"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 3
Marco mantinha uma pistola atrás da cabeça de Daniel. Perto da parede, Victor Carbone sorriu como se tivesse chegado para um jantar.
– Alessandro.
Ignorei Victor.
– Por quê, Marco?
Ele inclinou a cabeça.
– Passei dezenove anos sustentando seu império enquanto você carregava Luca como um santo morto.
Clara viu o irmão e avançou meio passo.
– Danny.
– Não – avisou Victor. – Mais perto e ele morre.
Daniel ergueu o rosto inchado.
– Clara, desculpa.
Perguntei pelo dinheiro. Marco riu; um milhão e quatrocentos mil era troco, desviado apenas para produzir um culpado convincente.
– Eu precisava tirar os Bennett da propriedade.
– Por quê? – Clara perguntou.
– Michael descobriu pagamentos que não devia.
O falecido marido de Clara trabalhara na Romano Fretes antes de morrer num acidente de carro. Daniel fechou os olhos.
– Ele encontrou notas falsas. Tentou me mostrar.
Clara virou-se para o irmão.
– Você disse que a morte dele tinha sido acidente.
– Fiquei com medo.
O sorriso de Marco respondeu antes das palavras. Michael fora morto porque rastreara dinheiro de empresas Romano até contratos públicos controlados pelo senador Adriano Cole.
Victor lucrava com os contratos. Marco recebia uma parcela e impedia que eu visse quanto da organização ainda dependia do crime.
– Você sabia que eu estava fechando as operações ilegais – eu disse.
– Você estava ficando fraco. Primeiro aceitou auditoria, depois advogado, depois uma criança na sua mesa como se fosse princesa.
– Lily tem três anos – Clara falou.
– E viu meus sapatos.
O barro vermelho. Na mesma noite em que Lily comentou sobre ele, um depósito no pátio leste de Santos fora sabotado.
– Você tentou expulsar uma família porque uma criança reparou em sujeira?
Marco moveu a arma.
– Crianças lembram coisas inconvenientes.
A voz de Matteo chegou pelo ponto escondido em minha gola: posições prontas. Dei mais um passo para manter os olhos de Marco longe das janelas.
– Você achou que ela me enfraquecia.
– Ela provou.
– Ainda não entendeu Luca. Ele morreu porque homens como você ensinaram que violência era a única língua possível.
Victor ergueu a pistola.
– Chega de filosofia.
O vidro alto estourou. O tiro do atirador apagou a lâmpada e o armazém mergulhou no escuro.
Clara caiu atrás de uma pilastra. Corri para Daniel enquanto disparos riscavam o concreto e sirenes cercavam o cais.
Quando as luzes de emergência acenderam, Marco segurava Clara junto ao peito. A arma encostava no pescoço dela.
– Mande todos recuarem.
Parei com a mão direita perto da cintura.
– Você perdeu o controle, Alessandro. Trouxe a polícia para dentro dos nossos negócios.
– Trouxe.
– Acabou para você.
– Talvez.
Dei um passo.
– Para ela, não.
Clara olhou para mim e bateu o calcanhar no pé de Marco. O braço dele afrouxou; ela acertou o cotovelo nas costelas e inclinou a cabeça.
Atirei uma vez. A bala atravessou o ombro de Marco, e agentes o derrubaram antes que a pistola tocasse o chão.
Victor foi algemado. Daniel saiu em uma maca.
Perguntei se Clara estava ferida. Ela me deu um tapa que fez todos os policiais examinarem o teto.
– Isso foi por me arrastar para sua vida absurda.
– Você insistiu em vir.
– Eu sei.
Ela bateu no meu peito, com menos força.
– E isso foi por deixar Lily pensar que precisava ir embora.
Aceitei os dois. Clara tentou respirar, falhou e encostou a testa em mim.
Eu a abracei. Não havia estratégia ou sedução naquele gesto, apenas duas pessoas ainda de pé depois de quase perderem alguém.
No hospital, Daniel contou o restante. Michael fotografara notas, gravara conversas e guardara uma cópia do arquivo onde Marco jamais procuraria.
– Dentro de Poppy.
Clara empalideceu.
– O coelho da Lily?
– Michael abriu a costura da barriga. Eu vi o pen drive azul.
