"A Empregada Que Destruiu O Brinde" Parte 10
A voz de Paulo Oliveira encheu o apartamento.
Isabela ficou imóvel, com o celular entre as mãos.
Vitória não disse nada.
Na gravação, Paulo parecia nervoso.
"Marcelo, eu não vou assinar isso."
A resposta veio logo depois.
A voz de Marcelo Ferraz era mais jovem, mas inconfundível.
"Você já está envolvido."
Paulo respondeu:
"Eu descobri o esquema. Isso não significa que participei."
Houve um barulho seco.
Talvez uma pasta sendo jogada sobre uma mesa.
Marcelo voltou a falar.
"Então olha bem esses documentos."
Isabela sentiu o coração acelerar.
A gravação continuou.
Paulo respirava com dificuldade.
"Essas autorizações não são minhas."
"Agora são."
Isabela levou a mão à boca.
Vitória fechou os olhos.
Marcelo falava com calma.
"Se você levar isso para a polícia, vai ser sua palavra contra a do grupo."
"Você acha que alguém vai acreditar em um analista financeiro?"
Paulo respondeu:
"Augusto vai saber."
Marcelo riu.
"Augusto já assinou metade do que eu precisava."
A sala pareceu ficar menor.
Isabela parou de respirar.
Na gravação, Paulo ficou alguns segundos em silêncio.
"Ele não sabe o que você fez."
"Não precisa saber."
"Você está usando a assinatura dele."
"Estou usando a confiança dele."
Isabela sentiu lágrimas descendo pelo rosto.
Vitória observava em silêncio.
Paulo falou novamente.
"Eu tenho cópias."
Marcelo respondeu:
"Então eu sugiro que pense na sua mulher."
O corpo de Isabela congelou.
"E na sua filha."
O áudio ficou quase inaudível por alguns segundos.
Depois Paulo perguntou:
"Você está me ameaçando?"
Marcelo respondeu:
"Estou lembrando que homens como nós nunca caem sozinhos."
A gravação terminou.
Isabela permaneceu sentada.
Não sabia se chorava.
Se gritava.
Se destruía o aparelho.
Durante anos, ela imaginara o pai tentando provar a própria inocência.
Agora tinha ouvido a voz dele enfrentando o homem que o destruiu.
"Ele sabia de mim."
Vitória assentiu.
"Meu pai sabia de vocês."
Isabela ergueu os olhos.
"Por que ele guardou isso?"
"Porque servia como seguro."
"Seguro?"
"Contra os Montenegro."
Isabela franziu a testa.
Vitória continuou.
"Meu pai usou a assinatura do Augusto por vinte anos."
"Como?"
"Ele dizia que, se Augusto tentasse romper certas alianças, entregaria documentos mostrando que o Grupo Montenegro autorizou operações ilegais."
Isabela ficou em silêncio.
"Mesmo sabendo que tinha manipulado parte delas?"
"Sim."
"Então ele chantageava Augusto."
"Há anos."
Isabela sentiu raiva.
"Augusto sabia?"
"Sabia que existia material comprometedor."
"E foi por isso que aceitou continuar perto do seu pai?"
Vitória respondeu:
"Parte disso."
"Então o casamento..."
Vitória soltou uma risada amarga.
"Você ainda acha que aquele casamento foi só meu?"
Isabela não respondeu.
Vitória olhou pela janela.
"Meu pai queria garantir que as duas famílias ficassem ligadas."
"Se Henrique e eu nos casássemos, qualquer escândalo destruiria os dois lados."
Isabela começou a entender.
"Um segurava o outro."
"Exatamente."
Vitória abaixou a cabeça.
"Era uma aliança baseada em medo."
Isabela apertou o celular.
"Henrique sabia?"
"Não."
"E você?"
Vitória demorou para responder.
"Eu descobri depois."
"Depois de aceitar casar?"
"Sim."
"Depois de começar a dar aquilo para ele?"
Vitória fechou os olhos.
"Sim."
Isabela se levantou.
"Então não tenta transformar você em vítima."
Vitória levantou o rosto.
"Eu não estou tentando."
"Você sabia que estava fazendo mal para ele."
"Eu sei."
"Você podia ter parado."
"Eu tentei."
"Mas não parou."
Vitória recebeu a acusação sem reagir.
"Não."
Isabela respirou fundo.
"Essa gravação vai para a polícia."
"É por isso que eu trouxe."
"Você vai junto."
Vitória ficou tensa.
"Isabela..."
