"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 2
Maya voltou no dia seguinte.
Ela veio pelo mesmo buraco na cerca, com a mesma sola solta batendo no chão.
Dessa vez, trouxe um garoto.
Ele era um pouco mais alto que ela. Usava uma camiseta surrada e um boné azul com a aba torta.
Os dois pararam no meio do gramado e olharam para a varanda.
Luca estava lá, na cadeira de rodas.
Maya acenou.
– Oi, patrão! Trouxe um amigo.
O garoto não acenou.
Ele cruzou os braços e franziu a testa.
– Esse é o tal do bilionário? – perguntou, em voz baixa, mas Luca ouviu.
– Chama ele pra cá – disse Luca.
Maya puxou o braço do garoto e subiu os degraus.
O garoto parou a um metro de distância de Luca.
– Qual é o seu nome? – perguntou Luca.
– Tomás. Mas pode chamar de Tommy.
– Tommy, você não parece muito feliz de estar aqui.
– Não sou mesmo – respondeu Tommy. – Minha mãe disse que rico é tudo igual. Ajuda até cansar, depois some.
– Sua mãe disse isso?
– Disse. E ela tá certa.
Luca olhou para Tommy por um longo segundo.
– Senta aí – disse, apontando o degrau.
Tommy não sentou.
Maya sentou e puxou a barra da camisa dele.
– Senta, Tommy. Ele é legal.
Tommy bufou, mas sentou.
Silêncio.
O vento balançava as folhas do ligustro.
– O que você faz aqui o dia inteiro? – perguntou Tommy, finalmente.
– Fico aqui – respondeu Luca.
– Só isso?
– Só isso.
– Que desperdício – disse Tommy, olhando para o campo de beisebol. – Aquele campo tá abandonado. Dava pra jogar bola.
– Você joga? – perguntou Luca.
– Jogo tudo. Bola, peteca, futebol. Menos beisebol. Nunca aprendi.
Luca apontou para o canto da varanda, onde uma caixa de madeira guardava bolas e tacos.
– Pega.
Tommy olhou para a caixa, depois para Luca.
– Pode pegar mesmo?
– Pode.
Tommy levantou-se, abriu a caixa e tirou uma bola de beisebol.
Era velha, mas ainda firme.
Ele apertou a bola na mão, sentiu o peso.
– Isso é de verdade? – perguntou.
– Comprei há onze anos. Nunca usei.
– Por quê?
– Não tinha com quem jogar.
Tommy olhou para a bola, depois para o campo.
– Aquele muro ali é o gol?
– É o backstop. Serve pra isso.
Tommy caminhou até o campo, parou na base principal, e arremessou a bola contra o muro.
A bola bateu no metal com um estalo seco.
Ecoou pela propriedade.
Tommy arremessou de novo.
Estalo.
De novo.
Estalo.
Maya desceu os degraus e correu até ele.
– Me ensina a arremessar.
Tommy entregou a bola a ela.
– Pega assim – disse, mostrando os dedos. – Aponta pro muro e solta.
Maya arremessou.
A bola subiu torta e caiu no capim, a dois metros do muro.
Tommy riu.
– Quebrada.
– Você que ensinou errado – respondeu Maya, rindo também.
Ela pegou a bola e arremessou de novo.
Dessa vez, acertou o muro.
– Acertei! – gritou.
Luca observava da varanda.
Não sorria. Mas não desviava o olhar.
Tommy pegou a bola de volta e caminhou até a varanda.
Ele parou na frente de Luca.
– Por que você tem isso aqui se nunca usa?
– Construí para um filho que não veio.
Tommy franziu o cenho.
– Mas você tem filho?
– Não.
– Então por que construiu?
– Porque na época eu achava que ia ter.
– E o que aconteceu?
– A vida aconteceu.
Tommy ficou em silêncio.
Ele olhou para a bola, depois para Luca.
– Isso é triste – disse.
– É – respondeu Luca.
Tommy sentou no degrau de novo.
Ele ficou rodando a bola entre as mãos.
– Seu pai jogava com você? – perguntou Luca.
– Meu pai foi embora quando eu tinha três anos – respondeu Tommy. – Não lembro dele.
– Sinto muito.
– Não precisa. Minha mãe é quem importa.
Luca assentiu.
– Isso é verdade.
Maya subiu os degraus ofegante.
– Pai? – chamou. – O senhor pode ensinar a gente a rebater?
Luca olhou para a cadeira de rodas.
– Eu não consigo.
– Claro que consegue – disse Maya. – É só segurar o taco e mostrar.
Ela pegou o taco na caixa e colocou na mão de Luca.
O peso do taco surpreendeu Luca.
