"A Empregada Que Destruiu O Brinde" Parte 9
Augusto Montenegro continuou olhando para a própria assinatura na tela.
Durante mais de vinte anos, aquele documento permanecera enterrado entre milhares de contratos do Grupo Montenegro.
Agora estava diante de Henrique.
E diante da filha do homem que perdera tudo por tentar denunciá-lo.
"Fala."
A voz de Isabela rompeu o silêncio.
Augusto ergueu os olhos.
"Eu assinei."
Henrique fechou as mãos.
"Você sabia o que estava autorizando?"
"Não."
Isabela soltou uma risada amarga.
"Claro que não."
Augusto olhou para ela.
"Eu estou dizendo a verdade."
"Você também disse que sempre soube que meu pai era inocente."
"Eu soube depois."
"Depois de destruir a vida dele."
Augusto abaixou os olhos.
Henrique puxou o documento impresso.
"Quero entender exatamente como isso aconteceu."
Augusto respirou fundo.
"Naquela época, o grupo estava crescendo rápido demais."
"Havia dezenas de empresas, incorporações, fundos e sociedades."
"Eu assinava centenas de documentos por mês."
Henrique não demonstrou qualquer compaixão.
"E Marcelo?"
"Era um dos homens em quem eu mais confiava."
Isabela sentiu a raiva aumentar.
"Mais do que no meu pai."
Augusto ficou em silêncio.
Ela se aproximou.
"Responde."
"Sim."
A palavra doeu mais do que Isabela esperava.
Augusto continuou.
"Marcelo cuidava de operações estratégicas."
"Ele trazia investidores."
"Intermediava negócios."
"E conhecia pessoas que abriam portas que o Grupo Montenegro ainda não conseguia abrir."
Henrique apontou para a tela.
"Então ele colocou operações ilegais no meio de contratos legítimos."
"Foi o que descobri depois."
"Depois de quanto tempo?"
"Anos."
Henrique passou a mão pelo rosto.
Augusto prosseguiu.
"Os documentos chegavam em lotes."
"Alguns eram reais."
"Outros escondiam empresas de fachada, valores inflados e transferências que eu não percebi."
Isabela não conseguiu se conter.
"Você quer que eu acredite que um homem que comandava um império de bilhões não sabia onde estava colocando a própria assinatura?"
Augusto encarou-a.
"Não estou pedindo que você acredite."
"Estou dizendo o que aconteceu."
"Isso tem um nome."
"Qual?"
"Conveniência."
Augusto não respondeu.
Isabela apontou para o documento.
"Você não queria saber."
A frase o atingiu.
"Enquanto o dinheiro entrava, enquanto os negócios cresciam, enquanto seu sobrenome aparecia nos jornais, você não queria fazer perguntas."
"Isabela..."
"Meu pai fez."
Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas.
"Foi esse o crime dele."
Henrique permaneceu imóvel.
Augusto fechou os olhos por um instante.
"Paulo veio até mim numa sexta-feira."
Isabela parou.
"Eu lembro até hoje."
Augusto caminhou até uma poltrona e se sentou.
"Ele entrou na minha sala com uma pasta cheia de documentos."
"Estava nervoso."
"Disse que precisava falar comigo sem ninguém presente."
Isabela quase conseguia imaginar o pai naquela sala.
Mais jovem.
Assustado.
Mas ainda acreditando que seria ouvido.
"O que ele disse?"
Augusto respondeu:
"Que alguém estava roubando o grupo por dentro."
"E você?"
"Eu perguntei se ele tinha certeza."
"Ele disse que sim."
Augusto respirou fundo.
"Então vi o nome de Marcelo entre os documentos."
Henrique franziu a testa.
"E você não acreditou."
"Não."
"Por quê?"
Augusto demorou.
"Porque Marcelo era meu sócio."
Isabela sentiu o peito apertar.
"E Paulo era só um funcionário."
Augusto olhou para ela.
Não negou.
"Meu pai estava dizendo a verdade na sua frente."
"Sim."
"E você preferiu acreditar num homem rico."
Augusto baixou a cabeça.
"Sim."
Isabela virou o rosto para esconder as lágrimas.
Agora entendia Lúcia.
Entendia o medo.
Entendia o ódio que surgira no rosto da mãe quando viu Augusto na televisão.
Não era apenas ressentimento.
Era memória.
Augusto continuou.
"Eu cometi algo ainda pior."
Henrique ficou tenso.
"O quê?"
"Chamei Marcelo."
Isabela se virou rapidamente.
"Você contou para ele?"
Augusto assentiu.
"Eu perguntei se conhecia aquelas operações."
"Marcelo disse que Paulo estava tentando esconder um desvio próprio."
Isabela levou a mão à boca.
"Você entregou meu pai para ele."
"Eu não sabia..."
"Para de dizer que não sabia!"
O grito ecoou pela biblioteca.
Isabela chorava abertamente agora.
"Meu pai descobriu um esquema."
"Foi até você."