"Se quer contar a verdade, conta inteira."
"Meu pai vai me destruir."
Isabela sustentou o olhar dela.
"Seu pai destruiu o meu."
Vitória ficou em silêncio.
"Agora você escolhe de que lado quer ficar."
Poucas horas depois, Rafael recebeu o áudio.
Peritos confirmaram que o arquivo era antigo e que não havia sinais imediatos de edição.
Combinado aos registros bancários, contratos e documentos recuperados por Helena, o material foi suficiente para acelerar as medidas contra Marcelo.
Na manhã seguinte, ele tentou sair de São Paulo.
Não conseguiu.
A Polícia Civil o interceptou quando seguia para um hangar particular.
Marcelo desceu do carro cercado por agentes.
Mesmo assim, ainda mantinha a postura arrogante.
"Vocês não fazem ideia do erro que estão cometendo."
Rafael mostrou a ordem judicial.
"Pode explicar na delegacia."
Marcelo olhou ao redor.
"Meu advogado vem comigo."
"Seu advogado já foi avisado."
Antes de entrar na viatura, Marcelo parou.
Viu Henrique do outro lado do estacionamento.
"Você acha que ganhou?"
Henrique não respondeu.
Marcelo sorriu.
"Pergunta ao seu pai quantas vezes ele assinou sem ler."
Henrique apertou a mandíbula.
Marcelo continuou.
"Depois pergunta quantas vezes ele preferiu o silêncio."
Rafael empurrou-o para dentro da viatura.
Henrique ficou parado.
A prisão de Marcelo não apagava o passado.
Mas, pela primeira vez, o homem que havia comandado tudo estava sem controle.
Vitória também se apresentou.
Ela entregou documentos.
Prestou novo depoimento.
Confirmou o que havia feito com Henrique.
Não tentou negar.
Sua colaboração seria considerada pela Justiça.
Mas não apagaria sua responsabilidade.
Dias depois, ela saiu do Fórum João Mendes acompanhada por advogados.
As câmeras esperavam do lado de fora.
Vitória usava óculos escuros.
Nenhuma joia.
Nenhum vestido de alta-costura.
Nenhuma comitiva de convidados.
Isabela estava perto da escadaria.
Vitória parou ao vê-la.
Por alguns segundos, as duas ficaram em silêncio.
Era difícil acreditar que pouco tempo antes estavam num salão cheio de flores brancas.
Vitória tinha uma aliança.
Isabela, uma bandeja.
Agora não restava nada daquela cena.
"Posso perguntar uma coisa?"
Isabela assentiu.
Vitória tirou os óculos.
"Por que você me salvou também?"
Isabela franziu a testa.
"Eu podia ter desaparecido."
"Podia."
"Você podia ter deixado a polícia me tratar apenas como cúmplice do meu pai."
"Podia."
Vitória respirou fundo.
"Mas entregou o vídeo inteiro."
"Contou que eu procurei você."
"Disse que eu entreguei a gravação."
Isabela respondeu:
"Porque aconteceu."
Vitória olhou para ela.
"Depois de tudo que eu fiz com você?"
Isabela lembrou do tapa.
Do salão.
Da humilhação.
De Henrique quase bebendo aquela taça.
"Eu não salvei você."
Vitória esperou.
Isabela continuou:
"Eu salvei a verdade."
Vitória baixou os olhos.
Depois foi embora.
Naquela noite, Henrique voltou à sede do Grupo Montenegro.
O prédio estava quase vazio.
Augusto havia se afastado temporariamente da presidência.
Auditorias externas vasculhavam décadas de contratos.
Henrique entrou no antigo escritório do pai.
Precisava encontrar documentos para os investigadores.
Abriu gavetas.
Armários.
Pastas esquecidas.
Atrás de uma fileira de livros, encontrou uma caixa menor.
Dentro havia correspondências antigas.
Henrique começou a separar tudo por data.
Então viu um envelope amarelado.
Parou.
A caligrafia era de Augusto.
No canto, havia uma data de mais de vinte anos atrás.
Henrique virou o envelope.
Na frente estava escrito:
"Para Lúcia Oliveira — sobre o futuro de Isabela."
Henrique sentiu um arrepio.
Abriu a boca, mas não conseguiu falar.
Isabela era apenas uma criança naquela época.
Mesmo assim, seu pai já escrevia para Lúcia sobre ela.
Henrique ficou olhando para o envelope.
E percebeu que ainda havia uma parte daquela história que ninguém tinha contado.
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