"O Bilionário Que Voltou a Andar" Capítulo 1
O sol ardia no horizonte da Fazenda dos Reis.
Luca Costa estava na varanda, sentado na cadeira de rodas.
Ele olhava o campo de beisebol abandonado. O capim estava alto. As bases, tortas. Ninguém pisava ali há anos.
Um barulho veio do bosque de ligustro.
Farfalho. Galhos se mexendo.
Luca apertou os olhos.
Uma menina espremeu o corpo por um buraco na cerca.
Ela era pequena. Usava um casaco azul enorme e tênis com a sola esquerda solta.
O pé batia no chão fazendo tlec, tlec, tlec.
Ela olhou para o campo, depois para a varanda, depois para o campo de novo.
Então começou a dançar.
Girava, pulava, tropeçava, ria.
O braço direito ia para o alto. O esquerdo ficava caído. Ela não ligava.
Ela rodopiou até ficar tonta e quase caiu.
Segurou-se no ar, deu mais dois passos e parou.
Virou-se e encarou Luca.
– Você parecia triste – disse ela.
Luca não respondeu.
Ela se aproximou da varanda. Subiu os três degraus de pedra sem pedir licença.
– Qual é o seu nome? – perguntou Luca, a voz rouca.
– Maya. Minha mãe trabalha aqui. Ela é a Elena.
– Elena Fernandes?
– Isso. Você conhece ela?
Luca não respondeu.
– Você não respondeu a primeira pergunta – insistiu Maya. – Por que você parece triste?
– Não estou triste.
– Tá certo – disse ela, com um sorriso.
Ela sentou no degrau superior, bem ao lado da roda da cadeira.
– Quer ver eu fazer a parte da volta de novo? Eu errei antes.
Luca a encarou por um segundo.
– Sim – disse.
Ela se levantou, desceu os degraus, voltou ao gramado.
Deu três passos, girou, equilibrou-se na ponta do pé esquerdo e rodopiou.
Dessa vez, não caiu.
Ela parou, ofegante, com os braços abertos.
– Acertei! – gritou.
Ela olhou para Luca, esperando.
Luca sentiu o canto da boca se mexer. Não sorria há anos. Mas aquilo não era um sorriso completo. Era só uma contração.
– Gostou? – perguntou Maya.
– Foi bom – respondeu ele.
Nesse instante, um segurança apareceu do lado direito da varanda.
Era Roberto, homem grande, terno preto, rádio na mão.
Ele caminhou rápido em direção à menina.
– A senhorita não pode estar aqui – disse, com a voz grossa. – Isso é propriedade privada.
Maya olhou para ele sem medo.
Luca levantou a mão.
– Roberto – chamou.
O segurança parou.
– Deixa ela.
Roberto franziu a testa.
– Mas, patrão, ela invadiu a cerca...
– Eu sei o que ela fez – cortou Luca. – Deixa ela. E manda os jardineiros não fecharem aquele buraco.
Roberto abriu a boca, fechou, e acabou assentindo.
– Sim, senhor.
Ele se afastou, ainda confuso.
Maya olhou para Luca com os olhos brilhando.
– Você é o patrão mesmo, né?
– Sou.
– Me falaram que você é bravo.
Luca não disse nada.
– Mas eu não acho não – completou ela.
– O que você acha, então?
– Acho que você só esqueceu como é bom se mexer.
Ela deu um pulo.
– Amanhã eu volto. Aí você me ensina a jogar beisebol.
– Não jogo beisebol – respondeu Luca.
– Então aprende – disse Maya, rindo.
Ela correu de volta para o buraco na cerca e sumiu entre as folhas.
Luca ficou sozinho na varanda.
O vento soprava. As folhas do ligustro se mexiam.
Ele olhou para a cadeira de rodas. Depois para o campo vazio.
Nenhum som. Nenhum movimento.
Ele ficou ali até o sol se pôr completamente.
Duas horas depois, Elena Fernandes bateu na porta do escritório.
Luca estava atrás da mesa, olhando papéis que não lia.
Ela entrou com o rosto pálido. As mãos tremiam levemente.
– Sr. Costa – disse ela, com a voz presa. – Eu vim pedir desculpas. Minha filha invadiu a propriedade. Ela não devia ter feito isso. Vou castigá-la, vou conversar com ela, vai ser a última vez.
– Senta – disse Luca, apontando a cadeira na frente da mesa.
Ela hesitou, mas sentou.
– Ela não vai ser castigada – continuou Luca. – Ela veio, dançou, me fez perguntas. Ninguém me faz perguntas há doze anos.
– Mas ela é só uma criança...
– Exatamente. – Luca inclinou o corpo para a frente. – E ela me viu. Não como um chefe. Não como um aleijado. Ela me viu.
Elena baixou a cabeça.
– Ela sempre foi assim. Não tem medo de nada.
– É uma qualidade.
– É um perigo – respondeu Elena, erguendo os olhos.
Luca segurou o olhar dela.
– Ela pode vir quando quiser. Pelo buraco na cerca. Já dei ordem.
Elena piscou, incrédula.
– Mas por quê? O senhor nem me conhece direito. Nem conhece ela.
– Conheço o suficiente – disse Luca. – Ela dançou. E eu vi.
Ele empurrou a cadeira para trás e virou o rosto para a janela.
– Pode ir. E traz ela amanhã de novo.
Elena levantou-se devagar.
– Sim, senhor – murmurou.
Ela saiu e fechou a porta com cuidado.
Luca ficou olhando a noite que caía sobre a fazenda.
Nenhuma luz acesa no campo.
Nenhum barulho.
Mas, no peito dele, alguma coisa tinha mudado. Ele não sabia o quê. Só sabia que era real.
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