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"A Colher Que Nunca Chegou À Boca" Parte 2

正文开头

Henrique ligou novamente antes mesmo de sair do salão.

Augusto não atendeu.

Na terceira tentativa, o advogado finalmente retornou.

"Henrique, onde você está?"

"No hotel."

"Você ainda está com a polícia?"

"Estou."

Augusto respirou fundo.

"Então não fale nada pelo telefone."

Henrique fechou os olhos por um instante.

"Você acabou de me dizer para não comer nada antes mesmo de eu explicar o que aconteceu."

"Eu sei."

"Como?"

Silêncio.

Henrique se afastou dos policiais e foi até uma área reservada do corredor.

"Augusto, eu vou te perguntar uma vez."

A voz dele ficou mais baixa.

"Como você sabia?"

Do outro lado da linha, o advogado demorou a responder.

"Porque Mariana me ligou antes de morrer."

Henrique parou.

O corredor pareceu estreitar ao redor dele.

"Quando?"

"Na noite anterior."

Henrique não conseguiu falar.

Augusto continuou.

"Ela pediu para me encontrar sem você saber."

"Por quê?"

"Queria alterar parte da estrutura patrimonial dela."

Henrique sentiu o estômago revirar.

"Você nunca me contou isso."

"Ela me fez prometer."

"Minha esposa morreu no dia seguinte."

"Eu sei."

"Então sua promessa morreu com ela."

Augusto ficou em silêncio.

Henrique apertou o telefone com tanta força que os dedos começaram a doer.

"O que Mariana disse?"

"Henrique..."

"O que ela disse?"

A resposta veio quase como uma confissão.

"Ela falou: 'Se alguma coisa acontecer comigo, não foi meu coração.'"

Henrique encostou na parede.

Durante dezoito meses, ele havia repetido para si mesmo a versão dos médicos.

Uma falha cardíaca súbita.

Uma fatalidade.

Uma dessas tragédias que não pedem licença antes de destruir uma família.

Agora, pela primeira vez, aquela explicação parecia uma mentira cuidadosamente construída.

"Por que ela diria isso?"

"Ela estava com medo."

"De quem?"

"Ela não disse."

"Você acreditou nela?"

Augusto hesitou.

"Naquele momento, achei que ela estava exagerando."

Henrique soltou uma risada sem humor.

"Todo mundo achou que alguém estava exagerando."

Primeiro Mariana.

Depois Lucas.

"E agora?"

"Agora eu acho que eu devia ter escutado melhor."

Henrique desligou.

Quando voltou ao salão, Camila já estava sendo conduzida para uma sala privada para prestar esclarecimentos.

Ela parou ao vê-lo.

"Henrique."

Ele não respondeu.

"Você não pode acreditar que eu matei Mariana."

Henrique a encarou.

"Eu ainda não sei no que acreditar."

"Então escute o que eu estou dizendo."

"Meu filho disse que viu você mexendo na bebida dela."

"Lucas tinha sete anos."

"Ele também tinha sete anos quando tentou me contar."

Camila ficou em silêncio.

Henrique percebeu a mudança no rosto dela.

Não era indignação.

Era medo.

"Tem alguma coisa que você queira me dizer?"

"Nada que você vá acreditar agora."

Henrique deu um passo à frente.

"Tenta."

Camila olhou para os policiais.

Depois para ele.

"Essas cápsulas podem ter sido colocadas na minha bolsa."

Henrique soltou o ar pelo nariz.

"Você espera mesmo que eu aceite isso?"

"Qualquer pessoa teve acesso àquela mesa."

"A sua bolsa estava ao lado da sua cadeira."

"Eu fui ao banheiro. Fui ao palco. Falei com dezenas de pessoas."

正文1

"E a cápsula vazia?"

"Eu não sei."

"E o frasco?"

"Também não."

Henrique endureceu o rosto.

"Você está dizendo que alguém montou uma cena inteira para me fazer acreditar que você tentou me matar?"

"Estou dizendo que talvez alguém quisesse exatamente isso."

Ele não respondeu.

Horas depois, já perto da meia-noite, Henrique levou Lucas para casa.

A mansão em Jardim Europa parecia diferente.

As luzes estavam acesas.

Os seguranças estavam nos mesmos lugares.

Tudo parecia normal.

Mas nada era.

Lucas entrou em silêncio.

Henrique observou o filho tirar os sapatos e subir dois degraus.

"Lucas."

O menino virou.

"Quero te perguntar uma coisa."

Lucas voltou lentamente.

"Você lembra de alguma coisa que sua mãe dizia antes de morrer?"

O garoto franziu a testa.

"Sobre a Camila?"

"Sobre qualquer coisa."

Lucas pensou.

"Elas brigavam."

Henrique congelou.

"Quem?"

"A mamãe e a Camila."

"Quantas vezes?"

"Não sei."

"Uma? Duas?"

Lucas balançou a cabeça.

"Mais."

Henrique nunca soubera disso.

Camila sempre descrevera sua relação com Mariana como próxima.

Profissional.

Quase de amizade.

"Você ouviu o motivo?"

"Às vezes."

"E o que elas falavam?"

Lucas olhou para a escada.

"Uma vez a mamãe falou que não queria mais a Camila mexendo nas coisas dela."

Henrique sentiu um arrepio.

"Que coisas?"

"Papéis."

"Que papéis?"

"Não sei."

Lucas apertou os lábios.

"Outra vez, a Camila falou: 'Você não sabe onde está se metendo.'"

Henrique ficou parado.