Liguei para Matteo. A polícia fotografara Poppy e o bilhete, mas o coelho passara algumas horas num armário de evidências da propriedade.
Houve silêncio do outro lado.
– Chefe, o armário está vazio.
Lily acordou na manhã seguinte perguntando pelo coelho. Clara e eu trocamos um olhar, e a menina cruzou os braços.
– Poppy foi presa?
– Não – respondi.
– Fez crime?
– Também não.
– Então onde ela está?
Agachei ao lado da cama.
– Ela se perdeu.
– Igual a mim?
A pergunta entrou sem aviso.
– Igual.
Lily estendeu a mão e tocou o anel da minha família.
– Você me encontrou.
– Encontrei.
– Então encontra Poppy.
Prometi. Outra promessa que um homem sensato jamais faria sem conhecer o preço.
As câmeras mostraram Anthony Ricci, um segurança de vinte e sete anos, retirando o coelho. Sua conta recebera trezentos e setenta mil reais dois dias antes por meio de uma empresa ligada a Marco.
O carro de Ricci apareceu no estacionamento do aeroporto com sangue no banco. Nenhum corpo, nenhum embarque e uma trilha construída para parecer fim.
Alguém ainda limpava os rastros. Marco não dirigia tudo sozinho.
Clara levou ao meu escritório caixas de papéis que Michael guardara em casa. A cadeira amarela estava vazia ao lado da mesa.
– Vim ajudar – disse ela.
Passamos a noite comparando notas, fornecedores e fretes. O nome Crown Harbor Participações aparecia atrás de empresas de manutenção, combustível e segurança.
A Crown Harbor pertencia a aliados do senador Cole. O dinheiro saía das empresas Romano, financiava contratos manipulados e voltava para Victor e Marco.
Daniel, ainda no hospital, conferiu os códigos por chamada de vídeo. A fala acelerava a cada nova coincidência, e Clara precisou mandar que respirasse.
– Michael marcou as notas com lápis verde – ele disse. – Se encontrarem triângulos no canto, são as que ele separou.
Havia triângulos em quarenta e sete páginas. A sequência mostrava que os desvios aumentaram sempre que eu anunciava a legalização de uma área, como se Marco cobrasse uma taxa por cada passo que eu dava para fora do mundo dele.
– Michael tentou avisar você três vezes – Clara falou.
Revisei a agenda. As reuniões tinham sido canceladas por Marco, sempre com justificativas plausíveis.
– Eu deixei um homem controlar quem chegava até mim.
– Você construiu uma porta e entregou a chave a ele.
Não havia acusação na voz dela. Isso tornou a frase pior.
Lily entrou com um urso novo que Tereza comprara. Olhou para uma fotografia de Michael e tocou a barriga do brinquedo.
– Papai fez dodói na Poppy.
Clara se ajoelhou.
– Que dodói?
– Abriu aqui. Mamãe costurou.
– Ele colocou alguma coisa dentro?
– Uma coisinha azul.
Perguntei se outra pessoa sabia. Lily assentiu.
– Tio Marco disse palavra feia. Disse que o senhor Alessandro nunca ia acreditar no papai.
Michael tentara chegar até mim. Minha reputação fizera a mentira de Marco parecer verdade.
Na televisão, o senador Cole convocou uma coletiva e me acusou de todos os crimes que praticara com Marco. Em poucas horas, contas foram bloqueadas e mandados chegaram às empresas.
Matteo perguntou qual alvo atacaríamos primeiro. Peguei o telefone.
– Nenhum. Ligue para o Ministério Público Federal.
Ele me encarou.
– Isso expõe nossa história inteira.
– Eu sei.
– O senhor pode ser preso.
Olhei para a cadeira amarela.
– Então serei preso dizendo a verdade.
Antes que a ligação completasse, uma fotografia de Poppy apareceu no meu celular. O coelho estava sobre um altar; ao lado, um isqueiro aceso.
"MEIA-NOITE. IGREJA DE SÃO GABRIEL. TRAGA CLARA OU O COELHO QUEIMA COM A PROVA."
Clara leu por cima do meu ombro.
– Nós vamos.
Neguei com a cabeça. Ela preparou a discussão.
– Vamos mandar algo melhor – eu disse. – A verdade, com testemunhas.
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