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"A Colher Que Nunca Chegou À Boca" Parte 5

正文开头

Henrique voltou de Campos do Jordão com uma certeza e uma dúvida.

A certeza era que Mariana tinha sido morta por causa do que descobrira.

A dúvida era muito pior.

Camila sabia de tudo.

Talvez desde o começo.

Assim que chegou a São Paulo, Henrique pediu que ela fosse levada até uma sala reservada do escritório jurídico que acompanhava o caso.

Camila entrou sem maquiagem, com o rosto cansado e os cabelos presos.

Mesmo assim, manteve a postura firme.

"Você demorou."

Henrique fechou a porta.

"Eu encontrei o cofre."

Camila perdeu o olhar por um segundo.

Foi o bastante.

"Então você sabia."

"Eu sabia que Mariana guardava documentos."

"Não foi isso que eu perguntei."

Henrique colocou o pen drive sobre a mesa.

"Ela gravou você."

Camila ficou em silêncio.

"Ela disse que vocês estavam investigando juntas."

Nenhuma resposta.

"Também disse que você sabia quem estava por trás das empresas."

Camila finalmente sentou.

"Henrique..."

"Não."

Ele bateu a mão na mesa.

"Você vai falar agora."

Camila ergueu os olhos.

"Eu tentei falar."

"Quando?"

"Na época."

"Mentira."

"Você não queria ouvir."

Henrique soltou uma risada amarga.

"Você entrou na vida da minha esposa como assistente, virou confidente dela, depois ela morreu e você se casou comigo."

Camila respirou fundo.

"Eu sei como isso parece."

"Parece?"

Henrique se aproximou.

"Meu filho viu você colocando uma cápsula na bebida da mãe dele."

"Eu não matei Mariana."

"Então por que você nunca explicou nada?"

"Porque eu não podia."

"Você podia ter ido à polícia."

Camila desviou os olhos.

Henrique percebeu.

"Você teve medo."

"Sim."

"De quem?"

"De muita gente."

"Eu quero nomes."

Camila apertou as mãos.

"Começou com pagamentos pequenos."

Henrique ficou em silêncio.

"Contratos que pareciam normais."

"Depois?"

"Depois eu percebi que várias empresas tinham os mesmos procuradores."

"Empresas ligadas aos Ferraz."

Camila fechou os olhos.

"Algumas."

Henrique endureceu o rosto.

"Sua família."

"Meu sobrenome não significa que eu controlava aquilo."

"Marcelo sabia?"

Camila demorou a responder.

"Meu irmão sempre soube mais do que dizia."

Henrique deu um passo para trás.

"Então você descobriu que seu próprio irmão estava ligado ao desvio e resolveu se aproximar da Mariana."

"Não."

"Não?"

"Mariana percebeu primeiro."

Camila olhou diretamente para ele.

"Ela me chamou."

Henrique sentiu o maxilar travar.

"Para quê?"

"Porque encontrou um pagamento aprovado por uma área que eu acompanhava."

"E você ajudou?"

"Sim."

"Por quê?"

"Porque quando comecei a cruzar os dados, entendi que havia alguém usando acessos internos para tirar dinheiro da empresa."

Camila engoliu em seco.

"Não eram milhares."

"Eram milhões."

"Durante anos."

Henrique lembrou das planilhas.

Quarenta milhões.

Talvez mais.

"E você deixou isso acontecer."

"Eu descobri tarde."

"Conveniente."

Camila se levantou.

"Você quer me culpar porque é mais fácil."

Henrique riu.

"Mais fácil?"

"Sim."

A voz dela aumentou.

"É mais fácil olhar para mim e decidir que eu sou a mulher ambiciosa que matou sua esposa."

Henrique encarou Camila.

"Você estava com cápsulas na bolsa."

正文1

"Eram minhas."

Henrique ficou imóvel.

Camila continuou antes que ele pudesse falar.

"As cápsulas eram minhas."

"Então você admite."

"Admito que pertenciam a mim."

"Para quê?"

"Para tratar uma deficiência que eu tive depois de uma cirurgia."

Henrique fez uma expressão de desprezo.

"Sem rótulo."

"Eu comprava manipuladas."

"E a cápsula vazia?"

"Eu não sei como foi parar daquele jeito."

"Claro."

Camila se aproximou.

"Você pediu perícia."

"Sim."

"Então espere o resultado completo."

Henrique ficou em silêncio.

Ela apontou para o próprio peito.

"Eu carregava aquelas cápsulas havia meses."

"Você também carregava na noite em que Mariana morreu?"

Camila empalideceu.

"Sim."

Henrique respirou fundo.

"Lucas viu você abrir uma."

"Porque Mariana estava passando mal antes de cair."

"Você deu alguma coisa para ela?"

"Não."

"Então o que fez?"

Camila olhou para o chão.

"Eu preparei uma cápsula para mim."

Henrique bateu a mão na mesa.

"Para!"

Camila se assustou.

"Você espera que eu acredite nisso?"

"É a verdade."

"Meu filho não inventou."

"Eu não disse que ele inventou."

"Então ele viu você mexendo na bebida de Mariana."

Camila fechou os olhos.

"Ele viu uma parte."

Henrique ficou imóvel.

"Que parte?"

"Eu coloquei água no copo dela."

