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"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 5

正文开头

O porão da Fazenda dos Reis era um lugar que ninguém visitava.

Ali ficavam as caldeiras, os canos antigos e o painel elétrico principal.

Naquela manhã, porém, ele estava diferente.

Almeida mandara limpar o espaço nos fundos.

Barras de metal foram fixadas no chão. Uma bicicleta ergométrica apareceu ao lado da parede.

Equipamentos de estimulação elétrica estavam dispostos sobre uma mesa de aço.

Luca chegou às seis da manhã, empurrado por Almeida.

– O Dr. Garcia já está aqui – disse Almeida. – E a fisioterapeuta também.

Luca olhou para as barras.

– Nome dela?

– Clara Mendes. Trabalhou no centro de reabilitação do Hospital das Clínicas. É discreta.

Clara apareceu da porta dos fundos.

Era uma mulher alta, de cabelos presos e olhos castanhos.

– Sr. Costa – disse ela, estendendo a mão. – Vamos começar devagar.

Luca apertou a mão dela. – O que eu faço?

– Primeiro, vamos tentar estimular os nervos com corrente elétrica de baixa intensidade. O senhor vai sentir formigamento.

Clara conectou os eletrodos nas coxas dele.

A corrente ligada produziu um zumbido baixo.

Luca sentiu o músculo contrair.

– Isso é bom? – perguntou.

– Isso é um sinal de que os nervos estão respondendo. – Clara ajustou a intensidade. – Agora, tente levantar o pé direito.

Luca olhou para o pé.

Ele concentrou a força.

O pé não se mexeu.

– De novo – disse Clara.

Ele tentou de novo.

Nada.

– Os músculos estão atrofiados – explicou ela. – Vai levar tempo até o cérebro reconectar o comando.

– Quanto tempo?

– Depende. Pode ser semanas. Pode ser meses. Mas o senhor tem vantagem: os nervos estão inteiros.

Clara desligou a corrente.

– Agora, vamos tentar ficar em pé com apoio.

Ela puxou Luca pela mão.

Almeida veio do outro lado.

Os dois o seguraram pelos braços e o levantaram da cadeira.

Luca sentiu o peso do corpo descer sobre as pernas.

As pernas não seguraram.

Elas dobraram imediatamente.

– Não force – disse Clara. – Só apoie o peso por um segundo.

Luca apoiou.

Sentiu a coxa direita tremer.

A esquerda não respondeu.

– Tirem – ordenou.

Eles sentaram ele de volta na cadeira.

– Já é um começo – disse Clara, anotando algo num bloco. – Amanhã repetimos.

No dia seguinte, Luca voltou.

No terceiro dia, Maya apareceu.

Ela desceu a escada do porão sem fazer barulho.

Luca estava pendurado nas barras paralelas, os braços segurando o peso, as pernas balançando.

Maya sentou num tambor de cabo e ficou observando.

– O que o senhor tá fazendo?

Luca virou a cabeça. – Como você entrou aqui?

– Pela escada de serviço. O senhor não mandou trancar.

– Vou mandar trancar.

– Não tranca, não. Deixa eu ver.

– É chato.

– Não é. – Maya cruzou as pernas. – É legal ver o senhor tentando.

Clara entrou com os eletrodos.

正文1

– Quem é essa menina?

– A filha dele – respondeu Maya, antes que Luca pudesse falar.

Clara ergueu uma sobrancelha. – Sua filha?

– É uma longa história – disse Luca. – Deixa ela ficar.

Clara conectou os eletrodos.

A corrente ligou.

O músculo da coxa direita contraiu violentamente.

Luca apertou os dentes.

– Dói? – perguntou Maya.

– Um pouco.

– Tá quase lá – disse ela.

– Quase o quê?

– Quase acordando.

Luca não respondeu.

Ele segurou nas barras e tentou esticar a perna direita.

A perna foi.

Dois centímetros.

Luca suava.

– Mais – disse Clara.

Ele esticou mais dois.

A perna tremia.

– Solta a barra esquerda – ordenou Clara. – Só a direita.

Luca soltou a mão esquerda.

O corpo pendeu para o lado direito.

A perna direita segurou o peso por um segundo.

Luca caiu de volta na cadeira.

– O senhor ficou em pé! – gritou Maya, pulando do tambor. – Eu vi! Um segundo!

– Um segundo não é nada – disse Luca, ofegante.

– É tudo – respondeu Maya. – Amanhã vai ser dois.

Naquela noite, enquanto Luca descansava, Victor Silveira estava em seu escritório no centro de São Paulo.

Ele folheava um relatório financeiro com um sorriso preguiçoso.

Ao lado dele, um homem de terno cinza, baixo e calvo, falava ao telefone.

– O baile está marcado para o dia 20 – disse o homem calvo. – Todos os acionistas confirmaram presença.

Victor ergueu o copo de uísque. – E nosso amigo Luca? Soube de alguma movimentação?

– Nenhuma. Continua na fazenda, trancado no quarto.

– Ótimo. – Victor bebeu um gole. – No baile, vamos votar a transferência total de poder. Ele vai assinar os papéis ou vai ser declarado incompetente.

– E se ele resistir?

– Ele não vai resistir. – Victor colocou o copo na mesa. – Ele está na cadeira há doze anos. Não tem força para resistir a nada.

O homem calvo assentiu e desligou o telefone.

Victor olhou para a janela.

– Vinte de setembro – murmurou. – Essa data vai mudar tudo.

De volta à fazenda, Luca não sabia da reunião de Victor.

Ele estava na cama, com as pernas cobertas por compressas quentes.

Maya entrou sem bater.

– Pai?

– Estou aqui.

– Eu trouxe um negócio.

Ela segurou uma bola de tênis velha.

– O que é isso?

– Minha mãe disse que dá pra apertar com os pés. Pra fortalecer.

Luca pegou a bola. – Ela te mandou trazer?

– Não. Eu achei no quintal. Mas serve.

Luca colocou a bola entre os pés.

Ele apertou.

Os dedos dos pés não se moveram.

– Não vai – disse ele.

– Aperta mais forte.

Ele apertou mais.

O pé direito encolheu levemente.

A bola não saiu do lugar, mas o pé se mexeu.

– Vi? – disse Maya. – Amanhã a bola vai amassar.

Luca olhou para o pé.

O pé ainda estava imóvel, mas ele tinha sentido a contração.

– Onde você aprendeu isso?

– Na escola. Uma menina da minha sala machucou o pé. A fisioterapeuta deu uma bola igual.

– Você é muito observadora.

– Sei. – Ela sentou na beira da cama. – O senhor vai me contar quem fez isso?

– Não sei quem fez.

– Mas vai descobrir?

– Vou.

– E aí vai fazer o quê?

Luca olhou para a janela escura.

– Vou dar um fim nisso.

Maya ficou em silêncio por um instante.

Depois, levantou e foi até a porta.

– Amanhã eu danço de novo – disse ela. – Quanto mais eu dançar, mais sua perna mexe.

– Por que você acha isso?

– Porque eu vi. – Ela sorriu. – Sempre que eu danço, sua perna acorda. Então vou dançar todo dia.

Ela saiu e fechou a porta.

Luca ficou com a bola entre os pés.

Ele apertou de novo.

O pé direito contraiu.

Ele apertou mais forte.

O pé esquerdo também se mexeu.

Luca respirou fundo.

Ele colocou a bola no chão e tentou pegar com os dedos.

Não conseguiu.

Mas tentou de novo.

E de novo.

Até cair no sono, com a bola ainda no pé.

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