"Tem certeza dessas palavras?"

"Tenho."

Antes que pudesse continuar, Dona Lúcia apareceu no corredor.

Ela trabalhava para a família havia mais de vinte anos.

Conhecera Henrique antes do casamento.

Ajudara a criar Lucas.

E fora uma das últimas pessoas a ver Mariana viva.

"Seu Henrique..."

A voz dela saiu baixa.

"Eu preciso falar com o senhor."

Henrique percebeu imediatamente que ela havia escutado parte da conversa.

"Lúcia, você sabe de alguma coisa?"

Ela olhou para Lucas.

"Talvez seja melhor ele subir."

Henrique fez um sinal para o filho.

"Vai tomar banho. Eu subo depois."

Lucas hesitou.

"Você vai ficar bem?"

Henrique se aproximou e beijou a testa dele.

"Vou."

Depois que o menino desapareceu no andar de cima, Dona Lúcia levou Henrique até a antiga sala de Mariana.

A porta estava trancada.

Henrique guardava a chave havia dezoito meses.

Ele nunca tivera coragem de entrar.

Até aquela noite.

A fechadura girou.

O cheiro fraco do perfume de Mariana ainda permanecia entre livros, cortinas e roupas.

Henrique parou na porta.

A cama estava arrumada.

Uma echarpe continuava sobre a poltrona.

Uma fotografia dos três permanecia sobre a mesa de cabeceira.

Ele desviou os olhos.

"Lúcia."

"Sim."

"O que você queria me contar?"

Ela entrou devagar.

"Na última noite, dona Mariana me chamou aqui."

Henrique virou imediatamente.

"Antes de passar mal?"

"Algumas horas antes."

"O que ela disse?"

"Ela estava nervosa."

"Com medo?"

"Sim."

Lúcia apertou as mãos.

"Ela me deu um envelope grande."

"Que envelope?"

"Marrom. Pesado. Tinha papéis dentro."

Henrique sentiu o coração acelerar.

正文2

"E pediu para eu esconder."

"Onde?"

"No depósito da lavanderia."

"E você escondeu?"

"Escondi."

"Então onde está?"

Lúcia baixou os olhos.

"Sumiu."

Henrique ficou imóvel.

"Como assim, sumiu?"

"Na manhã seguinte, depois que levaram dona Mariana para o hospital, eu fui procurar."

"Não estava mais lá."

"Não."

"Alguém viu você guardando?"

"Eu achei que não."

Henrique caminhou até a antiga escrivaninha da esposa.

Abriu uma gaveta.

Depois outra.

Tudo parecia intacto.

"Por que você nunca me contou?"

Lúcia começou a chorar.

"Porque no dia seguinte apareceu um homem aqui."

Henrique virou.

"Que homem?"

"Ele sabia do envelope."

O sangue de Henrique gelou.

"Quem?"

"Eu não conhecia."

"O que ele disse?"

"Disse que, se eu falasse com o senhor, podia acontecer com Lucas o mesmo que aconteceu com dona Mariana."

Henrique perdeu a cor.

"Você está me dizendo que alguém ameaçou meu filho dentro da minha casa?"

Lúcia assentiu.

Henrique bateu a mão na mesa.

"Meu Deus."

Na manhã seguinte, ele foi chamado à delegacia.

O resultado preliminar da perícia do jantar havia chegado.

Um delegado colocou os laudos sobre a mesa.

"Encontramos uma substância incomum no molho do seu prato."

Henrique respirou fundo.

"E corresponde às cápsulas encontradas na bolsa da Camila?"

O delegado não respondeu imediatamente.

"Não exatamente."

Henrique franziu a testa.

"Como assim?"

"As cápsulas contêm um composto."

Ele apontou para outro documento.

"No prato havia esse composto misturado com outro."

Henrique ficou em silêncio.

"Então?"

"Então é possível que as cápsulas tenham relação com o que aconteceu."

O delegado fechou a pasta.

"Mas alguém adicionou uma segunda substância."

Henrique sentiu o corpo endurecer.

"Outra pessoa mexeu na minha comida?"

"É uma possibilidade forte."

O delegado girou o notebook em direção a ele.

"Pedimos todas as imagens internas do hotel."

A gravação começou.

Cozinha.

Garçons.

Funcionários entrando e saindo.

Henrique assistiu em silêncio.

"Esse é o momento em que sua esposa passa pelo corredor lateral."

Camila apareceu no vídeo.

Henrique apertou os maxilares.

"Continue."

O delegado avançou alguns minutos.

"Agora veja isso."

Antes de Camila aparecer, um homem de terno escuro entrou pela porta de serviço da cozinha.

Ele falou rapidamente com um funcionário.

Depois desapareceu por alguns segundos exatamente na área onde os pratos da mesa principal estavam sendo finalizados.

Quando o homem virou o rosto para a câmera, Henrique parou de respirar.

Conhecia aquele sorriso.

Aquele jeito de andar.

Aquele homem entrava em sua casa sem avisar.

Tinha acesso ao seu escritório.

Conhecia seus negócios.

Conhecia Lucas desde o nascimento.

Henrique aproximou o rosto da tela.

"Não pode ser."

O delegado olhou para ele.

"O senhor conhece?"

Henrique não desviou os olhos da imagem.

"Bruno Vasconcelos."

Sua voz saiu quase sem som.

"Meu primo."

O vídeo continuou.

Bruno olhou para os dois lados.

Então enfiou a mão no bolso interno do paletó e caminhou diretamente em direção à bancada onde estava o prato de Henrique.

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