"E você contou tudo justamente para o homem que ele estava investigando."
Augusto não encontrou defesa.
Henrique olhou para o pai com repulsa.
"Foi assim que Marcelo soube quais provas precisava trocar."
Augusto respondeu baixo:
"Provavelmente."
"E foi assim que Paulo virou culpado."
"Sim."
Isabela sentiu algo dentro dela quebrar.
Não precisava mais procurar o momento exato em que a vida de seu pai havia sido destruída.
Estava ali.
Numa conversa entre dois homens poderosos.
Um mentiu.
O outro preferiu acreditar na mentira.
"Minha mãe estava certa."
Augusto ergueu os olhos.
"Sobre o quê?"
"Eu deveria ter ficado longe de vocês."
Ela pegou a bolsa.
Henrique chamou:
"Isabela."
"Não."
Ela olhou para ele.
Henrique percebeu que a dor dela não fazia distinção entre pai e filho naquele momento.
Todos carregavam o mesmo sobrenome.
"Eu preciso ir."
Isabela saiu.
Horas depois, Rafael chegou com novas informações.
Encontrou Henrique sozinho.
"Localizamos movimentações recentes do Marcelo."
Henrique levantou os olhos.
"Onde ele está?"
"Ainda em São Paulo."
"Ainda?"
Rafael colocou alguns papéis sobre a mesa.
"Ele reservou um voo particular."
Henrique ficou sério.
"Para onde?"
"Paraguai, inicialmente."
"E depois?"
"Não sabemos."
"Quando?"
"Amanhã cedo."
Henrique levantou-se.
"Então prendam ele."
"Precisamos fechar alguns pontos antes."
"Ele vai fugir do Brasil."
"Estamos pedindo medidas judiciais."
Henrique soltou o ar com raiva.
O celular tocou.
Número desconhecido.
Ele quase não atendeu.
"Alô?"
Silêncio.
Depois uma voz.
"Henrique."
Ele congelou.
"Vitória."
Rafael imediatamente se aproximou.
Henrique colocou no viva-voz.
"Você está onde?"
"Isso não importa."
"Você fugiu."
"Eu tive que sair."
"Seu pai está tentando deixar o país."
Vitória ficou em silêncio.
"Eu sei."
Henrique apertou o telefone.
"Então ajuda a polícia."
"É por isso que estou ligando."
Rafael fez sinal para Henrique continuar.
Vitória respirou fundo.
"Eu tenho a prova que pode destruir meu pai."
Henrique olhou para Rafael.
"Que prova?"
"Uma gravação."
"De quem?"
"Não vou falar por telefone."
Henrique fechou os olhos.
"Vitória, acabou."
"Não."
A voz dela ficou firme.
"Você ainda não entendeu."
"Entender o quê?"
"Meu pai guardou coisas durante vinte anos."
Henrique sentiu um arrepio.
"Documentos?"
"Também."
"Então entrega."
"Eu vou entregar."
Henrique esperou.
"Mas tenho uma condição."
"Você não está em posição de exigir nada."
"Mesmo assim, essa é a condição."
Henrique perdeu a paciência.
"Qual?"
Vitória respondeu:
"Eu só entrego para Isabela."
Henrique ficou imóvel.
"Por quê?"
"Porque a prova pertence a ela."
A ligação terminou.
Na manhã seguinte, Isabela recebeu o endereço.
Um apartamento vazio em Higienópolis.
Rafael queria acompanhá-la.
Vitória recusou.
Isabela entrou sozinha, enquanto policiais permaneciam nas proximidades.
Vitória estava esperando.
Parecia ainda mais abatida.
Nenhuma das duas falou sobre o casamento.
Nem sobre o tapa.
Vitória apenas colocou um celular antigo sobre a mesa.
Isabela olhou para o aparelho.
"O que é isso?"
Vitória empurrou o telefone na direção dela.
"Meu pai guardava esse aparelho num cofre."
"Eu peguei antes de fugir."
Isabela não tocou.
"Por que está me entregando?"
Vitória sustentou seu olhar.
"Porque meu pai não destruiu só a sua família."
Isabela sentiu um arrepio.
Vitória apontou para o celular.
"Tem um arquivo de áudio."
"Quem gravou?"
Vitória demorou alguns segundos.
Então respondeu:
"Seu pai gravou isso antes de morrer."
Isabela perdeu a cor.
"Paulo?"
"Escuta."
Com as mãos tremendo, Isabela pegou o aparelho.
Abriu o único arquivo.
A gravação tinha mais de vinte anos.
Ela apertou o play.
Houve alguns segundos de ruído.
Depois uma respiração.
E uma voz masculina começou a falar.
Isabela deixou o celular quase escapar das mãos.
Ela conhecia aquela voz.
Não porque se lembrasse perfeitamente dela.
Mas porque Lúcia guardara uma antiga fita de aniversário que Isabela ouvira centenas de vezes quando criança.
Era a voz de Paulo Oliveira.
A voz de seu pai.
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