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"A Colher Que Nunca Chegou À Boca" Parte 4

正文开头

Henrique saiu de São Paulo antes das seis da manhã.

Lucas foi no banco de trás, abraçado à mochila.

A fotografia de Mariana permaneceu durante todo o caminho no porta-luvas.

Henrique já tinha lido aquela frase dezenas de vezes.

"Se eu morrer, procure em Campos do Jordão."

Nenhuma palavra parecia acidental.

Mariana não escreveria aquilo sem motivo.

Muito menos esconderia dentro de um livro que Lucas ainda guardava.

Quando o carro começou a subir a serra, Henrique sentiu uma pressão diferente no peito.

A casa de Campos do Jordão não era apenas uma propriedade da família.

Era o lugar preferido de Mariana.

Eles tinham passado ali aniversários, feriados e fins de semana inteiros antes de tudo desmoronar.

Lucas reconheceu a estrada.

"Faz muito tempo que a gente não vem."

Henrique olhou pelo retrovisor.

"Eu sei."

"Depois que a mamãe morreu, você nunca mais quis vir."

Henrique demorou para responder.

"Eu não conseguia."

A casa apareceu entre as árvores pouco depois das oito.

Madeira escura.

Janelas amplas.

Um jardim já um pouco abandonado.

Henrique desligou o carro e ficou alguns segundos parado.

Lucas abriu a porta primeiro.

"Pai."

"Oi."

"Você acha que a mamãe sabia que alguém ia fazer alguma coisa com ela?"

Henrique sentiu a garganta fechar.

"Eu não sei."

Lucas olhou para a casa.

"Eu acho que sabia."

Eles entraram.

O cheiro de madeira antiga e lareira fria trouxe lembranças imediatamente.

Henrique viu Mariana descendo a escada.

Mariana rindo na cozinha.

Mariana dormindo no sofá com Lucas no colo.

Ele precisou desviar os olhos.

"Por onde a gente começa?"

Lucas segurava a fotografia.

Henrique pegou.

O fundo da imagem mostrava parte da fachada.

Mariana estava perto da janela lateral do antigo escritório.

"Talvez aqui."

O escritório permanecia praticamente intocado.

Uma escrivaninha de madeira.

Estantes cheias.

Um sofá claro.

Henrique abriu gavetas.

Nada.

Lucas começou a olhar os livros.

Depois de quase meia hora, o menino parou diante de uma prateleira.

"Pai."

Henrique se aproximou.

"O que foi?"

Lucas mostrou a fotografia.

"Olha atrás da mamãe."

Henrique comparou a imagem com a parede.

Havia um quadro antigo mostrando uma paisagem da Mantiqueira.

Na fotografia, o quadro estava levemente deslocado.

Na parede atual, estava reto.

Henrique tirou o quadro.

Atrás dele encontrou uma pequena placa metálica.

Seu coração acelerou.

Era um teclado numérico.

"Um cofre."

Lucas ficou imóvel.

"Você sabia que tinha isso?"

"Não."

Henrique tentou datas importantes.

Aniversário de Mariana.

Nascimento de Lucas.

Data do casamento.

Nada.

Depois olhou de novo para a fotografia.

No canto inferior havia uma pequena anotação quase apagada.

 

Henrique digitou.

A trava fez um clique.

Lucas prendeu a respiração.

A porta metálica abriu.

Não havia dinheiro.

Não havia joias.

Havia documentos.

Muitos.

Pastas com nomes de empresas.

Extratos bancários.

Contratos.

Uma folha grande dobrada em quatro.

Henrique puxou primeiro essa folha.

Abriu sobre a mesa.

Era um organograma feito à mão.

正文1

No centro, Grupo Vasconcelos.

Ao redor, setas.

Fornecedores.

Empresas de consultoria.

Fundos de investimento.

Transferências.

Valores.

Datas.

Lucas olhou.

"O que é isso?"

Henrique não respondeu.

Pegou uma pasta.

Dentro havia cópias de pagamentos feitos pelo grupo.

Quinhentos e oitenta mil reais.

Um milhão e duzentos.

Dois milhões e quatrocentos.

Sempre para empresas pouco conhecidas.

Depois os valores seguiam para outras contas.

Henrique começou a folhear mais rápido.

"Não."

"Pai?"

"Isso não faz sentido."

Ele conhecia parte daqueles contratos.

Alguns tinham sido aprovados durante períodos em que estava viajando.

Outros apareciam como despesas operacionais.

Mariana tinha marcado vários com caneta vermelha.

Em uma folha, escreveu:

"Mesmo fornecedor. Endereços diferentes. Sócios ligados."

Henrique sentou.

Mariana estava investigando a própria empresa.

