"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 7
Era madrugada na Fazenda dos Reis. Luca dormia no quarto do segundo andar, com a porta fechada e as cortinas abertas para a lua.
Um barulho de passos abafados veio da varanda lateral – não do corredor principal. Uma figura encapuzada subia a escada de serviço, magra e ágil, com luvas de borracha nas mãos e uma seringa de líquido azulado na direita.
Ela parou diante da porta do quarto, girou a maçaneta, mas estava trancada. A figura tirou um grampo do bolso, inseriu no cadeado e mexeu até ouvir um clique seco, abrindo a porta.
Dentro do quarto, Luca dormia de costas, respirando fundo. A figura aproximou-se da cama, ergueu a seringa e a agulha brilhou sob a luz da lua.
Maya não conseguia dormir naquele quarto ao lado de Elena. Um ranger de porta a acordou – não alto, mas distinto.
Ela se levantou silenciosamente, foi até a janela e viu uma sombra atravessando a varanda. A sombra entrou no quarto do pai.
Maya apertou os olhos e viu o braço erguido, a seringa na mão. Ela correu sem acordar a mãe, descalça pelo corredor, os pés batendo no piso de madeira com um tlec, tlec, tlec.
Abriu a porta do quarto de Luca e parou no batente. – Papai! – gritou.
A mulher encapuzada virou-se, assustada, e a seringa caiu da mão, espalhando líquido azulado no chão.
Luca acordou num pulo, a mão já embaixo do travesseiro apertando o botão de alarme. A mulher correu para a varanda enquanto o som agudo do alarme ecoava pelo casarão.
– Maya, fecha a porta! – ordenou Luca.
Ela fechou, ofegante, o rosto pálido. Os seguranças já corriam pelo corredor.
Luca sentou-se na cama e olhou para Maya. – Você viu quem era?
– Uma mulher de capuz. Ela ia te furar com uma agulha.
Luca apontou para a seringa no chão. – Não toca nisso.
– Não vou tocar.
Roberto entrou com outros dois homens, todos armados. – Patrão! O que houve?
– Tentaram me envenenar. A menina viu e espantou a intrusa. Ela fugiu pela varanda.
Roberto correu até a varanda, olhou para baixo e sacudiu a cabeça. – Sumiu, senhor. Mas vou cercar a propriedade.
– Leve essa seringa – disse Luca, indicando o objeto. – Guarde em lugar seguro. É prova.
Roberto pegou a seringa com um lenço e saiu com os seguranças.
Luca virou-se para Maya, que ainda tremia na porta. – Você está bem?
– Estou.
– Não devia ter vindo correndo sozinha.
– Se eu não tivesse vindo, ela te furaria.
Luca não respondeu. Ele pegou o telefone e discou para Almeida. – Acorde e venha ao meu quarto. Agora.
Cinco minutos depois, Almeida chegou de pijama. – O que houve?
– Tentaram me envenenar de novo. A seringa caiu, Maya viu a mulher. – Luca apontou para o chão. – As câmeras pegaram alguma coisa?
– Vamos verificar agora – disse Almeida, anotando rapidamente a descrição que Maya deu: mulher magra, mais baixa que Elena, capuz, tênis branco.
Almeida saiu para revisar as gravações. Luca olhou para Maya. – Vou te levar de volta pro seu quarto.
– Não. Quero ficar aqui.
– Não pode.
– E se ela voltar?
– Ela não vai voltar. O alarme tocou, a propriedade está cercada.
Maya cruzou os braços, mas obedeceu. Na porta, ela parou. – Pai?
– O quê?
– Quando descobrir quem é, me conta.
– Vou contar.
Ela saiu, e Luca ficou sozinho, olhando o líquido azulado no chão. Ele tocou com a ponta do dedo – frio, viscoso, igual ao veneno de doze anos atrás.
Lavou a mão e sentou-se na cama, sem dormir até o amanhecer.
Pela manhã, Almeida voltou com um laptop. – As câmeras capturaram a fuga, mas o rosto está coberto. Só dá para ver o tênis – branco com detalhes azuis.
Luca aproximou o rosto. – Reconheço esse tênis. É da enfermeira de Victor, a Lúcia.
Almeida arregalou os olhos. – Tem certeza?
– Tenho. Já vi ela usando no escritório de Victor.
Luca fechou o laptop com força. – Mande alguém buscar ela no hospital. Traga aqui.
– Com que acusação?
– Tentativa de homicídio. A seringa tem digitais, e o veneno deve estar no carro dela.
Almeida saiu para dar as ordens. Luca chamou Roberto. – Reforce a segurança. Ninguém entra ou sai sem minha autorização.
– Sim, senhor.
– E leve a seringa para o laboratório de Garcia. Quero saber se é o mesmo composto da toxina antiga.
Roberto saiu, e Luca voltou à janela. Lá embaixo, Maya já estava no campo de beisebol, dançando devagar, os braços abertos, o sol da manhã brilhando em seus cabelos.
Ele a observou por um longo minuto, depois desceu para o porão.
Clara já estava montando os equipamentos. – Ouvi o que aconteceu.
– Não importa. Vamos treinar.
– O senhor está abalado, suas mãos tremem.
Luca olhou para as próprias mãos – tremiam, sim. – Vamos treinar – repetiu.
Clara conectou os eletrodos e ligou a corrente. Os músculos das pernas de Luca contraíram, e ele se levantou apoiado nas barras.
– Conta – disse ele.
– Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze.
Ele caiu de volta na cadeira, ofegante, mas havia ficado quinze segundos. – Amanhã, vinte – afirmou.
– Amanhã, vinte – repetiu Clara.
Luca olhou para o teto do porão. – O baile é em doze dias. Até lá, quero andar.
Clara estudou as pernas dele por um instante. – Vai ser difícil, mas não é impossível.
– Então vamos fazer.
Naquela tarde, Lúcia foi presa na porta do hospital. Os seguranças encontraram uma seringa idêntica no porta-malas do carro dela, com o mesmo veneno.
Interrogada, ela confessou: Victor Silveira ordenou o ataque. A ordem era "matar antes do baile" para evitar qualquer surpresa.
Luca leu o depoimento sem esboçar reação. Guardou o papel na gaveta e virou-se para Almeida. – Cuide dela. Ela vai testemunhar contra Victor no baile.
– Sim, senhor.
Luca pegou a carta de Victor – a que ele havia amassado na noite anterior – e desamassou. Leu a última linha: "Sua presença é essencial para a validação do processo."
Ele tocou o papel com a ponta dos dedos. – Vou estar lá, Victor. E vou andar.
Fechou a gaveta e voltou a olhar pela janela. Maya ainda dançava no campo, agora com Tommy ao lado, arremessando bolas. A rotina continuava.
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