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"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 4

正文开头

A igreja de São Gabriel servira aos funerais da família Romano por três gerações. Luca saíra dali num caixão, assim como meu pai e homens cuja lealdade só foi elogiada depois que já não podiam contradizer ninguém.

À meia-noite, a chuva cobria o som dos agentes nos prédios vizinhos. Clara permaneceu no veículo de comando por minha exigência e por uma concessão temporária dela.

Entrei sem arma. Poppy estava no altar, com o pelo sujo e o isqueiro ao lado.

O senador Adriano Cole esperava a dez passos. Anthony Ricci surgiu entre as colunas, vivo, segurando uma pistola.

– Matou alguém para deixar sangue no carro? – perguntei.

Ricci desviou os olhos. Cole respondeu que certos homens sabiam obedecer.

Sobre o primeiro banco havia uma confissão pronta. Eu assumiria a morte de Michael, as propinas e as ordens dadas a Marco; Cole sobreviveria como político enganado por criminosos.

– Por que eu assinaria?

Ele ergueu o isqueiro.

– Porque a filha da sua funcionária quer este brinquedo.

Ri. Cole perdeu parte do sorriso.

– Mobilizou uma cidade por ela e quer fingir que não se importa.

– É por isso que nunca entendeu nada.

As portas laterais se abriram.

– Polícia Federal! No chão!

Ricci atirou. Matteo me derrubou atrás de um banco enquanto a madeira se partia sobre nossas cabeças.

Cole agarrou Poppy e correu para a sacristia. Segui porque Lily me pedira que levasse o coelho para casa.

Na saída dos fundos, Clara bloqueava a passagem.

– O que está fazendo aqui? – perguntei.

Ela ignorou.

Cole aproximou o fogo da orelha de Poppy.

– Saia.

– Pode queimar – disse Clara.

Ele piscou.

– O coelho, o arquivo, tudo. Minha filha importa mais.

– É a única prova.

Clara ergueu o telefone.

– Michael fez cópias.

Era mentira. Cole acreditou por tempo suficiente para baixar o isqueiro e agarrá-la.

Quando a arma encostou na cintura de Clara, meus dedos buscaram uma pistola que eu não trazia. A confusão dele deu a ela espaço para girar; um agente disparou e atingiu Cole na perna.

Poppy caiu. Clara a segurou antes do piso.

Só começou a tremer quando as algemas fecharam nos pulsos do senador.

– Michael não fez cópias – eu disse.

– Eu estava improvisando.

– Nunca mais improvise diante de um homem armado.

Ela riu e chorou ao mesmo tempo.

O arquivo azul sobreviveu. Havia planilhas, fotografias, notas, gravações de Marco e uma conversa antiga com meu pai sobre operações que eu herdara sem conhecer por inteiro.

Antes de sair da igreja, Clara verificou a barriga de Poppy. A costura aberta deixava aparecer a espuma e uma linha azul onde Michael escondera o arquivo.

– Lily vai perceber – ela disse.

– Tereza sabe costurar.

– Lily percebe quando alguém muda um fio.

No veículo, Clara limpou fuligem do rosto do coelho com a manga. Um agente tentou recolhê-lo como evidência e recebeu um olhar que o fez buscar autorização superior.

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– Fotografem, lacrem o arquivo e devolvam o brinquedo – ordenei.

– A cadeia de custódia...

– Pode ser preservada sem prender o coelho de uma criança.

A procuradora concordou. Poppy voltou para casa naquela manhã com uma etiqueta numerada que Lily arrancou assim que acordou.

Na manhã seguinte, entreguei contas, nomes e rotas. O acordo com os procuradores separaria empresas legítimas das atividades criminosas e manteria os empregos de quem nada tinha a ver com aquilo.

Matteo fechou a porta da sala.

– Está destruindo o que seu pai construiu.

– Sim.

– Luca morreu por esta família.

– Luca morreu por causa dela.

Dizer aquilo abriu uma janela num quarto que eu mantinha fechado havia dezenove anos.

Prestei depoimento durante dois dias. Admiti crimes financeiros, entreguei negócios e aceitei três anos de restrições judiciais, multas pesadas e afastamento das áreas contaminadas.

Os procuradores não aceitaram minha cooperação como gesto nobre. Perguntaram por cargas, propinas, ameaças e nomes de mortos; voltaram às mesmas datas até minhas respostas deixarem de parecer ensaiadas.

Meu advogado pediu pausa quando mencionei a primeira empresa criada para esconder caixa. Recusei.

– O senhor entende que pode estar ampliando a própria responsabilidade penal? – perguntou a procuradora.

– Entendo.

– E continuará?

Olhei pelo vidro para Clara, que esperava no corredor com Poppy numa sacola de provas.

– Continue.

Ao final, assinei a entrega de participações e autorizei auditoria integral. O anel da família bateu contra a mesa; por um instante pensei em retirá-lo.

Não retirei. O nome continuaria comigo, mas não definiria o que eu devia proteger.

Quando voltei à propriedade, Lily dormia na cadeira amarela, enrolada num cobertor. Sentei no chão para não acordá-la e fiquei ali até Tereza aparecer com uma bandeja.

– Don Romano no tapete – ela comentou.

– Esse título acabou.

Tereza colocou café ao meu lado.

– Então aprenda a levantar sem ajuda, senhor Alessandro.

Marco fez acordo quando soube que Cole o culparia. Victor aguardaria julgamento. A morte de Michael foi reconhecida como homicídio, e Daniel teve o nome limpo.

Clara recebeu a notícia na cozinha da propriedade.

– Meu irmão pode voltar?

– Pode.

– E nós? Ainda vamos embora?

– Não.

– Porque Daniel é inocente?

Entendi a pergunta.

– Mesmo que ele não fosse, você e Lily ficariam.

– Por quê?

– Porque eu estava errado.

Ela me estudou como se eu tivesse falado numa língua nova.

Lily entrou correndo quando Tereza trouxe Poppy, limpa e recosturada. Abraçou o coelho e depois apontou para mim.

– Você encontrou.

– Encontrei.

– Eu sabia.

Subiu no meu colo e colocou Poppy sobre a cicatriz no ombro. Desta vez, passei os braços ao redor dela sem ficar rígido.

Naquela noite, Clara me encontrou no jardim.

– O que acontece agora?

Pela primeira vez em duas décadas, respondi com a verdade.

– Não sei.

– Pode começar de novo com as empresas legais.

– Ainda vão me chamar de criminoso.

– Talvez. Lily chama você de senhor Alessandro.

Sorri.

– Mais difícil de sobreviver.

Os faróis de um carro cruzaram o portão. Daniel desceu, magro, com curativos no rosto.

Lily correu gritando "tio Danny" e quase o derrubou. Depois dos abraços, ele se aproximou de Clara com um envelope.

– Michael deixou outro arquivo com um advogado.

– Sobre o quê?

Daniel olhou para Lily.

– Sobre o pai dela.

Clara franziu o rosto.

– Michael era o pai dela.

– Foi o pai que a criou – disse Daniel. – Mas talvez não seja o nome na certidão.

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