"A Empregada Que Destruiu O Brinde" Parte 5
Isabela ficou parada no meio da sala, sem conseguir desviar os olhos da mãe.
A televisão continuava ligada, mas ela já não ouvia a reportagem.
Só conseguia pensar em uma frase.
Seu pai trabalhou para o Grupo Montenegro.
"Diz de novo."
Lúcia passou a mão pelo rosto molhado de lágrimas.
"Seu pai trabalhou para eles."
Isabela sentiu as pernas fraquejarem.
"Você me disse que ele trabalhava num escritório pequeno."
"Eu menti."
"Durante todos esses anos?"
"Eu estava tentando proteger você."
Isabela soltou uma risada curta, amarga.
"Proteger de quê?"
Lúcia olhou para a janela como se ainda tivesse medo de alguém escutar.
"Dos Montenegro."
Isabela ficou em silêncio.
Lúcia respirou fundo.
"Eu também trabalhei naquela casa."
Isabela virou o rosto devagar.
"Você?"
"Eu era empregada na mansão."
"Na mesma mansão?"
"Não exatamente. A família morava em outra casa naquela época, também no Jardim Europa."
Isabela tentou organizar as informações.
"Você conhecia Augusto."
Lúcia assentiu.
"Conhecia Helena também."
"E meu pai?"
"Paulo começou trabalhando na contabilidade de uma empresa menor do grupo."
A voz de Lúcia tremeu.
"Depois foi transferido para a sede."
Isabela se sentou lentamente.
Nunca tinha ouvido aquele nome ligado a dinheiro, empresas ou executivos.
Na memória dela, Paulo Oliveira era apenas o homem das poucas fotografias guardadas numa caixa.
Um pai que morrera cedo.
Um pai sobre quem Lúcia quase nunca falava.
"Por que você escondeu isso de mim?"
Lúcia sentou-se diante da filha.
"Porque eu queria que você crescesse longe daquela história."
"Que história?"
Lúcia demorou alguns segundos para responder.
"Houve um problema nas contas do grupo."
Isabela franziu a testa.
"Que problema?"
"Dinheiro desaparecendo."
"Quanto?"
"Eu nunca soube o valor exato."
"Mas era muito?"
"Era."
Lúcia apertou as mãos.
"Milhões."
Isabela sentiu o estômago apertar.
"E colocaram a culpa no meu pai."
Lúcia levantou os olhos.
Isabela já tinha entendido.
"Foi isso?"
"Sim."
A resposta caiu pesada entre as duas.
Lúcia continuou.
"Paulo foi acusado de desviar dinheiro da empresa."
Isabela ficou imóvel.
"Meu pai?"
"Ele jurava que era inocente."
"Você acreditava nele?"
"Até o último dia."
"Então por que nunca me contou?"
"Porque ninguém acreditou nele."
Lúcia começou a chorar novamente.
"Ele perdeu o emprego."
"Os amigos desapareceram."
"Os vizinhos começaram a cochichar."
Isabela sentiu os olhos arderem.
Lúcia continuou.
"Seu pai não conseguia mais sair de casa sem achar que todo mundo estava olhando."
"Ele tentou provar que não tinha feito aquilo."
"Conseguiu?"
Lúcia balançou a cabeça.
"Os documentos que ele dizia ter encontrado sumiram."
"Quem fez isso?"
"Eu não sei."
Isabela se levantou.
"Mas você sabe alguma coisa."
"Eu sei que ele tinha medo."
"De quem?"
Lúcia hesitou.
"Do que tinha descoberto."
Isabela caminhou até a estante.
Ali estava uma fotografia antiga.
Paulo sorrindo.
Lúcia ao lado.
Isabela ainda bebê nos braços.
Durante anos, aquela imagem significara uma família interrompida por uma doença.
Agora significava mentira.
"Como ele morreu?"
Lúcia fechou os olhos.
"Isabela..."
"Como meu pai morreu?"
"Ele ficou doente."
"Isso eu já sei."
"Depois do escândalo, ele mudou."
"Que doença?"
Lúcia não respondeu.
Isabela se virou.
"Que doença, mãe?"
"Ele começou a ter problemas no coração."
Isabela sentiu um frio atravessar o peito.
"Ainda jovem?"
"Sim."
"Depois de ser acusado?"
"Sim."
Lúcia enxugou as lágrimas.
"Ele já não dormia."
"Quase não comia."
"Vivia tentando provar que alguém tinha armado tudo."
Isabela apertou a moldura entre os dedos.
"E morreu sem conseguir limpar o próprio nome."
Lúcia assentiu.
A raiva finalmente venceu o choque.
"Você me deixou crescer achando que meu pai simplesmente ficou doente."
"Eu não queria colocar esse peso em você."
"Era a minha história."
"Era uma história que destruiu seu pai."
"Então você decidiu apagar ele?"
Lúcia levantou-se.
"Não fala assim."
"Como eu deveria falar?"
Isabela chorava agora.
"Eu trabalhei dentro da casa da família que acusou meu pai e você nunca me contou."
Lúcia empalideceu.
"Você não devia ter ido para lá."
Isabela virou o rosto.
A reação foi pequena.
Mas Lúcia percebeu.
"Isabela."
Ela ficou em silêncio.
"Você sabia."
