"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 15
A placa da nova Casa Poppy ainda estava coberta quando Lily me encontrou examinando a porta dos fundos.
– Você chegou há oito minutos – disse ela.
– Sete.
– E já encontrou um problema?
Apontei para a fechadura.
– Está instalada dois centímetros abaixo do projeto.
Lily cruzou os braços. Aos quarenta e três anos, continuava usando o mesmo olhar de Clara quando alguém tentava transformar uma opinião em ordem.
– A porta fecha?
– Fecha.
– Abre por dentro?
– Abre.
– Então deixe os dois centímetros em paz.
Afastei a mão da maçaneta.
– Estou praticando.
– Há quarenta anos.
– Mudanças sólidas levam tempo.
Ela tentou não sorrir e falhou.
A unidade de Recife ocupava uma antiga escola perto do mar. Lily preservara as janelas largas, pintara os corredores de cores claras e exigira que todas as salas tivessem uma saída visível.
Havia cadeiras de vários tamanhos. Nenhuma amarela.
Notei isso antes de notar o palco montado para a inauguração.
– Onde está?
– O quê?
– A cadeira.
– Em São Paulo.
– Trouxemos Poppy.
O coelho estava sobre uma prateleira, com a orelha reconstruída e a mancha escura do incêndio. Viajava numa caixa acolchoada que custara mais do que Lily considerava razoável.
– Poppy veio como convidada – explicou. – A cadeira pertence à primeira casa.
– Esta também precisa de uma.
– Então alguma criança daqui vai escolher.
Eu deveria ter entendido. Mesmo assim, levei alguns segundos.
Lily tocou meu braço.
– Você não precisa trazer todos os símbolos com você, pai.
– Símbolos ajudam pessoas a entender.
– Às vezes ajudam adultos a controlar o que a história deve significar.
Clara teria aprovado a frase. Também teria me dirigido aquele pequeno sorriso de vitória que tornava qualquer discussão impossível de continuar.
Olhei para a fotografia dela junto à entrada. Não era um retrato formal; Clara aparecia sentada no chão, cercada por caixas de documentos, com uma caneta presa no cabelo.
– Escolheu essa de propósito – falei.
– Ela odiava as fotografias de gala.
– Dizia que pareciam velórios com champanhe.
– Exatamente.
Do lado de fora, jornalistas começaram a chegar. A equipe ajustava microfones, organizava listas e tentava esconder o nervosismo com pranchetas.
Uma assistente se aproximou de Lily.
– A família do primeiro atendimento chegou antes da hora.
– Quanto antes?
– Duas horas.
Lily olhou para o relógio.
– Onde estão?
– Na recepção. O menino não quer entrar.
Seguimos até o corredor principal. Uma mulher jovem esperava junto à parede, segurando uma mochila infantil e um envelope de documentos.
O menino estava do lado de fora.
Devia ter cinco anos. Usava sandálias azuis, camiseta de dinossauro e mantinha os dedos fechados ao redor da grade.
Lily parou a alguns metros.
– Qual é o nome dele?
– Theo. A mãe é Camila.
Camila nos viu e se levantou depressa.
– Doutora Romano?
– Lily está bom.
Ela olhou para mim. Reconhecimento atravessou seu rosto, seguido de cautela.
– Este é meu pai – disse Lily. – Ele só está visitando.
A ênfase foi desnecessária.
– Eu sei obedecer limites – falei.
Lily não confirmou.
Camila explicou que precisava prestar depoimento contra o ex-companheiro. O atendimento seria temporário, mas Theo ouvira a palavra "acolhimento" e concluíra que seria deixado ali.
– Disseram que é só por alguns dias – ela falou. – Ele não acredita.
Lily agachou perto da porta, sem avançar sobre o menino.
– Oi, Theo.
Ele apertou a grade.
– Não vou.
– Tudo bem.
Camila fechou os olhos.
– Filho, a gente já conversou.
– Você pode entrar – Lily disse a ela. – Vou esperar aqui.
– Mas a inauguração...
– Pode começar sem mim.
A equipe ao fundo ficou imóvel. Lily sentou no piso e apoiou as costas na parede.
Eu conhecia aquela escolha.
Aos sessenta e três anos, sentei no chão para ler a um menino que precisava vigiar uma saída. Theo precisava de outra coisa: um adulto que não transformasse pressa em ameaça.
Sentei ao lado de Lily.
