"A Empregada Que Destruiu O Brinde" Parte 6
Isabela ficou olhando para Augusto sem conseguir se mover.
Henrique também não disse nada.
A frase ainda parecia pairar no escritório.
"Porque eu sempre soube disso."
Isabela sentiu a garganta fechar.
"Você sabia que meu pai era inocente?"
Augusto baixou os olhos.
"Sabia que havia algo errado na acusação."
"Não foi isso que eu perguntei."
A voz dela saiu mais alta.
Henrique deu um passo para perto, mas Isabela levantou a mão.
"Não."
Ela continuou olhando para Augusto.
"Quero ouvir dele."
Augusto respirou fundo.
"Paulo descobriu transferências que não faziam sentido."
Isabela ficou imóvel.
"Que transferências?"
"Dinheiro saindo de empresas do grupo e passando por fornecedores que existiam apenas no papel."
Henrique franziu a testa.
"Empresas de fachada?"
Augusto assentiu.
"Na época, ninguém usava esse termo com tanta facilidade. Mas, na prática, era isso."
Isabela sentiu a raiva crescer.
"E meu pai descobriu."
"Sim."
"Então o que ele fez?"
"Veio falar comigo."
Augusto caminhou até a janela.
"Paulo trouxe cópias de notas fiscais, contratos e comprovantes bancários."
"Ele disse que alguém dentro do grupo estava desviando dinheiro havia meses."
Henrique perguntou:
"E você investigou?"
Augusto demorou demais para responder.
Isabela percebeu antes mesmo de ouvir.
"Não."
Augusto fechou os olhos.
"Eu mandei uma equipe interna verificar."
"E?"
"Dois dias depois, os documentos originais desapareceram."
Isabela sentiu um frio atravessar o corpo.
"Desapareceram?"
"Sim."
"E apareceu outro conjunto de documentos."
Henrique entendeu.
"Com o nome do Paulo."
Augusto assentiu.
"As transferências passaram a parecer autorizadas por ele."
Isabela ficou pálida.
"Fizeram meu pai parecer o ladrão."
"Sim."
"Quem?"
"Eu não consegui provar."
Isabela soltou uma risada amarga.
"Não conseguiu ou não quis?"
Augusto virou-se.
"Isabela..."
"Meu pai perdeu tudo."
A voz dela tremeu.
"Perdeu o trabalho."
"Perdeu o nome."
"Perdeu a saúde."
Ela deu um passo à frente.
"E você ficou sentado numa sala dessas dizendo que não conseguiu provar."
Augusto recebeu cada palavra em silêncio.
Henrique observava o pai como se estivesse vendo outro homem.
"Por que você não chamou a polícia?"
Augusto respondeu:
"Porque o grupo estava no meio de uma negociação enorme."
Henrique endureceu.
"Claro."
Augusto continuou.
"Se aquilo viesse a público naquele momento, bancos poderiam suspender linhas de crédito."
"Investidores poderiam sair."
"Projetos inteiros podiam desmoronar."
Isabela encarou-o.
"Então você escolheu a empresa."
Augusto não negou.
"Eu achei que conseguiria resolver internamente."
"Você escolheu a empresa", ela repetiu.
"Sim."
A palavra caiu como uma sentença.
Isabela sentiu lágrimas nos olhos.
"Meu pai implorou para alguém acreditar nele."
Augusto apertou os lábios.
"Eu sei."
"Não, você não sabe."
Ela apontou para ele.
"Você voltou para sua mansão."
"Meu pai voltou para casa carregando uma acusação que não era dele."
Henrique baixou os olhos.
Augusto parecia ter envelhecido dez anos em poucos minutos.
"Esse foi o maior erro da minha vida."
Isabela respondeu sem hesitar:
"Erro?"
"Não chama isso de erro."
"Você tomou uma decisão."
Augusto ficou em silêncio.
"Você decidiu que a reputação dos Montenegro valia mais do que o nome do meu pai."
Ele não conseguiu responder.
Henrique caminhou até a mesa.
"Existe alguma coisa daquele caso?"
Augusto ergueu os olhos.
"O quê?"
"Documento."
"Arquivo."
"Qualquer prova."
Augusto hesitou.
Isabela percebeu.
"Existe."
Augusto não respondeu.
"Você guardou alguma coisa."
Ele caminhou até um armário antigo no fundo do escritório.
Abriu uma das portas.
Retirou uma caixa de madeira.
Henrique franziu a testa.
"Eu nunca vi isso."
"Porque nunca deveria ter visto."
Augusto colocou a caixa sobre a mesa.
Dentro havia envelopes amarelados, cópias de documentos e um caderno pequeno.
Isabela se aproximou devagar.
"Isso era do meu pai?"
"Parte."
Ela abriu o primeiro envelope.
Havia anotações feitas à mão.
