"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 4
Dr. Almeida chegou na manhã seguinte, com uma pasta preta e um homem magro de óculos.
O homem se apresentou como Dr. Ronaldo Garcia, toxicologista do Hospital Sírio-Libanês. Garcia carregava uma maleta de couro e um semblante sério.
– Ninguém sabe que o senhor está aqui – disse Luca, apontando a cadeira na frente da mesa. – E ninguém vai saber.
Garcia assentiu. – Entendo a discrição, Sr. Costa. O Dr. Almeida me explicou que o senhor quer uma toxicologia completa.
– Não quero a toxicologia de rotina. Quero uma análise específica. – Luca abriu a gaveta e tirou um envelope. – Quero que procurem por compostos sintéticos de ação neurodepressora, especialmente os que mimetizam lesão medular.
Garcia ergueu as sobrancelhas. – Isso é muito específico.
– Tenho um palpite.
– Baseado em quê?
– Em uma criança que disse que minha perna tremeu.
Garcia olhou para Almeida, que apenas balançou a cabeça.
– Vamos precisar de amostras de sangue e tecido adiposo – disse Garcia. – E, com sua permissão, um exame de imagem da coluna.
– Faça tudo. Mas em sigilo absoluto. – Luca passou um cartão pela mesa. – Use esse laboratório. É meu. Ninguém lá fala com ninguém de fora.
Garcia guardou o cartão e começou a preparar os equipamentos.
Duas horas depois, ele saiu com as amostras e a promessa de resultados em três dias.
Luca ficou sozinho no escritório.
Maya entrou pelos fundos, como de costume, com um copo de suco na mão.
– O senhor tá pálido – disse ela, sentando na cadeira.
– Estou cansado.
– O que o senhor fez hoje?
– Fiz uns exames.
– De sangue?
– Sim.
– Dói?
– Um pouco.
Maya bebeu um gole de suco. – Quando sai o resultado?
– Três dias.
– E aí o senhor descobre se suas pernas estão mesmo dormindo?
– Isso.
– E se estiverem, o que faz?
Luca encarou a menina. – Não sei. Ainda estou pensando.
Maya inclinou a cabeça. – O senhor devia descobrir quem colocou elas pra dormir.
Luca parou de respirar por um instante.
– O que você disse?
– Quem colocou elas pra dormir – repetiu Maya, com naturalidade. – Se elas são dormindo, alguém fez isso, né? As pernas não dormem sozinhas do nada.
Luca se inclinou sobre a mesa. – O que você sabe sobre isso?
– Nada. Só acho. Minha mãe diz que tudo tem uma causa.
Ela terminou o suco e colocou o copo na mesa.
– Amanhã eu volto – disse, saindo pela porta. – Tenta mexer a perna hoje de novo.
Luca ouviu os passos dela sumirem no corredor.
Ele pegou o copo vazio e ficou olhando para ele.
Quem colocou elas pra dormir?
Aquela pergunta ecoou na cabeça dele o dia inteiro.
Três dias depois, Garcia voltou com a pasta preta.
Dessa vez, ele não estava sozinho. Almeida veio junto, com o rosto tenso.
– Senta – disse Luca, fechando a porta.
Garcia abriu a pasta e colocou os laudos sobre a mesa.
– O senhor tinha razão, Sr. Costa.
– Mostre.
Garcia virou o primeiro documento. – Não há lesão medular estrutural. A coluna está íntegra.
Luca apertou os olhos. – Então por que estou paralisado?
– Porque uma substância específica bloqueou a transmissão nervosa por doze anos. – Garcia apontou para um gráfico. – Trata-se de uma neurotoxina sintética, provavelmente administrada por via oral ou intravenosa durante um período de três a seis meses.
– Que substância?
– O nome químico é longo. Basicamente, ela se liga aos receptores de sódio na medula e impede a condução do impulso. Os nervos estão intactos, mas foram silenciados.
Luca olhou fixamente para o papel. – E agora? É reversível?
– Sim, em tese. – Garcia inclinou-se para a frente. – Com fisioterapia intensiva e estímulo elétrico, as vias podem ser reativadas. O dano não é permanente, mas o tempo de desuso causou atrofia grave.
– Quanto tempo para andar?
– Depende do seu esforço. Mas, biologicamente, não há nada que impeça sua recuperação total.
Luca fechou os olhos por um instante.
Depois, abriu.
– Quem poderia ter feito isso?
Garcia hesitou. – A toxina é industrial. Não é de venda livre. Somente laboratórios com acesso a compostos controlados poderiam produzi-la.