– Você não precisa ficar – ela disse.
– Estou aposentado.
– Há muitos anos.
– Adaptei-me devagar.
Theo olhou para nós pela primeira vez.
– Ele é seu pai?
– É – respondeu Lily.
– Ele mora aqui?
– Não. Veio me visitar.
O menino examinou meu rosto.
– Ele vai embora?
– Vai.
– E você deixa?
Lily inclinou a cabeça.
– Deixo.
Theo olhou para mim.
– Você volta?
– Quando ela me convida.
– E quando ela não convida?
– Reclamo por telefone.
Lily soltou o ar pelo nariz.
– Isso é verdade.
Theo afrouxou os dedos.
Camila ainda segurava o envelope junto ao peito.
– Eu preciso assinar os papéis – disse ela ao filho. – Depois volto.
– Quanto demora?
– Não sei.
A resposta fez o menino prender a grade outra vez.
Lily não corrigiu Camila nem ofereceu um horário inventado.
– Podemos marcar cada etapa – sugeriu. – Sua mãe entra, entrega os documentos e volta até esta porta. Depois vocês decidem juntos se conhecem a sala.
Theo apontou para o corredor.
– Vão trancar?
– Não.
– E se eu quiser sair?
– Um adulto vem com você.
– Minha mãe?
Lily olhou para Camila.
– Sempre que for seguro e possível.
Theo franziu a testa.
– Isso é sim ou não?
– Hoje é sim – disse Camila. – Amanhã a gente pergunta de novo.
A mão dele deixou a grade.
Camila entrou sozinha para entregar os documentos. Voltou três minutos depois, como prometera.
Na segunda vez, Theo atravessou a porta com ela. Caminhou até o saguão, viu Poppy na prateleira e parou.
– Por que o coelho está queimado?
– Sobreviveu a um incêndio – respondi.
– Consertaram errado.
Lily sorriu.
– Consertaram para continuar sendo ela.
Theo aproximou-se da prateleira. Não tocou no coelho.
– Ela pode ir embora daqui?
– Pode viajar – Lily explicou. – Mas mora em São Paulo.
– Então veio visitar também.
– Exatamente.
A cerimônia começou com vinte minutos de atraso. Nenhuma autoridade reclamou diante das câmeras.
Lily subiu ao palco ao lado de Camila e Theo. Não contou a história deles nem os apresentou como o primeiro caso de sucesso.
Ainda não havia sucesso para anunciar. Havia apenas uma porta atravessada.
Quando retiraram o tecido da placa, os convidados aplaudiram. Theo cobriu os ouvidos, e Camila se abaixou até ficar na altura dele.
Depois dos discursos, encontrei o menino numa sala vazia. Ele arrastava uma pequena cadeira de plástico pelo piso.
– Precisa de ajuda? – perguntei.
– Não.
Esperei.
A cadeira era verde. Theo a colocou perto da janela, de onde podia ver o portão e parte do mar.
Sentou e balançou as pernas.
– Esta é minha.
– Parece que sim.
– Ninguém pode tirar.
– Você pode levar para outra sala se pedir ajuda.
Ele avaliou a resposta.
– Poppy tinha cadeira?
– Amarela.
– Quem deu?
Olhei para Lily, parada junto à porta.
– Ela pegou sozinha.
Theo sorriu.
Lily entrou e colocou uma caixa de lápis sobre a mesa.
– Quer desenhar?
– Só se minha mãe ficar.
Camila apareceu atrás dela.
– Eu fico.
Theo pegou um lápis roxo.
Naquela tarde, voltei ao hotel sem verificar a fechadura dos fundos outra vez. Lily dirigiu, e Poppy viajou no banco traseiro dentro da caixa absurda.
– Você está quieto – ela disse.
– Theo escolheu verde.
– Escolheu.
– Combina com a sala.
– Por sorte. Eu não deixaria você trocar a decoração.
Olhei pela janela. A nova Casa Poppy desaparecia atrás das árvores, mas uma das janelas continuava visível.
A cadeira verde estava diante dela.
– Pai?
– Sim?
– Ainda acha que precisávamos trazer a amarela?
Observei Theo erguer o desenho para a mãe antes que o carro dobrasse a esquina.
– Não.
Lily esperou, desconfiada.
– Só isso?
– A primeira cadeira de Recife já encontrou o próprio dono.
Ela sorriu e continuou dirigindo.
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