"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 3
Na manhã seguinte, Luca estava no escritório.
A mesa de mogno estava coberta de papéis.
Ele não lia nenhum.
A caneta estava parada entre os dedos.
A porta do escritório estava aberta.
Maya apareceu no batente.
Ela segurava um caderno e um lápis com a borracha roída.
– Oi, patrão. Posso entrar?
– Entra.
Maya entrou e subiu na cadeira em frente à mesa.
– Minha mãe disse que o senhor estudou muito.
– Estudei.
– Então pode me ajudar com a lição de matemática?
– Pode deixar.
Maya abriu o caderno.
A página estava cheia de contas rabiscadas.
– A professora ensinou divisão, mas eu não entendi.
Luca pegou o caderno.
Ele leu a primeira conta.
– Você soma os números primeiro?
– Não sei. Por isso pedi ajuda.
Luca virou o caderno para ela e mostrou com a ponta da caneta.
– Primeiro você multiplica. Depois soma.
– Por quê?
– Porque é a regra.
– Quem inventou essa regra?
– Não sei. Mas funciona.
Maya pegou o lápis e copiou o que ele mostrou.
Ela resolveu a conta.
– Deu certo – disse, surpresa.
– Vai na próxima.
Ela resolveu mais três.
Acertou todas.
– O senhor é bom nisso – disse ela.
– É só prática.
– A senhora que ensinou? – perguntou Maya, sem levantar os olhos do caderno.
Luca ficou em silêncio por um segundo.
– Minha mãe.
– Ela era professora?
– Era.
– Ela ainda é viva?
– Não.
Maya ergueu os olhos.
– Sinto muito.
– Não precisa.
– Tá bom. – Ela virou a página. – Essa aqui eu não sei.
Ela se inclinou sobre a mesa para mostrar a conta.
O braço esquerdo esticou. A mão aberta.
A mão de Maya pousou no joelho direito de Luca.
Ela não percebeu.
Estava olhando para a conta.
– Essa daqui, o senhor faz como?
Luca não respondeu.
Ele estava olhando para a mão dela.
A mão pequena, quente, apoiada sobre a calça.
O joelho tremeu.
Não foi um espasmo.
Foi uma contração.
Luca sentiu o músculo se apertar.
Maya sentiu também.
Ela parou de olhar para o caderno e olhou para a mão.
– O senhor sentiu isso?
– Senti.
– Meu pai? – Ela tirou a mão. – Desculpa. Eu não devia ter encostado.
– Não. – Luca pegou a mão dela e colocou de volta no joelho. – Coloca de novo.
Maya obedeceu.
A mão voltou a tocar o joelho.
O músculo contraiu de novo.
– Aconteceu de novo – disse Maya, com os olhos arregalados.
Luca olhou para o próprio joelho.
A perna não se mexeu visivelmente.
Mas ele sentiu.
– Já aconteceu antes? – perguntou ele.
– Sim – respondeu Maya. – Sempre que eu danço perto. E quando eu sento no degrau. E agora.
– Você não me disse.
– Disse, sim. Ontem eu falei que seu pé mexeu.
Luca lembrou.
Ela falou mesmo.
Ele tinha ignorado.
– Como você sabe que é verdade? – perguntou ele. – Pode ser só um espasmo.
– Eu sei a diferença – disse Maya, com firmeza. – Minha avó tinha espasmos. Era um tremor rápido, igual choque. O seu é diferente. É devagar. Parece que a perna tá querendo fazer força.
Luca olhou para a perna.
A mão de Maya ainda estava lá.
– Tira a mão – disse ele.
Ela tirou.
O joelho parou de tremer.
– Bota de novo.
Ela botou.
O joelho tremeu.
– Mais forte agora – disse ele.
Ela apertou um pouco mais.
A contração foi mais forte.
Luca sentiu o pé se mexer dentro do tênis.
– Tira – disse ele.
Ela tirou.
Ele pegou o caderno e colocou de lado.
– Senta aqui – disse, apontando a cadeira ao lado dele.
Maya sentou.
