"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 6
Meu primeiro impulso foi localizar Victor antes da polícia. Clara viu minha mão direita se aproximar da arma e segurou meu pulso.
– Não.
– Ele está caçando sua filha.
– Nossa filha.
As palavras detiveram mais que a mão. Clara percebeu o que dissera e não voltou atrás.
– Proteja Lily sem voltar a ser ele.
Fomos para uma casa segura. Lily reclamou da ausência da cadeira amarela, do balanço e da opinião negativa que Poppy tinha sobre os quartos.
Eu não dormi. No segundo dia, Victor enviou o endereço de um teatro abandonado e a frase "venha se quiser terminar".
A Polícia Federal propôs uma escuta. Aceitei.
Antes do encontro, sentei diante de Lily na casa segura. Ela coloria Poppy com três tons de roxo e se recusava a olhar para as malas prontas.
– Você vai embora? – perguntou.
– Vou trabalhar e volto antes de você acordar.
– Adulto fala isso e demora.
Retirei o anel da família e coloquei sobre a mesa.
– Então isto fica com você até eu voltar.
Lily tentou pôr o anel no dedo; caiu sobre a folha.
– É grande.
– Eu também.
– Você cabe na porta.
Clara virou o rosto para esconder um sorriso. Lily empurrou o anel para dentro da pequena bolsa de Poppy.
– Agora tem que voltar para buscar.
– Eu voltaria sem ele.
– Mas agora tem duas razões.
Victor esperava sozinho no palco, diante de fileiras cobertas de poeira. Serviu uísque em dois copos; não toquei no meu.
– Esperava vinte homens – disse ele.
– Ficaram caros.
– Você mudou.
– Tenho ouvido isso.
Ele queria um acordo porque Marco, Cole e Pierce falariam. Quando recusei, colocou um livro-caixa sobre a mesa.
– Marco planejou o ataque que matou Luca.
Meu irmão sempre quis sair dos negócios. Falava em restaurante no litoral e numa cozinha onde ninguém carregasse arma.
Segundo Victor, meu pai cogitara romper a aliança criminosa anos antes. Marco precisava de um herdeiro endurecido pelo luto e organizou a emboscada no armazém.
– Luca era o alvo?
– Você era. Luca descobriu e apareceu.
No livro havia o pagamento ao atirador por uma empresa Bellini. Dezenove anos de culpa cabiam numa linha contábil.
– Agora você me mata – Victor disse.
– Não.
Agentes ocuparam as saídas. Victor viu o fio sob minha gola e cuspiu a palavra "patético" enquanto recebia as algemas.
Na casa segura, contei a Clara tudo sobre Luca: o riso alto, o ódio a charutos, os planos para o mar e o sangue quente escorrendo sobre minhas mãos. Ela ouviu sem transformar a dor em conselho.
Lily desceu arrastando Poppy.
– Você está triste?
– Estou.
– Por quê?
– Meu irmão morreu há muito tempo.
Ela colocou o coelho no meu peito.
– Poppy ajuda.
Adormeceu no meu colo, exatamente como na noite da bala. Clara sentou ao meu lado e entrelaçou os dedos nos meus.
Na manhã seguinte, pedi que criássemos uma guarda legal para Lily caso algo acontecesse a Clara.
– Você quer a custódia?
– Só se você escolher. Nunca tirarei Lily de você.
– Michael a escolheu.
– Eu também.
– Quando?
– Todos os dias.
Clara assinou semanas depois.
Visitei Marco na prisão. Ele parecia menor sem o terno de três peças e o corredor de homens que fingiam respeitá-lo.
– Victor contou sobre Luca – ele disse.
– Contou.
– Vai me matar quando eu sair?
– Não.
– Acha que isso faz de você um homem melhor?
– Não. Deixar para Lily um mundo onde medo não pareça liderança talvez faça.
Quando me levantei, Marco bateu no vidro.
– Luca sabia da emboscada. Foi ao armazém para tirar você de lá.
Saí sem responder. Chorei dentro do carro, onde apenas Clara podia ver.
Nos meses seguintes, vendi boates, depósitos e empresas de fachada. Romano Fretes virou Romano Logística, ganhou auditoria independente e perdeu todos os negócios que precisavam de silêncio para existir.
Nem todos aceitaram. Dois gerentes pediram demissão quando souberam que contratos seriam revisados; um antigo aliado mandou recado dizendo que eu envergonhava meu pai.
Respondi com uma lista de rescisões. A última empresa clandestina foi fechada numa sexta-feira, e vinte e três funcionários receberam opção em unidades legais.
Matteo assistiu à assinatura final.
– O que vão chamar o senhor agora?
– Alessandro.
– Parece pouco.
– Vai se acostumar.
Na segunda-feira, Lily entrou no escritório, viu que dois seguranças haviam desaparecido do corredor e colocou um desenho sobre minha mesa. Era uma casa com janelas abertas.
– Agora cabe mais vento – disse.
Marco confessou o assassinato de Michael e a conspiração contra Luca. Cole recebeu trinta e um anos; Pierce, vinte e oito; Victor, prisão perpétua.
Daniel depôs. Clara depôs. Eu depus e ouvi pessoas me chamarem de herói.
Estavam erradas. Parar de causar dano não apagava o lucro que obtive com ele.
A vida passou a medir poder de outro jeito. Levar Lily à escola foi mais difícil que enfrentar uma audiência; montar uma estante torta porque ela pediu exigiu mais paciência que fechar contrato.
Clara voltou a estudar administração. Quando ofereci ensiná-la, perguntou se eu tinha diploma e mandou que me sentasse.
Um dia, a escola ligou dizendo que Lily descera do ônibus, mas não chegara à sala. O casaco vermelho voltou inteiro à minha memória.
Em sete minutos encontramos as imagens. Ela seguira uma aluna chorando até o auditório.
– A Emma achou que a mãe foi embora para sempre – explicou.
– O que você disse?
– Às vezes adulto volta. Se não volta, a gente encontra adulto seguro.
Apontou para mim.
– Igual o senhor Alessandro.
Naquela noite, Clara disse que eu já era pai de Lily. Perguntou se isso me assustava.
– Pais falham.
– Mães também. Crianças sobrevivem a pais imperfeitos quando eles escutam.
Dois meses depois, na véspera de Natal, entreguei uma caixa a Clara junto à lareira. Lily dormia sob a árvore com Poppy.
Ajoelhei sem plateia e esqueci o discurso.
– Você me ensinou que proteção sem liberdade é prisão. Não quero você sob meu nome. Quero você ao lado dele.
Clara ergueu uma sobrancelha.
– A primeira frase foi perigosa.
– A segunda melhorou?
– Muito.
– Clara Bennett, case comigo.
– Sim.
Lily sentou com o cabelo em todas as direções.
– Mamãe disse sim?
– Você estava acordada? – Clara perguntou.
– Talvez.
Ela correu para nós.
– Agora somos família?
– Já éramos – Clara respondeu.
Lily franziu a testa.
– Então o que muda?
Olhei para Clara.
– Papelada.
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