"A Fuga que Trouxe Meus Pais de Volta" Capítulo 2
Às oito, metade da cidade procurava uma criança sem saber por quê. As equipes receberam fotografia, descrição e uma ordem: não assustar, não tocar sem necessidade, ligar imediatamente.
Clara entrou no banco ao lado do meu carro blindado. As mãos tremiam sobre a saia preta.
– Ela odeia buzina.
– Eu sei.
– Não gosta que estranhos peguem nela.
– Eu sei.
– Tem medo de cachorro grande.
– Clara.
Ela me encarou com os olhos molhados.
– Você não sabe. Isso aconteceu por sua causa.
Meu motorista olhou pelo retrovisor e desviou depressa.
– Sim.
A resposta a surpreendeu.
– Você expulsou minha filha por algo que Daniel talvez tenha feito.
– Eu dei a ordem.
– Lily me viu arrumando malas. Viu gente cochichando, me viu chorar e decidiu que estava estragando minha vida.
Não procurei defesa. Clara virou-se para a janela e deixou que o silêncio ocupasse o carro.
Uma mulher vira uma menina no ponto da Avenida São Miguel pouco depois das seis. A câmera mostrava o casaco vermelho e os pés nus diante de um mapa que Lily não sabia ler.
O motorista de um ônibus abriu a porta. Nós o localizamos vinte minutos depois.
– Ela perguntou quanto precisava andar para ninguém encontrar mais.
Clara cobriu a boca.
– O que o senhor fez?
– Perguntei pelos pais. Ela correu.
A trilha seguiu para leste. Uma padeira deu meias a Lily; um vendedor de jornais dividiu um pão de queijo com ela.
Ao perguntarem seu nome, respondeu "Poppy". Clara explicou que usava o nome do coelho quando o medo apertava.
Às dez, uma chuva gelada começou. O casaco não era impermeável, e cada ligação sem notícia deixava o ar mais pesado.
O investigador Samuel Ortiz telefonou. Um morador de rua chamado Jorge, veterano do Exército, reconhecera a foto perto de uma igreja desativada junto ao Tamanduateí.
– Ela perguntou se Deus deixa criança dormir na igreja – contou ele.
O portão estava acorrentado. Uma janela lateral tinha o vidro quebrado.
Entrei primeiro, ignorando o protesto de Clara. O interior cheirava a madeira molhada e gesso; bancos cobertos por lonas formavam corredores estreitos.
– Lily!
Nada.
Clara chamou de novo. Um ruído veio sob a escada do coro.
Lily estava encolhida dentro de um vão, com os lábios azulados e os pés escondidos sob a camisola. Clara caiu de joelhos e puxou a filha para o peito.
– Você nunca me deixa. Nunca. Entendeu?
Lily abriu os olhos com esforço.
– Mas o senhor Alessandro disse...
– Nada que um adulto diga faz você precisar desaparecer.
O olhar de Lily encontrou o meu. Havia medo onde antes existia curiosidade.
Agachei a alguns passos.
– Está bravo?
– Não.
– Com a mamãe?
– Não.
– Com o tio Danny?
Demorei uma fração de segundo. Ela percebeu.
– Eu posso continuar longe.
– Não.
Minha voz falhou. Policiais, socorristas e Clara ouviram.
– Você nunca mais vai embora por minha causa.
– Promete?
Eu fizera promessas sobre dinheiro, território e sangue. Nenhuma pesou como aquela.
– Prometo.
Ela estendeu a mão. Dei um passo e senti os dedos frios fecharem nos meus antes que seu corpo amolecesse.
A ambulância levou onze minutos ao hospital. Hipotermia, desidratação e cortes nos pés, mas nenhum dano permanente.
No caminho, Clara manteve Lily contra o corpo enquanto o paramédico aquecia seus braços. Eu me sentei do outro lado, grande demais para o espaço, com a mão aberta sobre o banco até Lily procurá-la.