Luca baixou a mão até a própria coxa.
Ele apertou o músculo com os dedos.
O músculo estava duro.
Ele apertou mais forte.
O joelho tremeu de novo.
– Eu consigo sentir – disse Luca, em voz baixa. – Não é imaginação.
– Claro que não é – disse Maya. – Suas pernas estão dormindo, não mortas.
Luca ergueu a cabeça.
– O que você disse?
– Que elas estão dormindo. Não mortas.
– Como você sabe disso?
– Porque coisas mortas não tentam – respondeu Maya, com a maior simplicidade.
Ela pegou o caderno de novo.
– A senhora pode me ajudar com essa outra conta?
Luca não respondeu.
Ele ficou olhando para a própria mão, ainda apertada na coxa.
– Vou mandar chamar outro médico – disse ele, finalmente.
– Um médico novo?
– Um médico diferente. Um que ninguém conhece.
Maya deu de ombros.
– Tá bom. Mas primeiro me ensina essa conta.
Luca virou o caderno.
Ele mostrou a resolução.
Maya copiou.
– Pronto – disse ela. – Agora tô indo. Minha mãe disse que eu tenho que ajudar na cozinha.
Ela fechou o caderno e desceu da cadeira.
Na porta, ela parou.
– Meu pai?
– O quê?
– Amanhã eu volto. E danço mais perto.
– Está bem.
– E tenta mexer sua perna hoje. Só um pouquinho.
– Vou tentar.
– Não tente. Faça.
Maya saiu correndo.
Luca ficou sozinho.
Ele olhou para a perna.
Estendeu a mão e apertou a coxa.
O músculo contraiu.
Ele tentou levantar o pé.
Nada.
Tentou de novo.
Nada.
Apertou mais forte.
O pé se moveu.
Um centímetro.
Só um centímetro.
Mas se moveu.
Luca baixou a mão.
Ele respirou fundo.
Aperta de novo.
O pé se moveu outro centímetro.
Ele olhou para o telefone.
Discou um número.
– Dr. Almeida? – disse ele, com a voz firme. – Preciso de um médico. Um de confiança. Que não trabalhe com o Victor.
Almeida, do outro lado, hesitou.
– Algum problema, senhor?
– Problema não. Uma suspeita.
– O que o senhor suspeita?
– Não vou dizer pelo telefone. Arrume alguém. Hoje.
– Sim, senhor.
Luca desligou.
Ele olhou para a perna de novo.
Levantou o pé.
Dois centímetros.
Doeu.
Ele levantou mais um.
Doeu mais.
Ele colocou o pé no chão e desistiu.
Mas ele tinha visto.
Tinha sentido.
Tinha feito.
Ele não contou para ninguém.
Não contou para Elena.
Não contou para os seguranças.
Só Maya sabia.
E ela tinha razão.
As pernas não estavam mortas.
Estavam dormindo.
E agora ele sabia.
À noite, Luca estava no quarto.
Os médicos foram embora.
As enfermeiras também.
Ele estava sozinho.
A cadeira de rodas estava no canto.
Ele olhou para ela.
Depois olhou para a cama.
Ele colocou as mãos nos braços da cadeira.
Empurrou para cima.
O tronco subiu.
As pernas ficaram penduradas.
Ele se equilibrou nos braços.
As pernas balançaram.
Uma fisgada.
Na coxa direita.
Ele sentiu.
Segurou o peso do corpo com os braços.
Não soltou.
A fisgada passou.
Ele desceu de volta para a cadeira.
Suava.
Os braços tremiam.
Mas ele tinha feito.
Tinha se levantado.
Não com as pernas.
Com os braços.
Mas tinha levantado.
Ele olhou para a perna direita.
O pé estava virado para a esquerda.
Ele não tinha virado.
O pé virou sozinho.
Luca ficou olhando.
Depois, desviou o olhar.
Ele não sorriu. Só desviou.
Deitou na cama e apagou a luz.
No escuro, ele sentiu a perna tremer de novo.
Não fez força para parar. Deixou tremer.
Ela estava acordando.
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