila assentiu.
"Concordo."
Retirei do envelope as cópias das transferências.
"Peça judicialmente a preservação dos dados telefônicos dos dois. Inclua as imagens do aniversário, as gravações da festa junina e o histórico do meu acidente anterior."
"Já comecei a preparar o pedido."
"E antecipe minha viagem."
Meu pai franziu a testa.
"Seu voo é daqui a quatro dias."
"Bianca sabe que estou investigando Davi. Não vou esperar quatro dias dentro da mesma cidade."
Depois de algumas ligações, conseguiram uma passagem para a noite seguinte.
A segurança corporativa me levou para o apartamento dos meus pais. Eu passaria a noite ali, mas antes precisava buscar o passaporte e algumas roupas.
Dois carros me acompanharam até a casa onde eu vivera com Caio.
Ele ainda estava no hospital.
Entrei no quarto, retirei os últimos documentos do cofre e fechei duas malas. Não levei joias, vestidos ou presentes que Caio comprara.
Tudo aquilo pertencia a uma vida que eu já havia encerrado.
Sobre a cômoda, encontrei uma fotografia nossa do início da Valença Tech. Caio sorria diante de um escritório improvisado. Eu segurava um cartaz com o nome da empresa, pintado à mão.
Naquela noite, havíamos comemorado o primeiro contrato dividindo uma pizza barata.
Toquei a borda da fotografia.
Eu amara aquele homem.
Talvez por isso tivesse demorado tanto para aceitar que o Caio daquela fotografia não existia mais.
Deixei a imagem virada para baixo.
Meu celular tocou quando eu saía da casa.
Era Caio.
"Lívia, onde você está?"
"Por quê?"
"Voltei para casa e você não está. Suas malas também sumiram."
"Eu avisei que o casamento estava cancelado."
"Uma discussão não lhe dá o direito de desaparecer."
"Eu não preciso do seu direito."
"Pare de falar como se fôssemos estranhos."
"É exatamente isso que somos agora."
Ele respirou com força.
"Theo acabou de sair de uma emergência. Você o colocou em risco e foi embora sem demonstrar arrependimento."
Parei ao lado do carro.
"Você pediu as imagens do salão?"
"Não mude de assunto."
"Eu não dei o bolo a Theo. Bianca deu."
"Meu filho disse que foi você."
"Ele mentiu."
"Ele tem cinco anos!"
"E já sabe escolher a mentira que o aproxima da mãe que deseja."
Caio ficou em silêncio por um instante.
"Volte para casa. Conversaremos quando você estiver mais calma."
"Não vou voltar."
Desliguei.
Na manhã seguinte, Camila me acompanhou à Polícia Civil. Fiz um novo depoimento e entreguei os documentos reunidos até então.
O delegado solicitou proteção emergencial e alertou que, sem prova direta da ordem dada por Bianca, ainda não poderia prendê-la.
Eu já esperava isso.
Ao sair da delegacia, pedi que o motorista alterasse o caminho até a sede do Grupo Montenegro três vezes. Também trocamos de veículo na garagem de um edifício comercial.
No início da tarde, assinei os documentos finais da transferência.
Meu voo partiria às vinte e três horas.
Faltavam poucas horas para eu deixar o país quando Camila recebeu uma ligação.
"O pedido de preservação foi aceito", anunciou. "As operadoras não poderão apagar os registros. Também solicitaram as imagens de pedágios e radares vinculadas ao carro de Davi."
"Então já temos o suficiente."
"Ainda precisamos manter você viva para depor."
Meu pai insistiu que eu fosse diretamente ao aeroporto, mas havia um último documento da autorização de residência no consulado português.
Sem ele, minha posse no cargo seria adiada.
Seguimos em comboio. O atendimento terminou antes do previsto, e saí do prédio com o passaporte e a autorização em mãos.
Na avenida, o trânsito estava lento.
Meu telefone tocou.
Era o investigador.
"Lívia, encontrei uma testemunha do seu acidente antigo. Davi admitiu que tinha recebido dinheiro para assustar uma mulher rica. A testemunha aceita falar com a polícia."
"Consegue levá-la até Camila?"
"Já estamos a caminho."
Um estrondo interrompeu a ligação.
Meu corpo foi jogado contra a porta.
O carro da segurança à nossa frente rodou na pista depois de ser atingido. Antes que o motorista pudesse reagir, um SUV preto apareceu no espelho e bateu na traseira do nosso veículo.
O cinto travou contra meu peito.
"É ele!", gritei.
Davi recuou e acelerou outra vez.
Nosso motorista tentou mudar de faixa, mas o SUV bateu na lateral e nos empurrou contra a proteção da avenida.
O vidro estourou.
Um fragmento cortou minha testa.
O telefone escapou da minha mão e caiu sob o banco. Tentei alcançá-lo, mas o carro girou e atingiu um poste.
O segurança perdeu a consciência.
Sangue escorria pelo rosto do motorista.
Davi deu ré.
