"Meu Filho Voltou do Futuro Para Escolher Outra Mãe" Parte 3 — O Bolo Envenenado
Parte 3 — O Bolo Envenenado
Eu não pretendia ir ao aniversário de Bianca.
Mudei de ideia quando a vi descer do carro de um homem desconhecido e beijá-lo na boca.
Eu estava estacionada diante do cartório, aguardando a autenticação dos documentos da transferência. O carro preto parou do outro lado da rua.
Bianca saiu do banco do passageiro usando o vestido que Caio comprara para mim.
Antes de fechar a porta, inclinou-se para dentro e beijou o motorista.
O homem sorriu e segurou seu queixo.
Quando virou o rosto, meu sangue gelou.
Eu o conhecia.
Na primeira vida, seis meses depois do meu casamento, aquele homem jogara um carro contra o meu em uma avenida vazia.
Sobrevivi por pouco.
O impacto deixou uma cicatriz profunda em minha coxa, mas a polícia nunca encontrou provas de que o acidente fora intencional.
Naquela época, não havia qualquer ligação aparente entre o motorista e Bianca.
Agora, eu acabara de vê-los juntos.
Fotografei a placa do carro e enviei a imagem para Camila Torres, advogada da minha família.
"Preciso que descubra quem é esse homem."
A resposta veio imediatamente.
"Vou contratar um investigador."
Bianca se afastou do veículo sem perceber minha presença. O homem arrancou, e ela entrou no hotel onde Caio organizara sua festa de aniversário.
Minha partida aconteceria em quatro dias.
Eu poderia simplesmente ignorar tudo e deixar o Brasil.
Mas, se Bianca fora responsável pelo primeiro acidente, não havia garantia de que desistiria apenas porque eu cancelara o casamento.
Eu precisava saber a verdade.
Entrei no hotel.
O salão estava decorado com centenas de flores brancas. Caio recebia os convidados ao lado de Bianca, como se fosse o anfitrião de uma celebração para a própria esposa.
Theo circulava entre eles, sorrindo e chamando Bianca de mãe sempre que havia alguém por perto para ouvir.
Caio me viu e relaxou os ombros.
"Eu sabia que você viria."
"Não vim por você."
Ele ignorou a resposta.
"Comporte-se esta noite. Depois, peça desculpas a Bianca pelo que aconteceu na festa junina. Se fizer isso, considero encerrado o assunto e esqueço o que disse sobre cancelar o casamento."
A condescendência na voz dele quase me fez rir.
"Eu não fiz nada. Não vou pedir desculpas."
"Lívia..."
"E o casamento continua cancelado."
O rosto de Caio endureceu.
Antes que respondesse, alguém o chamou para cumprimentar um investidor. Ele se afastou, mas Bianca permaneceu.
Aproximou-se lentamente, exibindo o vestido prateado.
"Ficou perfeito em mim, não acha?"
"Caio disse que você não se importou."
"Não me importo."
O sorriso dela diminuiu.
"Se meu noivo desse meu vestido de casamento para outra mulher, eu ficaria devastada."
"Então espero que seu futuro noivo tenha mais bom senso."
Bianca inclinou a cabeça.
"Você realmente acredita que Caio ainda vai se casar com você?"
"Não."
Minha resposta a confundiu.
Chegou mais perto e abaixou a voz.
"Ele pode insistir agora porque está acostumado a ter você esperando em casa. Mas homens como Caio sempre escolhem a mulher que realmente amam."
"Então fique com ele."
"Não acredita que eu consiga?"
"Acredito."
Ela procurou alguma ironia em meu rosto e não encontrou.
"Na verdade, torço para que consiga rápido."
Antes que pudesse responder, Theo correu até nós.
"Mamãe Bianca, quero comer bolo."
Bianca lançou-me um olhar vitorioso e segurou a mão dele.
"Claro, meu amor."
Observei os dois caminharem em direção à mesa de sobremesas.
Theo tinha alergia grave a castanhas de caju.
Na primeira vida, eu controlava cada alimento que ele consumia. Lia rótulos, conversava com cozinheiros e carregava medicação de emergência em todas as bolsas.
Agora, Bianca apontou para um bolo coberto por creme claro.
Theo pegou um pedaço.
Minha respiração parou.
Havia uma pequena placa diante da travessa:
Creme de castanha-de-caju.
Caminhei na direção deles, mas uma funcionária passou carregando taças e bloqueou meu caminho.
Quando consegui avançar, Theo já havia colocado uma colherada na boca.
"Não coma isso!"
Minha voz chamou a atenção do salão.
Theo me encarou, irritado.
"Você não manda em mim."
Afastou-se e enfiou outra colher na boca.
Segundos depois, começou a tossir.
O prato caiu de suas mãos.
Manchas vermelhas surgiram em seu pescoço, e seus lábios incharam rapidamente.
"Caio!", gritei. "Chame uma ambulância!"
Theo levou as mãos à garganta.
Caio atravessou os convidados e o pegou no colo.
"O que aconteceu?"
"Reação alérgica. O bolo tem castanha-de-caju."
Peguei minha bolsa por reflexo.
Na primeira vida, eu sempre carregava a medicação de Theo. Mas aquela versão dele ainda não havia sido adotada por mim. Eu não tinha nada.
"Ele não está conseguindo respirar", Bianca chorou.
"Há um hospital a quatro quadras", alguém disse.
Caio correu para a saída.
Fui atrás deles.
No pronto-socorro, Theo recebeu atendimento imediato. A reação foi controlada, mas os médicos decidiram mantê-lo em observação.
Caio permaneceu ao lado da cama, segurando sua mão.
Quando o médico saiu, ele se voltou para nós.
"Quem deu aquele bolo para ele?"
Abri a boca.