Ele não segurava um taco há doze anos.
– Aperta firme – instruiu Tommy. – Segura com as duas mãos.
Luca ajustou os dedos ao redor do cabo.
A madeira era lisa e fria.
Ele levantou o taco e o apoiou no ombro.
– Assim?
– Assim – confirmou Tommy.
Maya jogou uma bola de leve em direção a ele.
Luca balançou o taco.
A bola passou longe.
– Errou – disse Maya.
– Tenta de novo – disse Tommy.
Ele pegou outra bola e arremessou lentamente.
Luca balançou de novo.
O taco acertou a bola no ar.
A bola subiu reta, fez um arco e caiu lá no fundo do campo.
Maya deu um pulo.
– Acertou!
Tommy arregalou os olhos.
– Caramba. O senhor tem força nos braços.
Luca olhou para o taco.
– Faz muito tempo que não tento.
– Quer tentar de novo? – perguntou Tommy.
– Quero.
Tommy arremessou outra.
Luca rebateu.
Mais longe.
Maya correu atrás da bola.
Tommy ficou olhando para Luca.
– O senhor não parece um aleijado.
Luca parou o taco no ar.
– O que você quer dizer com isso?
– Quer dizer que seus braços são fortes. E seus olhos também. Minha mãe diz que aleijado só chora. O senhor não chora.
– Não choro mesmo.
– Então o que o senhor faz?
– Espero.
– Espera o quê?
Luca baixou o taco.
– Não sei ainda.
Tommy pegou a bola que Maya trouxe de volta.
Ele a jogou no ar e pegou com uma mão.
– Amanhã eu volto – disse Tommy. – Quero aprender a rebater igual o senhor.
– Volta – disse Luca.
Maya sentou no degrau ao lado de Tommy.
– Viu? Falei que ele é legal.
Tommy deu de ombros.
– Tá, é legal. Mas ainda acho que rico é tudo igual.
– Você vai mudar de ideia – disse Maya.
– Quem sabe – respondeu Tommy.
Ele levantou e foi em direção ao buraco na cerca.
Maya ficou.
Ela olhou para Luca, depois para as pernas dele.
– Você vai tentar mexer hoje? – perguntou.
Luca franziu a testa.
– Mexer o quê?
– Suas pernas.
– Elas não mexem.
– Elas mexem, sim. Eu vi. Ontem, quando você olhou pro campo, seu pé direito tremeu.
Luca olhou para o próprio pé.
O pé estava imóvel.
– Você tá vendo coisa.
– Não tô. – Maya inclinou o corpo para a frente. – Eu danço perto, e o pé mexe. Sempre que eu danço perto.
Ela pulou do degrau e foi para o gramado.
– Olha.
Maya começou a dançar.
Ela girava, pulava, ria.
Luca a observava.
Depois de alguns segundos, ele sentiu algo.
Uma vibração. Na coxa direita.
Ele olhou para baixo.
A perna não se moveu. Mas ele sentiu.
– Viu? – gritou Maya, parando a dança.
– Viu o quê?
– Você sentiu. Eu sei que sentiu. Seu rosto mudou.
Luca não respondeu.
Ele colocou a mão na coxa.
O músculo estava duro.
– O que você sentiu? – perguntou Maya, aproximando-se.
– Não sei – respondeu Luca. – Uma fisgada.
– Isso é bom ou ruim?
– Não sei também.
Maya sentou-se no degrau.
– Amanhã eu danço mais perto. Aí você sente mais forte.
Luca a encarou.
– Por que você está fazendo isso?
– Porque você precisa andar – respondeu Maya, com a maior naturalidade do mundo. – Sua cadeira é feia.
Ela levantou e correu para o buraco na cerca.
– Até amanhã, patrão!
Ela sumiu entre as folhas.
Luca ficou sozinho.
A mão ainda apertava a coxa.
A fisgada tinha passado.
Mas ele ainda sentia o lugar onde ela tinha estado.
Ele olhou para o campo.
O sol estava se pondo.
Tommy tinha ido embora. Maya também.
A propriedade estava quieta.
Mas o taco ainda estava na mão de Luca.
Ele o colocou sobre a mesa.
Olhou para a cadeira de rodas.
Depois olhou para a perna.
Nada aconteceu.
Mas ele lembrou do que Maya disse: Seu pé tremeu.
E ele lembrou da fisgada.
Ele não sabia o que aquilo significava.
Mas sabia que não era nada.
Naquela noite, ele não dormiu.
Ficou acordado, olhando o teto.
A fisgada voltou duas vezes.
Sempre na coxa direita.
Sempre quando ele pensava em Maya dançando.
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