Luca virou-se para Almeida. – Eu tenho um contato. Investigue. Quero saber quem comprou essa substância nos últimos quinze anos.
– Sim, senhor.
Garcia guardou os papéis. – O senhor deveria começar a fisioterapia imediatamente.
– Farei. Em segredo.
– Mas...
– Eu disse em segredo. – Luca levantou a mão. – Não conte a ninguém. Nem aos meus médicos pessoais.
– Por quê? – perguntou Almeida.
– Porque se eu descobrir que alguém me envenenou, essa pessoa ainda está aqui. Provavelmente perto de mim. Se ela souber que estou reagindo, pode agir de novo.
Almeida assentiu, compreendendo.
– Vou arrumar uma equipe de confiança – disse Garcia. – Só três pessoas.
– Faça isso. Mas antes, me dê um momento.
Garcia e Almeida saíram.
Luca ficou sozinho com a pasta.
Ele folheou os laudos, leu os números, as siglas.
Depois, segurou o segundo envelope que Almeida havia deixado sobre a mesa.
Era o teste de paternidade que ele solicitara em paralelo – apenas por precaução, por causa do olhar de Elena, por causa da idade de Maya, por causa do verão de doze anos atrás.
Ele abriu.
Lendo a primeira linha, o rosto não se moveu.
Na segunda, os dedos começaram a tremer.
A probabilidade: 99,9997%.
Luca deixou o papel cair sobre a mesa.
Ele olhou pela janela.
O campo de beisebol estava vazio. O sol brilhava.
Ele não piscou.
Respirou fundo três vezes.
Então, apertou o botão do interfone.
– Elena – disse, com a voz neutra. – Venha ao escritório, por favor.
Elena entrou cinco minutos depois.
Ela estava com o avental de cozinha, as mãos ainda úmidas.
– O senhor chamou, Sr. Costa?
– Senta.
Ela sentou, com a expressão cautelosa.
Luca empurrou a pasta para o lado dela.
– Leia.
Ela olhou para a pasta, depois para ele.
– O que é isso?
– Leia.
Ela abriu.
Começou a ler o laudo toxicológico.
Os olhos se arregalaram.
Ela levou a mão à boca.
– Isso... é verdade?
– É verdade. Não houve AVC. Não houve lesão. Fui envenenado.
Ela largou o papel como se queimasse.
– Quem fez isso?
– Ainda não sei. Mas a pessoa está aqui. Na minha equipe.
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
– Por que está me mostrando isso?
Luca pegou o segundo envelope e colocou na frente dela.
– Leia agora.
Ela abriu.
Dessa vez, o rosto ficou branco.
Não pálido. Branco.
Ela leu a linha de porcentagem e largou o papel.
– Não é possível.
– É.
– Mas...
– O verão. Doze anos atrás. Três semanas. Depois eu sumi.
Ela balançou a cabeça. – Você sumiu, sim. E eu nunca soube por quê.
– Porque me envenenaram seis semanas depois da última vez que te vi. Passei meses em coma induzido. Quando acordei, já estava na cadeira.
Ela segurou a borda da mesa.
– Você não sabia sobre a Maya.
– Não sabia.
– E eu não sabia que você havia sido envenenado. Achei que tinha ido embora.
Luca não respondeu.
Ela levantou os olhos para ele.
– Ela vai querer saber.
– Eu sei.
– O que você vai fazer?
Luca encostou-se na cadeira.
– Primeiro, vou andar. Depois, vou encontrar quem fez isso. E, finalmente, vou ser pai dela.
Elena baixou a cabeça.
As lágrimas caíram sobre a mesa.
– Doze anos – sussurrou.
– Doze anos – repetiu Luca. – Mas agora acabou.
Ele empurrou o interfone de novo.
– Almeida, entre.
Almeida apareceu.
– Organize a fisioterapia. Começa amanhã. E ninguém – repito, ninguém – pode saber.
– Sim, senhor.
Luca virou-se para Elena.
– Amanhã, às sete, você traz Maya aqui. Vou contar a ela. Mas hoje, quero que você descanse.
Ela enxugou o rosto com as costas da mão.
– Você vai mesmo andar?
– Vou.
Ela olhou para ele por um longo segundo.
Depois, levantou-se e saiu sem dizer mais nada.
Luca ficou olhando a porta fechada.
Ele abaixou os olhos para as próprias pernas.
– Amanhã – disse, em voz baixa – a gente começa.
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