"A Colher Que Nunca Chegou À Boca" Parte 3
Henrique voltou para a mansão em Jardim Europa ainda antes do amanhecer.
Não conseguiu dormir.
A imagem de Bruno entrando na cozinha do hotel continuava voltando à sua cabeça.
Mas havia outra coisa ainda pior.
Lucas.
Durante dezoito meses, o menino havia carregado sozinho uma lembrança que ninguém quis ouvir.
Henrique encontrou o filho sentado no chão do quarto, abraçado aos joelhos.
"Você não dormiu?"
Lucas balançou a cabeça.
"Você também não."
Henrique entrou e fechou a porta.
Por alguns segundos, não soube o que dizer.
Depois sentou no tapete ao lado dele.
"Lucas, eu preciso pedir desculpas."
O menino não respondeu.
"Você tentou falar comigo sobre sua mãe."
"Eu sei."
"E eu não escutei."
Lucas apertou os dedos.
"Todo mundo dizia que eu tinha entendido errado."
Henrique fechou os olhos.
"Quem dizia isso?"
"A Camila."
"Mais alguém?"
"A vó."
Henrique franziu a testa.
"Minha mãe?"
Lucas assentiu.
"E o tio Bruno."
Aquela resposta atingiu Henrique de uma forma diferente.
"Bruno falou com você sobre aquela noite?"
"Falou."
"Quando?"
"Depois do enterro."
Henrique sentiu um peso no peito.
"O que ele disse?"
"Que eu estava triste e podia imaginar coisas."
Lucas olhou para o pai.
"Ele falou que, se eu continuasse dizendo que alguém tinha feito alguma coisa com a mamãe, você ia sofrer mais."
Henrique ficou em silêncio.
Aquilo não parecia consolo.
Parecia controle.
"Lucas, quero que você me conte tudo de novo."
"Eu já contei."
"Eu sei."
Henrique segurou a mão dele.
"Mas agora eu vou ouvir."
O menino respirou fundo.
Henrique não fez perguntas no início.
Apenas deixou Lucas falar.
Na noite em que Mariana morreu, havia pouca gente na mansão.
Henrique ainda estava voltando de uma reunião na Faria Lima.
Lucas tinha descido para buscar água.
Dona Lúcia estava na lavanderia.
Camila trabalhava no escritório improvisado ao lado da sala de jantar.
"Eu vi a mamãe segurando o copo."
Lucas falava devagar.
"Ela falou que estava tonta."
"E depois?"
"A Camila chegou."
Henrique tentou manter a voz firme.
"O que ela fez?"
"Segurou a mamãe."
Lucas parou.
"Ela caiu perto da escada."
Henrique sentiu um arrepio.
"Você viu?"
"Vi."
"E a Camila chamou ajuda?"
Lucas balançou a cabeça.
"Não na hora."
Henrique virou o rosto lentamente.
"O que ela fez?"
Lucas olhou para a porta como se temesse que alguém pudesse estar ouvindo.
"Ela correu."
"Para onde?"
"Para o escritório da mamãe."
Henrique não respirou.
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Quanto tempo ela ficou lá?"
"Não sei."
"Um minuto?"
"Mais."
Lucas tentou lembrar.
"Eu fiquei chamando a mamãe."
Henrique sentiu a garganta fechar.
"Você estava sozinho com ela caída no chão?"
Lucas começou a chorar.
"Eu não sabia o que fazer."
Henrique puxou o filho para perto.
"Você tinha sete anos."
"Eu achei que ela ia acordar."
"Você não fez nada errado."
Lucas apertou a camisa do pai.
"Depois a Camila voltou."
"Com alguma coisa?"
"Não vi."
"E aí?"
"Ela pegou o telefone."
Henrique se afastou um pouco.
"Então ela chamou o socorro?"
"Sim."
"Depois de entrar no escritório."
Lucas assentiu.
Henrique sentiu uma onda de raiva.
Nenhuma declaração policial daquela noite mencionava isso.
Na versão oficial, Camila teria encontrado Mariana já passando mal e chamado o socorro imediatamente.
Henrique levantou.
"Eu preciso ver uma coisa."
Desceu até o escritório da casa.
