"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 9
O salão principal da Fazenda dos Reis estava iluminado por dois lustres de cristal.
Cerca de duzentas pessoas enchiam o espaço – empresários de terno, mulheres de vestido longo, políticos com sorrisos ensaiados.
Victor Silveira estava no palco, ajustando o microfone.
Ele vestia um terno cinza-escuro e um sorriso que não saía do rosto havia horas.
A mesa da diretoria estava disposta à frente do palco, com cadeiras vazias para os acionistas.
Victor bateu duas vezes no microfone para testar o som.
– Senhoras e senhores, boa noite.
O salão ficou em silêncio.
– Esta noite é um marco para a Fundação Costa. Depois de doze anos de liderança dedicada, nosso querido fundador, Luca Costa, não tem mais condições físicas de conduzir os negócios.
Murmúrios percorreram a plateia.
Victor ergueu a mão para pedir silêncio.
– Por isso, realizaremos a votação para a nova diretoria executiva. Com a ausência de Luca, a sucessão natural recai sobre mim, que estive à frente das operações durante toda esta década.
Ele fez uma pausa e olhou para a porta principal.
– Convidamos Luca a comparecer para validar o processo, mas ele não pôde – ou não quis – estar aqui.
Alguém na plateia tossiu.
Victor abriu um envelope sobre o pódio.
– Portanto, declaro aberta a votação para...
A porta do salão se abriu.
Não com estrondo, mas com um rangido longo.
Todos viraram a cabeça.
Luca estava na entrada.
Ele não estava na cadeira de rodas.
Ele estava de pé.
As mãos seguravam duas muletas de madeira escura.
O terno era preto, a camisa branca, a gravata prata.
Ele deu um passo.
O salão inteiro prendeu a respiração.
Outro passo.
As muletas batiam no piso de mármore com um som seco e rítmico.
Victor empalideceu.
A folha de papel caiu da mão dele.
– Isso... isso é impossível.
Luca continuou andando.
Cada passo era lento, arrastado, mas firme.
O corredor central se abria enquanto os convidados recuavam para os lados.
Maya estava no balcão superior, com Elena ao lado.
Ela não gritou. Apenas olhou.
Elena segurava a mão da filha com força.
Luca chegou a cinco metros do palco e parou.
Ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para Victor.
– Estou aqui, Victor. Como você pediu.
Victor deu um passo para trás.
O microfone caiu no chão com um estrondo metálico.
– Seus exames... os laudos... tudo dizia que você nunca mais andaria.
– Porque você falsificou os laudos – respondeu Luca, com a voz calma. – E porque você me envenenou há doze anos.
Um murmúrio explosivo varreu o salão.
Victor balançou a cabeça rapidamente.
– Isso é mentira! O senhor está delirando!
Luca apoiou-se em uma das muletas e ergueu a mão livre.
Almeida apareceu ao lado do palco com um laptop aberto.
– Tenho aqui o laudo toxicológico que comprova o veneno no meu sangue. Tenho o depoimento da enfermeira Lúcia, que confessou ter tentado me matar na madrugada do dia 8. E tenho os registros bancários da compra da toxina por uma offshore ligada a você.
Victor abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Os seguranças de Luca – homens de terno escuro – começaram a se posicionar ao redor do salão.
Luca soltou a muleta esquerda e se apoiou apenas na direita.
O corpo balançou, mas ele se firmou.
– Durante doze anos, você me roubou a mobilidade, a dignidade e o controle do meu império. Mas você não conseguiu me roubar a vida.
Victor deu mais um passo para trás.
Ele olhou para a saída lateral.
Dois seguranças bloquearam o caminho.
– Não adianta fugir, Victor – disse Luca. – A Polícia Federal já está aqui.
A porta lateral se abriu.
Três homens de jaleco azul entraram.
O delegado à frente mostrou um mandado.
– Victor Silveira, você está preso por tentativa de homicídio, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro.
Os agentes avançaram.
Victor tentou correr, mas foi derrubado antes de dar três passos.
As algemas fecharam com um clique.
O salão inteiro assistiu em silêncio.
Victor foi arrastado para fora, gritando:
– Vocês não têm provas! Isso é armação!
Mas a porta já estava fechada.
O silêncio tomou conta do salão.
Luca ficou parado, apoiado na única muleta.
Ele olhou para a plateia.
Ninguém se mexia.
– Meu nome é Luca Costa – disse ele, com a voz que atravessou cada canto do salão. – Eu fui envenenado, mas não fui derrotado. Passei doze anos numa cadeira de rodas, mas estou aqui, em pé, na frente de vocês.
Ele fez uma pausa.
– A partir de hoje, vou reconstruir minha empresa. Minha família. Minha vida.
Aplausos tímidos começaram.
Depois, cresceram.
Uma onda de palmas tomou o salão.
Luca não sorriu.
Ele apenas olhou para o balcão superior.
Maya estava de pé, os olhos brilhando.
Ela levantou a mão e acenou.
Luca acenou de volta com a mão livre.
Elena estava ao lado da filha, as duas mãos sobre o corrimão.
Ela não aplaudia. Apenas olhava.
Luca segurou o olhar dela por um longo instante.
Depois, virou-se e caminhou lentamente em direção ao palco.
Cada passo era uma vitória.
As muletas batiam no chão.
Esquerda, direita, esquerda, direita.
Ele subiu os três degraus do palco com um esforço visível.
No topo, apoiou-se no pódio e soltou a muleta.
Ficou em pé sozinho.
– Eu juro, na frente de todos vocês: nunca mais vou sentar.
A plateia explodiu em palmas.
Luca segurou o pódio com as duas mãos.
Olhou para as pessoas, para os acionistas, para os funcionários.
Todos aplaudiam.
Ele não desviou o olhar do balcão.
Maya ainda estava lá.
Agora ela não estava mais acenando.
Ela dançava.
Uma dança pequena, contida, entre as pessoas.
Luca viu.
A perna dele tremeu.
– Obrigado – murmurou, tão baixo que ninguém ouviu.
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