Bianca começou a chorar antes que eu pudesse responder.
"Foi Lívia."
Caio a encarou.
"O quê?"
"Eu tentei impedir, mas ela entregou o prato a Theo. Ela sabia que ele era alérgico."
Por um segundo, nem consegui acreditar na audácia.
"Há câmeras no salão."
Bianca ficou pálida.
"Você vai sustentar essa mentira mesmo sabendo que tudo foi gravado?"
"Não estou mentindo!"
Ela se agarrou ao braço de Caio.
"Eu sei que Lívia me odeia, mas nunca imaginei que usaria uma criança para me ferir."
Caio olhou para mim com uma expressão que eu conhecia bem.
Decepção.
Raiva.
E nenhuma dúvida.
"Lívia, diga que isso não é verdade."
"Não fui eu."
"Bianca viu."
"Bianca também disse que a empurrei na festa junina. Tenho três vídeos provando que ela mentiu."
Ele piscou.
"Que vídeos?"
"Os que você nunca quis verificar."
A voz fraca de Theo interrompeu a discussão.
"Mamãe..."
Seu rosto ainda estava pálido. Ele ergueu os braços em minha direção.
Na primeira vida, sempre que acordava em um hospital, Theo pedia meu colo. Eu o abraçava e permanecia ao lado dele até que o medo desaparecesse.
Meu corpo quase avançou por instinto.
Parei.
Theo esperou, confuso.
Caio o pegou no colo.
"Está tudo bem. O papai está aqui."
Theo abriu os olhos por completo. Ao perceber que havia me chamado, sua expressão mudou.
Caio acariciou seus cabelos.
"Filho, preciso que diga a verdade. Quem deu o bolo para você?"
Theo olhou para Bianca.
Ela permanecia atrás de Caio, com os olhos fixos nele.
O menino hesitou.
Então apontou para mim.
"Foi ela."
Algo dentro de mim se rompeu em silêncio.
Eu já sabia que ele escolheria Bianca. Ainda assim, ouvir a mentira doeu de uma forma que não esperava.
Caio levantou-se.
"Então foi mesmo você."
"Não."
"Meu filho quase morreu!"
"Ele não é seu filho."
"Isso não importa agora!"
Caio segurou meu pulso com tanta força que senti os ossos se comprimirem.
"Você perdeu completamente a noção? Primeiro empurra Bianca contra o fogo. Depois oferece um alimento venenoso a uma criança. Até onde pretende chegar por ciúme?"
"Solte-me."
"Peça desculpas."
"Solte-me, Caio."
"Peça desculpas a Theo e a Bianca agora."
A raiva acumulada de duas vidas subiu pela minha garganta.
Eu me lembrava de todas as vezes em que ele exigira que eu aceitasse uma culpa que não era minha.
De todas as ocasiões em que minha palavra valera menos que uma lágrima de Bianca.
Levantei a mão e bati no rosto dele.
O estalo ecoou pelo quarto.
Caio me soltou.
Bianca arregalou os olhos. Theo ficou imóvel.
"Você ficou louca?", Caio perguntou.
"Não. Pela primeira vez, estou enxergando tudo com clareza."
Minha voz tremia, mas não de medo.
"Eu disse que não fiz isso. Você viveu comigo por dez anos. Sabe quem eu sou, sabe o que fui capaz de sacrificar por você, mas basta Bianca chorar para que eu me transforme em uma criminosa aos seus olhos."
"Há uma testemunha."
"Uma criança que acabou de mentir para proteger a mulher que deseja chamar de mãe."
Theo apertou os lábios.
Caio avançou um passo.
"Não tente culpar o menino."
"Você tem razão. O erro não é dele."
Olhei diretamente para Caio.
"O erro foi meu por ter acreditado que algum dia você me escolheria quando Bianca estivesse na mesma sala."
"Lívia, você está transformando tudo em uma disputa."
"Não existe mais disputa."
Ele riu sem humor.
"Está ameaçando desistir de nós outra vez?"
"Não é uma ameaça."
"Você vai se arrepender quando eu realmente cancelar o casamento."
Aquela frase finalmente apagou o último vestígio de emoção que eu ainda sentia por ele.
"Se eu pudesse voltar ao dia em que conheci você, Caio, seguiria em frente sem dizer uma palavra."
A expressão dele mudou.
Dei-lhe outro tapa, mais forte que o primeiro.
"Guarde suas desculpas para o dia em que descobrir a verdade."
Saí do quarto.
No corredor, liguei para Camila.
"Quero as imagens completas do salão antes que alguém consiga apagá-las."
"Vou solicitar a preservação judicial agora."
"E o investigador?"
"Acabou de identificar o homem do carro. O nome dele é Davi Moura. Tem antecedentes por agressão, fraude e participação em corridas clandestinas."
Encostei-me à parede.
"Há mais uma coisa", Camila continuou. "Davi dirigia um veículo registrado em nome de uma empresa de fachada quando você sofreu aquele acidente anos atrás."
Meu coração acelerou.
"Conseguiu ligar a empresa a Bianca?"
"Ainda não. Mas encontramos transferências feitas por ela para Davi na semana anterior ao acidente."
Fechei os olhos.
Não era coincidência.
Na primeira vida, Bianca tentara me matar.
Antes que eu pudesse responder, Camila chamou meu nome com urgência.
"Lívia, onde está seu carro?"
"Na garagem do hospital."
"Não saia sozinha. Davi recebeu uma ligação de Bianca há menos de dez minutos."
Olhei através da janela do corredor.
No estacionamento, um homem estava parado ao lado de um carro preto, observando a entrada do hospital.
Era o mesmo rosto que eu vira antes.
O mesmo homem que quase me matara na primeira vida.
E ele acabara de me encontrar.
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