Abriu no computador a cópia digital do antigo boletim.
Leu de novo.
Linha por linha.
Camila declarara que Mariana perdeu os sentidos "repentinamente" e que a ambulância foi acionada "sem demora".
Henrique bateu a mão na mesa.
"Mentira."
Lucas apareceu na porta.
"Pai?"
Henrique fechou o arquivo.
"Vai ficar tudo bem."
Mas ele já não acreditava nisso.
Pouco depois das oito da manhã, Bruno ligou.
Henrique olhou para o nome na tela por alguns segundos antes de atender.
"Bom dia."
Bruno parecia calmo demais.
"Precisamos conversar."
"Sobre o hotel?"
"Imagino que sim."
"Então fala."
"Eu soube que a polícia pediu as imagens."
Henrique ficou em silêncio.
Bruno continuou.
"Eu entrei na cozinha porque o Grupo Vasconcelos patrocinou metade daquela noite."
"Você não estava na lista da operação."
"Porque eu não fazia parte da equipe."
"Então por que foi para a cozinha?"
"Queria falar com o responsável pelo serviço."
"Sobre o quê?"
"Uma mesa de investidores tinha reclamado da demora."
Henrique apertou os lábios.
"Você colocou a mão no bolso."
Bruno soltou uma risada curta.
"Eu tirei meu celular."
"E por que foi até a bancada dos pratos?"
"Porque o gerente estava lá."
"Não estava."
O silêncio durou um pouco mais.
Bruno mudou o tom.
"Henrique, cuidado."
"Com o quê?"
"Com o que você está fazendo."
Henrique ficou imóvel.
"Isso é uma ameaça?"
"É um conselho."
"De primo para primo?"
"De alguém que está vendo você perder a cabeça."
A frase bateu fundo.
Perder a cabeça.
Era exatamente a narrativa que começava a se formar.
Henrique desligou sem se despedir.
Naquela tarde, foi até a sede do Grupo Vasconcelos, na Faria Lima.
Não avisou ninguém.
Entrou pelo acesso privativo.
Pediu ao setor jurídico interno todos os registros de transferência ligados ao patrimônio de Mariana depois da morte.
"Senhor Henrique, isso pode levar algumas horas."
"Eu tenho o dia inteiro."
Os documentos chegaram perto das quatro.
Henrique começou a analisar.
Parte das ações pessoais de Mariana tinha sido destinada a Lucas.
Outra parte havia retornado para uma estrutura de proteção patrimonial criada anos antes.
O Fundo Familiar Vasconcelos.
Henrique conhecia o fundo.
Mas nunca prestara atenção em quem assumia decisões temporárias quando um dos controladores morria.
Abriu o estatuto.
Seu nome aparecia em primeiro lugar.
Depois vinha outro.
Bruno Vasconcelos.
Henrique releu.
Em caso de incapacidade, ausência ou impedimento do primeiro controlador, o segundo assumiria temporariamente poderes sobre o bloco de voto.
Ele sentiu o estômago afundar.
Mariana morreu.
Parte do patrimônio voltou ao fundo.
Bruno ganhou mais influência.
Agora, se Henrique morresse ou fosse declarado incapaz, Bruno poderia ganhar ainda mais.
Henrique fechou o arquivo.
Pela primeira vez, uma possibilidade monstruosa tomou forma.
Talvez Camila não fosse a única pessoa por trás de tudo.
Talvez nem fosse a principal.
Henrique saiu da empresa já à noite.
Quando entrou na mansão, Lucas o esperava na sala.
"Pai."
Henrique tirou o paletó.
"O que foi?"
O menino segurava uma fotografia antiga.
"Eu achei isso."
Henrique pegou.
Era uma foto de Mariana em Campos do Jordão.
Ela sorria diante da casa de madeira da família, usando um casaco claro.
A imagem estava desbotada nas bordas.
"Onde estava?"
"Dentro de um livro."
Henrique virou a fotografia.
Havia uma frase escrita à mão.
Reconheceu imediatamente a letra.
Era de Mariana.
As palavras fizeram seu corpo inteiro gelar.
"Se eu morrer, procure em Campos do Jordão."
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