Isabela fechou os olhos.
Lúcia se aproximou.
"Você sabia que seu pai tinha alguma ligação com os Montenegro?"
"Não como agora."
"Mas sabia alguma coisa."
Isabela respirou fundo.
"Havia um nome."
"Que nome?"
"Grupo Montenegro."
Lúcia ficou imóvel.
Isabela colocou a fotografia de volta.
"Eu encontrei um papel antigo quando tinha dezenove anos."
"Onde?"
"Numa caixa no alto do seu guarda-roupa."
Lúcia perdeu a cor.
"Você mexeu naquela caixa?"
"Sim."
"Meu Deus."
"Havia uma carta do advogado do papai."
Lúcia levou a mão à boca.
Isabela continuou.
"Falava de uma acusação envolvendo o Grupo Montenegro."
"Eu não entendia tudo."
"Mas entendi o suficiente para saber que você estava escondendo alguma coisa."
Lúcia recuou.
"Foi por isso que você aceitou trabalhar lá?"
Isabela não respondeu de imediato.
Depois assentiu.
"Sim."
Lúcia começou a chorar.
"Você mentiu para mim também."
"Eu precisava descobrir."
"Descobrir o quê?"
"Quem destruiu o nome dele."
Lúcia segurou o braço da filha.
"Você não sabe com quem está mexendo."
"Agora eu sei menos ainda."
"Isabela, promete que vai parar."
"Não."
A resposta saiu imediata.
Lúcia fechou os olhos.
Na manhã seguinte, Henrique encontrou uma mensagem de Isabela.
Ela pedia para falar com ele.
Ele ainda estava hospedado num apartamento da família perto da Avenida Paulista, longe da mansão e longe de Helena.
Aceitou encontrá-la no escritório do Grupo Montenegro.
Quando Isabela entrou, Henrique percebeu que ela parecia não ter dormido.
"O que aconteceu?"
Ela fechou a porta.
"Preciso contar uma coisa."
Henrique ficou tenso.
"Sobre Vitória?"
"Não."
"Sobre o quê?"
Isabela olhou para ele.
"Sobre mim."
Henrique esperou.
"Eu não comecei a trabalhar para sua família apenas porque precisava de emprego."
O rosto dele mudou.
"Como assim?"
"Eu precisava de emprego."
"Isso é verdade."
"Mas escolhi a casa dos Montenegro por outro motivo."
Henrique se levantou.
"Que motivo?"
Isabela respirou fundo.
"Meu pai trabalhou para o Grupo Montenegro."
Henrique ficou imóvel.
"Seu pai?"
"Paulo Oliveira."
Ele tentou lembrar.
O nome não lhe dizia nada.
"Quando?"
"Mais de vinte anos atrás."
Henrique franziu a testa.
"E o que isso tem a ver com você trabalhar na minha casa?"
Isabela apertou as mãos.
"Ele foi acusado de roubar dinheiro da empresa."
Henrique empalideceu.
"Espera."
"Eu não sabia de tudo."
"Mas sabia que havia uma acusação."
Henrique começou a entender.
"Então você entrou na minha casa para investigar minha família?"
A voz dele havia mudado.
Isabela sentiu a distância crescer entre os dois.
Mesmo assim, respondeu:
"Sim."
Henrique deu um passo para trás.
"Então era isso."
"Henrique..."
"Todo esse tempo."
"Eu nunca usei nada contra você."
"Mas estava observando."
"Eu queria respostas sobre meu pai."
"Você revistou documentos?"
"Não."
"Escutou conversas?"
Isabela hesitou.
A hesitação foi suficiente.
Henrique soltou uma risada amarga.
"Claro."
"Eu nunca quis machucar ninguém."
"Você entrou na minha casa com uma mentira."
"Eu entrei atrás da verdade."
"Para mim dá no mesmo."
Isabela sentiu a frase cortar.
"Eu salvei sua vida."
Henrique a encarou.
"Eu sei."
"Então acredita que eu não estava tentando destruir você."
"Eu não sei mais no que acreditar."
Isabela baixou os olhos.
Pela primeira vez desde o casamento, Henrique não parecia o homem que ela tinha protegido.
Parecia um Montenegro.
Frio.
Ferido.
Desconfiado.
"Talvez eu tenha errado em contar."
Henrique respondeu:
"Você errou em não contar antes."
A porta se abriu.
Os dois se viraram.
Augusto Montenegro estava parado do lado de fora.
Seu rosto estava pálido.
"Paulo Oliveira."
Isabela congelou.
Augusto entrou devagar.
"Foi esse o nome que você disse?"
Isabela assentiu.
"Era meu pai."
Augusto fechou a porta atrás de si.
Henrique olhou para ele.
"Você conheceu esse homem?"
Augusto não respondeu ao filho.
Continuou olhando para Isabela.
Havia culpa em seus olhos.
Uma culpa antiga.
"Seu pai não roubou aquele dinheiro."
Isabela parou de respirar.
Henrique virou-se para Augusto.
"O quê?"
Augusto continuou:
"Paulo Oliveira era inocente."
Isabela sentiu as mãos tremerem.
"Como você sabe?"
Augusto abaixou os olhos por um instante.
Quando voltou a encará-la, sua voz saiu quase como uma confissão.
"Porque eu sempre soube disso."
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