Números.
Datas.
Nomes de empresas.
Contas bancárias.
"Paulo me entregou isso antes de ser afastado."
Augusto apontou para o caderno.
"Ele dizia que ali estava o começo de tudo."
Isabela folheou.
Henrique se aproximou.
"Por que você guardou?"
Augusto olhou para ele.
"Porque depois que Paulo morreu, eu comecei a entender que ele podia ter razão."
Isabela levantou a cabeça.
"Depois que ele morreu."
A culpa voltou ao rosto de Augusto.
"Sim."
Ela continuou folheando.
Algumas páginas estavam marcadas.
Uma delas tinha várias empresas ligadas por setas.
Henrique puxou uma cadeira.
"Essa daqui ainda existe."
Augusto olhou.
"Não com esse nome."
Isabela passou o dedo por uma sequência de transferências.
"Para onde o dinheiro ia?"
Augusto respondeu:
"Na época, parecia terminar em holdings pequenas."
Henrique pegou outra folha.
"Mas alguém devia estar por trás."
"Estava."
Isabela parou.
Uma anotação escrita por Paulo aparecia no canto inferior.
Um sobrenome.
Ela leu em silêncio.
Depois de novo.
Henrique percebeu.
"O que foi?"
Isabela virou o papel.
"Ferraz."
Augusto fechou os olhos.
Henrique ficou imóvel.
"Marcelo Ferraz?"
"Na época ele ainda não tinha o tamanho que tem hoje", disse Augusto.
"Mas já fazia negócios com o grupo."
Henrique puxou outros documentos.
Em duas folhas diferentes, o nome de Marcelo aparecia ligado a empresas intermediárias.
Isabela sentiu o coração acelerar.
"Então meu pai investigava o pai da Vitória."
Augusto respondeu:
"É possível."
"Não é possível."
Ela ergueu o documento.
"Está escrito aqui."
Henrique começou a andar pela sala.
Tudo parecia se encaixar de uma forma terrível.
Vitória.
A substância.
O casamento.
Os interesses do Grupo Montenegro.
Marcelo Ferraz.
E agora um escândalo de vinte anos atrás.
Henrique parou diante do pai.
"Você fez negócios com Marcelo depois disso?"
Augusto não respondeu imediatamente.
Henrique perdeu a paciência.
"Fez?"
"Sim."
Isabela soltou uma risada de incredulidade.
"Você suspeitava dele e continuou fazendo negócios com ele?"
"Eu não tinha prova."
"Meu pai também não tinha, porque roubaram as provas dele."
Augusto ficou calado.
Henrique perguntou:
"Por que Marcelo continuou perto da nossa família?"
"Porque era útil."
A resposta deixou Henrique enojado.
"Útil."
Augusto sustentou o olhar do filho.
"Negócios não são feitos entre santos."
Henrique respondeu:
"E casamento também não, pelo jeito."
Augusto não rebateu.
Isabela fechou o caderno.
"Eu quero levar isso."
Augusto hesitou.
"Isabela..."
"Era do meu pai."
"Parte pertence aos arquivos do grupo."
"Meu pai perdeu o nome por causa desse grupo."
Ela apertou o caderno contra o peito.
"Agora eu quero descobrir quem roubou ele."
Augusto assentiu lentamente.
"Leve."
Henrique olhou para o pai.
"E eu quero tudo digitalizado."
"Henrique..."
"Tudo."
Augusto percebeu que não conseguiria impedir.
Horas depois, Rafael recebeu cópias dos documentos.
A investigação mudou de direção imediatamente.
Marcelo Ferraz passou a ser formalmente citado.
Empresas antigas foram rastreadas.
Contas encerradas foram reabertas nos registros.
Rafael ligou para Henrique.
"Isso pode ser muito maior do que o caso da Vitória."
Henrique respondeu:
"Eu já percebi."
"Quero ouvi-la de novo."
"Ela ainda está sob vigilância?"
"Está."
Rafael fez uma pausa.
"Ou deveria estar."
Henrique franziu a testa.
"Como assim?"
Do outro lado da linha, houve vozes.
Passos.
Uma porta sendo aberta.
Rafael não respondeu.
"Rafael?"
A voz dele voltou diferente.
"Tivemos um problema."
Henrique sentiu o corpo endurecer.
"Que problema?"
Na sala reservada onde Vitória deveria estar aguardando novo depoimento, uma agente havia acabado de abrir a porta.
A cadeira estava vazia.
A bolsa havia desaparecido.
Não havia sinal de luta.
Sobre a mesa, havia apenas uma folha dobrada ao meio.
Rafael pegou o papel.
Leu.
Depois ficou em silêncio.
Henrique insistiu:
"O que está escrito?"
Rafael olhou novamente para a frase.
"Vocês estão investigando a pessoa errada."
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