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"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 8

正文开头

O nome dela era Maya Torres. A ficha no sistema estadual afirmava que passara pela Casa Poppy quatro meses antes de o centro existir.

Lily me ligou às 7h43. Aos vinte e sete anos, dirigia a própria instituição e dependia de ninguém; eu ainda atendia no primeiro toque.

– Pai, preciso que não vire Alessandro Romano por dez minutos.

– Essa frase nunca anuncia algo bom.

Ela explicou: dezessete crianças, todas com registros falsos da Casa Poppy. Quatro haviam desaparecido do sistema sem óbito, transferência ou endereço.

Cheguei em meia hora. Lily me recebeu no estacionamento.

– Sem investigadores particulares.

– Concordo.

– Sem cobrar favores.

– Defina favores.

– Pai.

– Certo.

Clara abraçou Maya antes de perguntar qualquer coisa. A menina mostrou fotografias de uma escola desativada na Grande São Paulo, com uma placa: INSTITUTO FAROL DE TRANSIÇÃO FAMILIAR.

O Farol era um dos maiores contratados privados de acolhimento do estado. Evelyn Shaw, fundadora e rosto público, aparecia ao lado de governadores, empresários e prêmios.

Ela prometera uma doação de duzentos e cinquenta mil reais à Casa Poppy. Daniel examinou a conta e descobriu que o cheque fora cancelado antes de compensar.

Três meses antes da abertura, alguém registrara Poppy Serviços de Transição Familiar Ltda. O endereço era uma sala vazia, o representante legal estava escondido atrás de um escritório e o contrato usava o nome completo de Lily.

Daniel comparou as assinaturas. A falsa copiava um documento de credenciamento publicado no portal da prefeitura, inclusive uma pequena falha no "R" de Romano.

– Não tiveram acesso interno – concluiu. – Usaram material público e alguém com conhecimento do sistema.

Lily abriu os dezessete prontuários numa parede digital. Havia padrões de transferência, médicos repetidos e avaliações produzidas sempre às sextas-feiras, quando os conselhos tinham menos equipe.

Quatro nomes terminavam na mesma data. Nenhuma nota de encerramento, apenas um campo vazio onde deveria existir destino.

Maya reconheceu duas fotografias.

– Dormiram no mesmo corredor que eu. Disseram que iam para família.

– Você viu alguém buscá-las? – Lily perguntou.

– Vi uma van. Sem símbolo.

Ela desenhou de memória uma faixa azul junto à porta. O detalhe coincidia com veículos terceirizados do Instituto Farol.

– Roubaram minha identidade para criar uma Casa Poppy fantasma – ela disse.

A polícia e o Ministério Público abriram investigação. No dia seguinte, documentos vazaram para a imprensa.

Maya recusou hospital até uma médica da Casa Poppy explicar cada procedimento e garantir que o tio não seria avisado. Guardou a sacola no colo durante o exame.

Dentro havia duas camisetas, uma fotografia da mãe, um carregador sem telefone e cadernos escolares. Nada que justificasse a palavra "tudo", exceto o fato de ser tudo que ela conseguira levar.

– Vão me mandar de volta? – perguntou a Clara.

– Hoje, não.

– E amanhã?

– Amanhã você participa da conversa.

Maya desconfiou da resposta porque adultos costumavam usar "conversa" para anunciar decisões prontas. Lily entregou a ela cópias dos pedidos ao Conselho Tutelar e apontou onde seu depoimento aparecia.

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– Pode corrigir qualquer coisa – disse.

Maya pegou a caneta. Pela primeira vez desde que chegara, soltou a sacola.

"FUNDAÇÃO ROMANO LIGADA A JOVENS DESAPARECIDOS." Câmeras ocuparam a calçada e repórteres repetiram minha história criminal como se fosse prova contra minha filha.

Uma repórter perguntou se eu financiara o desaparecimento. Dei um passo, e Lily entrou entre o microfone e meu corpo.

– Meu pai responderá formalmente à investigação – disse. – Hoje vamos falar das crianças, não da biografia que vocês já venderam ontem.

No elevador, reclamei que ela não precisava me proteger.

– Não protegi você. Protegi a investigação de uma manchete sobre sua reação.

– Isso foi frio.

– Aprendi com você. Selecionei apenas as partes úteis.

Clara, atrás de nós, sorriu para o reflexo da porta.

– Esperaram vinte anos para usar seu nome contra mim – Lily disse.

– Sinto muito.

– Pare de pedir desculpa por ter existido.

– Fiz bem mais que existir.

Quase sorriu. A recepcionista avisou que um homem recusava dar o nome no estacionamento.

Levantei. Lily apontou para a cadeira.

– Sente.

– Estou apenas de pé.

– Está de pé como quem pretende cometer crime.

Obedeci.

O homem era magro, usava boné e mantinha as mãos em movimento. Dois policiais ficaram próximos enquanto Lily se aproximava.

Eu assistia da porta de vidro. O jeito de Jonah medir os carros e evitar ficar de costas para a rua lembrava homens que deviam dinheiro, mas seus olhos procuravam proteção policial, não uma rota até mim.

Lily manteve dois metros de distância e deixou as mãos visíveis. Não tentou acalmá-lo com frases vazias.

– Se houver risco imediato para alguma criança, comece por isso.

– Há risco para todas as que continuam no sistema.

– Isso é amplo demais. Dê um nome.

Jonah falou "Maya Torres". Do outro lado do vidro, a adolescente enrijeceu.

– Seu pai vai achar que sou inimigo – ele disse.

– Você é?

– Não.

– Então diga seu nome.

– Jonah Vale.

Entregou uma chave numerada: 214, guarda-volumes do Terminal Rodoviário do Tietê.

– O que tem lá?

– Provas de que o Instituto Farol vende crianças.

Lily endureceu.

– Como assim?

– Não desse jeito. Contratos, deslocamentos, avaliações, guardas, reembolsos. Eles descobriram que um caso complicado rende mais se continuar complicado.

– Mantinham crianças mudando de lugar?

– Algumas.

– E as quatro que sumiram?

– Não sei.

– Quem é você?

Jonah olhou para os policiais.

– Eu construí o sistema.

Um SUV preto entrou devagar no estacionamento. Jonah reconheceu o veículo e correu.

Não foi para a rua. Correu em direção aos policiais, gritando para todos se abaixarem.

O SUV não disparou nem parou. Passou pela saída enquanto Jonah tremia no asfalto.

Maya assistia pela porta de vidro. Lily voltou e se agachou diante dela.

– Você acredita nele? – Maya perguntou.

– Ainda não.

– Acredita em mim?

Lily respondeu sem demora.

– Sim.

No terminal, a chave girou na fechadura do armário 214. Quando a porta abriu, pilhas de papel escorregaram até os pés de Lily.

Um funcionário pediu que retirássemos o material depressa. Lily fotografou a disposição antes de tocar em qualquer folha e entregou a chave a Ortiz.

– A partir daqui, tudo com protocolo – disse.

Jonah observou a cena escoltado por um policial. Quando viu uma pasta com o nome de Maya, fechou os olhos.

– Eu devia ter contado antes.

– Devia – Lily respondeu. – Agora ajude a preservar o que restou.

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