"Com uma cápsula aberta na mão?"

Camila respirou fundo.

"Eu tinha acabado de abrir a minha."

Henrique riu sem humor.

"Você percebe como isso soa?"

"Percebo."

"Então me dá uma versão melhor."

"Eu não tenho uma versão melhor."

Ela começou a chorar.

"Eu só tenho o que aconteceu."

Henrique virou o rosto.

Ele não queria sentir nada por ela.

Nem pena.

Nem dúvida.

Muito menos amor.

"Por que você entrou no escritório da Mariana antes de chamar o socorro?"

Camila levantou a cabeça rapidamente.

"Lucas contou."

"Contou."

Ela fechou os olhos.

"Eu fui buscar uma pasta."

"Qual?"

"A que ela estava usando para montar o dossiê."

Henrique sentiu o peito apertar.

"Você deixou minha esposa caída no chão para buscar documentos?"

"Eu achei que ela ainda estava consciente."

"Ela morreu."

"Eu sei."

"Você sabia que alguém podia pegar aquela pasta?"

"Sim."

"Então você pensou primeiro nos papéis."

Camila chorava em silêncio.

"Eu pensei que, se alguém tivesse feito aquilo com ela, os documentos eram o motivo."

Henrique aproximou o rosto.

"Você chamou a ambulância depois."

"Sim."

"Quantos minutos depois?"

"Dois."

"Dois minutos podem matar uma pessoa."

"Eu sei."

Henrique se afastou.

Aquilo doía mais porque parecia possível.

Camila podia não ter matado Mariana.

Mas podia ter escolhido os documentos antes da vida dela.

"Agora me responde outra coisa."

Camila limpou o rosto.

"Por que você se casou comigo?"

Ela não respondeu.

Henrique esperou.

"Por quê?"

"Porque eu precisava continuar perto."

"Perto de quê?"

"Da empresa."

"De mim?"

"Também."

"De Lucas?"

Camila fechou os olhos.

Henrique sentiu um frio subir pela nuca.

"Então nosso casamento fazia parte da investigação."

"Henrique..."

"Responde."

Camila abriu os olhos.

"Porque eu precisava continuar dentro desta família."

O silêncio caiu pesado.

正文2

Henrique deu um passo para trás.

Depois outro.

"Você se casou comigo para investigar um assassino."

"Não foi só por isso."

"Não piora."

"Eu me apaixonei por você."

Henrique riu.

"Quando?"

"Depois."

"Depois de quê?"

Camila não respondeu.

"Depois de entrar na minha casa?"

"Henrique..."

"Depois de ocupar o lugar da Mariana?"

"Não fala assim."

"Depois de convencer meu filho de que ele estava confuso?"

Camila empalideceu.

"Eu tentei proteger Lucas."

"Você mandou ele esquecer."

"Porque ele estava em perigo."

Henrique congelou.

"Em perigo de quem?"

Camila ficou em silêncio.

"Fala."

"Eu não tinha certeza."

"Você tinha medo de Bruno?"

Camila não respondeu.

"De Marcelo?"

Os olhos dela se moveram.

Henrique percebeu.

"Seu irmão."

"Não é tão simples."

"É exatamente tão simples."

Camila abriu a bolsa de documentos que havia levado.

Retirou uma pasta dobrada.

"Eu guardei isso por dezoito meses."

Henrique não pegou.

"O que é?"

"Uma lista."

"De quê?"

"De todas as pessoas que cruzaram com os pagamentos, os acessos, os documentos e o atendimento da Mariana."

Henrique finalmente abriu.

Havia dezenas de nomes.

Funcionários do Grupo Vasconcelos.

Executivos.

Prestadores.

Advogados.

Profissionais do hospital.

Alguns estavam marcados com datas.

Outros, com pontos de interrogação.

Henrique virou outra página.

Um nome chamou atenção.

Augusto Menezes.

Ele levantou os olhos.

"Meu advogado."

Camila assentiu.

"Por que ele está aqui?"

"Porque alguns aditivos passaram pelo escritório dele."

Henrique continuou.

Outro nome.

Bruno Vasconcelos.

Depois Marcelo Ferraz.

Henrique fechou a pasta por um segundo.

"Você investigou todo mundo."

"Eu tentei."

"Sem me contar nada."

"Se eu estivesse errada, eu destruía sua família."

"E se estivesse certa?"

Camila respirou fundo.

"Talvez eu acabasse como Mariana."

Henrique abriu novamente.

Na última página havia apenas três nomes.

Marcelo Ferraz.

Augusto Menezes.

Dra. Isabela Moreira.

Henrique parou.

Aquele último nome ele conhecia muito bem.

"Não."

Camila não disse nada.

Henrique apontou.

"Por que ela está aqui?"

"Porque alguma coisa não fecha."

"Ela tentou salvar Mariana."

"Eu sei."

"Ela foi a médica responsável naquela noite."

"Eu sei."

Henrique levantou a voz.

"Foi ela quem me disse que Mariana tinha morrido!"

Camila sustentou o olhar.

"Exatamente."

Henrique sentiu o corpo inteiro gelar.

"Camila, o que você descobriu sobre Isabela?"

Ela respondeu em voz baixa.

"Que o prontuário de Mariana foi alterado depois que ela entrou no hospital."

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