– Poppy ficou sozinha – sussurrou.
– Tereza está cuidando dela.
– Ela não gosta de ficar sozinha.
– Nem você ficará.
Clara me olhou. A promessa não a tranquilizou; promessas minhas tinham acabado de mandar sua filha para a rua.
No hospital, os médicos fotografaram os cortes e retiraram pequenos fragmentos de pedra. Cada marca nos pés de Lily parecia uma linha de um documento que eu fora incapaz de ler.
Ortiz trouxe as meias dadas pela padeira dentro de um saco transparente. Clara pediu o nome da mulher para agradecer depois.
– Ela insistiu para a menina entrar – contou o investigador. – Lily disse que precisava continuar para a mãe não fazer mala.
Saí até a escada de emergência e fechei a porta. Matteo me seguiu, mas permaneceu dois degraus abaixo.
– Cancele a expulsão – falei.
– Já cancelei quando o senhor bloqueou as estradas.
Olhei para ele.
– Foi a decisão correta.
Matteo conhecia meu vocabulário o suficiente para entender o pedido de desculpas embutido.
Clara ficou junto ao leito. Eu permaneci no corredor porque Lily não precisava acordar cercada pelo homem que a fizera fugir.
No fim da tarde, Matteo, meu chefe de segurança, aproximou-se com um tablet.
– Encontramos algo nos registros de Daniel.
– Fale.
– O acesso não partiu da estação dele. Alguém alterou o log a partir do terminal administrativo.
– Quem entra nesse terminal?
– O senhor, eu e Marco.
O corredor pareceu perder temperatura.
– Onde ele está?
– Saiu da propriedade há duas horas.
Meu telefone vibrou. A fotografia mostrava Daniel amarrado a uma cadeira, sangue no rosto e os olhos abertos.
Abaixo, duas mensagens: "VOCÊ ESCOLHEU O TRAIDOR ERRADO." "LEVE A MÃE DA MENINA AO ARMAZÉM 17. VENHA SOZINHO."
Clara surgira atrás de mim. Leu tudo antes que eu bloqueasse a tela.
– Meu irmão está vivo.
– E você fica aqui.
– Não.
– Eles querem usar você.
– Minha filha atravessou a cidade porque homens poderosos decidiram tudo por nós. Você não vai repetir isso.
– Clara, não é uma reunião administrativa.
– Eu sei. É meu irmão.
Ela sustentou meu olhar até que eu entendesse: excluí-la não era proteção, era apenas outra forma de domínio.
Matteo organizou equipes fora do alcance visual. Ortiz avisou a Polícia Federal, e Clara aceitou vestir um colete sob o casaco.
Antes de sairmos, voltei ao quarto. Lily dormia com Poppy sobre o travesseiro; Tereza a recuperara da polícia e limpava o barro do pelo roxo.
Toquei a orelha torta.
– Traga a mamãe – murmurou Lily sem abrir os olhos.
– Vou trazer.
No elevador, Clara ficou ao meu lado, não atrás. Quando a porta se abriu para a garagem, ela segurou meu braço por um segundo.
– Se tiver de escolher entre Daniel e mim...
– Não termine essa frase.
– Alessandro.
– Ninguém da sua família vai ser moeda de troca outra vez.
Partimos para Santos sob chuva. À distância, os guindastes do porto pareciam cruzes negras contra o céu.
O Armazém 17 estava apagado. Uma lâmpada solitária balançava lá dentro, iluminando Daniel e o homem que eu chamara de irmão por dezenove anos.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 1
Paixão proibida: Um romance da máfia
Lucien, o Rei da Máfia, conhecido como o Diabo. Heloísa, conhecida como anjo. Os dois são arranjados para se casar, forçados pelos pais, juntando-se às duas máfias. Mas Heloísa acaba descobrindo que até o diabo já foi um anjo.Romance1.3 mil palavras8 2 -
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4