E fazia isso escondida dele.

Lucas observava em silêncio.

"Ela sabia de alguma coisa ruim?"

Henrique respirou fundo.

"Sabia."

"Sobre o tio Bruno?"

Henrique levantou os olhos.

"Eu ainda não sei."

Havia também um pen drive preto.

Ele ligou um notebook antigo que permanecia no escritório.

O dispositivo demorou para abrir.

Dentro existiam dezenas de arquivos.

Planilhas.

Documentos escaneados.

Fotos.

Henrique abriu uma tabela.

O total das transferências analisadas por Mariana ultrapassava quarenta milhões de reais.

"Meu Deus."

Lucas se aproximou.

"É muito dinheiro?"

"É."

Henrique rolou a tela.

Uma empresa aparecia repetidamente.

Nova Aurora Participações.

Ele nunca tinha ouvido aquele nome.

Abriu os documentos societários que Mariana salvara.

A empresa pertencia formalmente a dois administradores.

Mas havia anotações indicando o beneficiário final.

Henrique leu.

Ferraz Patrimonial.

Seu corpo endureceu.

Ferraz.

O sobrenome de Camila.

Lucas percebeu.

"É da Camila?"

"Talvez."

Henrique abriu outro arquivo.

Havia referência a Marcelo Ferraz.

Irmão de Camila.

Investidor.

Consultor.

Um homem que Henrique conhecia de eventos e reuniões.

Nada além disso.

Ou pelo menos era o que pensava.

Henrique levantou e caminhou até a janela.

Tudo parecia apontar de novo para Camila.

As cápsulas.

As mentiras.

A entrada no escritório de Mariana.

Agora dinheiro ligado à família Ferraz.

Lucas se aproximou.

"Pai."

Henrique virou.

"Você acha que a Camila matou a mamãe?"

A pergunta ficou no ar.

Henrique não respondeu.

Não podia.

Ainda não.

Voltou ao computador.

Entre os arquivos havia uma pasta sem nome.

Dentro, apenas gravações de áudio.

A primeira tinha sido criada cinco dias antes da morte de Mariana.

Henrique clicou.

No início, só ouviu ruído.

Depois veio a voz dela.

Henrique ficou completamente imóvel.

Dezoito meses.

Era a primeira vez que ouvia Mariana falando novamente.

"Se eu estou gravando isso, é porque já não sei em quem confiar."

Henrique sentiu os olhos arderem.

Lucas se sentou ao lado dele.

A voz continuou.

"Eu encontrei pagamentos que não deveriam existir."

"Há dinheiro saindo do Grupo Vasconcelos por empresas que só existem no papel."

Henrique apertou o maxilar.

"Algumas estão ligadas à família Ferraz."

Ele fechou os olhos.

Camila.

Marcelo.

Tudo fazia sentido.

Então Mariana disse:

"Mas a Camila descobriu a mesma coisa que eu."

Henrique abriu os olhos.

Lucas olhou para ele.

"Ela falou Camila."

"Eu ouvi."

A gravação continuou.

"Ela me procurou porque estava com medo."

Henrique aproximou o notebook.

"Ela disse que os pagamentos começaram antes de entrar na minha equipe."

Henrique sentiu a confusão crescer.

Se Camila tinha descoberto o esquema junto com Mariana, então por que as duas brigavam?

Por que Camila escondia informações?

Por que Lucas a viu com a cápsula?

Outra frase veio.

"Eu não sei até onde posso confiar nela."

Henrique prendeu a respiração.

"Mas sem o que Camila me mostrou, eu nunca teria chegado até aqui."

Lucas falou baixo.

"Então elas estavam juntas?"

Henrique balançou a cabeça.

"Eu não sei."

Ele abriu outra gravação.

Dessa vez Mariana parecia nervosa.

Sua voz estava mais rápida.

"Tem alguém acompanhando meus acessos."

"Hoje tentaram entrar no meu e-mail."

"Camila disse que eu preciso parar."

Henrique sentiu a pele arrepiar.

"Ela quer que eu espere."

"Eu não posso."

Um barulho surgiu na gravação.

Como uma porta fechando ao fundo.

Depois Mariana abaixou a voz.

"Camila descobriu quem autorizou uma das empresas."

Henrique se inclinou.

Lucas também.

"Ela não quer dizer o nome por telefone."

Henrique segurou o mouse.

Mariana respirou fundo.

Então falou a frase que fez todo o resto desaparecer.

"Se ele descobrir que Camila me contou, nós duas estamos mortas."

A gravação terminou.

Henrique ficou olhando para a tela preta.

Lucas foi o primeiro a falar.

"Quem é ele?"

Henrique não respondeu.

Porque Mariana também não tinha dito.

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