Ele não queria me assustar.
Queria terminar o que começara.
Procurei o botão de emergência no painel, mas meus dedos tremiam. Apertei a tela do celular sem enxergar o nome que aparecia.
A chamada foi atendida.
"Alô?"
Era Theo.
"Chame... a polícia", consegui dizer. "Sofri um acidente."
"Você de novo?"
A voz dele não tinha preocupação, apenas irritação.
"Pare de fingir que está em perigo para o papai voltar para casa."
"Theo, passe o telefone para Caio."
"Não. Ele está com a mamãe Bianca."
Do outro lado, ouvi música e a risada distante de Bianca.
"Você quer estragar tudo porque ninguém mais acredita em você."
O SUV avançou.
"Theo, por favor..."
"Logo eu vou nascer da barriga da minha mãe de verdade. Você nunca mais vai atrapalhar nossa família."
A ligação foi encerrada.
O impacto seguinte esmagou a porta traseira.
A dor atravessou minha perna quando pedaços de vidro se cravaram em minha pele.
Por um instante, a lembrança da outra vida me invadiu.
Theo ainda era pequeno quando viu a cicatriz do primeiro acidente. Passou o dedo sobre minha pele e disse que, se estivesse comigo naquele dia, teria me protegido.
Agora ele estava no passado comigo.
E acabara de desligar meu pedido de socorro.
Davi recuou mais uma vez.
Olhei para o motorista desacordado e para a fila de carros que começava a se formar atrás de nós. Se o SUV atingisse o tanque de combustível, outras pessoas também poderiam morrer.
Soltei o cinto.
Passei para o banco da frente, empurrei o motorista para o lado e alcancei o volante. O motor ainda funcionava.
Davi acelerou.
Eu também.
Em vez de tentar fugir, girei o volante e atravessei nosso veículo diante do SUV.
O choque lançou o carro de Davi contra a mureta.
Airbags explodiram.
Sirenes se aproximavam quando minha visão escureceu.
Acordei horas depois em um quarto de hospital.
Caio estava ao lado da cama.
O primeiro detalhe que vi foram as marcas avermelhadas em seu pescoço, parcialmente escondidas pela camisa.
Ele não perguntou se eu estava com dor.
Não perguntou se conseguiria andar.
Apenas colocou um papel sobre o lençol.
"Quando receber alta, você vai se desculpar com o primo de Bianca."
Olhei para ele sem compreender.
"Como é?"
"Davi viu você dirigindo de forma perigosa e tentou alertá-la. Em vez de parar, você jogou o carro contra o dele. Os dois braços dele estão fraturados."
Ele apontou para minha perna enfaixada.
"Você podia ter matado alguém."
Comecei a rir.
A princípio, foi uma risada baixa. Depois, tornou-se impossível controlar.
"Lívia, isso não tem graça."
"Você quer que eu peça desculpas ao homem que tentou me matar?"
"Bianca contou o que aconteceu."
"E você acreditou."
"Há testemunhas de que foi você quem atravessou o carro na frente dele."
"Depois de ele nos atingir quatro vezes."
Caio massageou a testa.
"Por que tudo precisa virar uma conspiração envolvendo Bianca?"
"Porque foi ela quem pagou Davi."
O rosto dele se fechou.
"Chega."
"Você não quer a verdade. Quer uma versão em que Bianca seja inocente e eu seja uma mulher ciumenta que você precisa controlar."
"Lívia, reflita sobre seus atos. Até que assuma seus erros, nosso casamento ficará suspenso."
"Nosso casamento não existe."
"Então continuará cancelado até que você recupere o bom senso."
Caio saiu e bateu a porta.
Esperei alguns segundos antes de retirar o acesso venoso.
Camila entrou no quarto quando eu já tentava me levantar.
"Você deveria ficar em observação."
"Meu voo?"
"Foi remarcado para amanhã à noite."
"Antecipe novamente."
"Lívia..."
"Se eu ficar, Caio continuará contando a Bianca tudo o que sabe. Preciso sair antes que ela descubra que sobrevivi em condições de falar."
Camila observou meu rosto.
"Você já entregou o suficiente para iniciarmos a investigação. O registro do veículo mostra que Davi a perseguiu por dezessete quilômetros. As câmeras captaram as colisões."
"Então faça o pedido de prisão."
"Vou fazer."
Assinei a alta contra recomendação médica.
Antes de seguir para o aeroporto, passei no consulado e retirei o último documento. Depois troquei de telefone, mantive o número brasileiro apenas com Camila e meus pais e bloqueei Caio em todos os canais pessoais.
Às vinte e duas horas, entrei na área de embarque.
Não deixei carta.
Não havia mais nada a explicar.
Quando o avião decolou, olhei pela janela para as luzes de São Paulo desaparecendo sob as nuvens.
Caio.
Bianca.
Theo.
Tudo o que me destruíra na outra vida ficou para trás.
Desta vez, eu sobrevivera.
E não voltaria para eles.
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