"O Anel Verde Que Voltou do Túmulo" Capítulo 3
Camila chegou às oito da manhã.
Não usava uniforme. Entrou com uma bolsa para documentos, cumprimentou Sofia e esperou a menina sair com a avó de uma colega antes de abrir o notebook.
— A perícia original tem problemas — disse. — O laudo descreve uma única vítima. Os bombeiros registraram dois cintos de segurança travados.
Helena se sentou.
— Dois cintos.
— Motorista e passageira. O banco do passageiro estava deslocado para trás. Há sangue de dois tipos, mas só um foi testado.
Alexandre ficou de pé atrás da cadeira dela.
— Por que não fizeram DNA?
— Fernando reconheceu o corpo e entregou prontuário odontológico. O dentista que confirmou os dados saiu do país meses depois.
Camila abriu a imagem digitalizada do laudo. O nome de Marta aparecia apenas numa nota sobre pertences pessoais.
— A família dela recebeu o quê? — Helena perguntou.
— A empresa informou que Marta havia pedido demissão antes da viagem. A mãe acreditou que ela tinha ido para o Chile.
— Durante oito anos?
— Marta costumava desaparecer por semanas. Fernando depositou dinheiro mensalmente para a mãe dela por uma fundação.
Helena levantou e foi até a pia. Abriu a torneira, molhou as mãos e desligou sem usar a água.
— Meu pai pagou pelo silêncio de todos.
— Pagou para evitar perguntas — corrigiu Camila. — Ainda precisamos provar o motivo.
Alexandre abriu a pasta na seção financeira. As transferências começavam dez anos antes do acidente. Valores pequenos saíam da Serrano Equipamentos e atravessavam três empresas até chegarem a contas no Porto e em Lisboa.
— Lúcia trabalhava na auditoria interna — disse Helena. — Ela me falou que os números não fechavam. Eu achei que reclamava do nosso pai.
— Ela chegou a mostrar documentos?
— Marcou um jantar. Cancelou no mesmo dia.
— Data?
Helena procurou nas mensagens antigas. O telefone atual não guardava oito anos de conversas, mas seu e-mail tinha uma confirmação de reserva. O jantar seria dois dias antes do acidente.
Camila anotou.
— Ricardo deixou Campinas ontem à noite. O carro passou por um pedágio na direção de São Paulo e voltou três horas depois.
— Ele sabe que Alexandre iria encontrá-lo.
— Sabe mais. Mandou isto para um número pré-pago.
Camila mostrou uma foto recebida durante a madrugada. Era uma folha manuscrita dentro de um saco de provas. A letra de Lúcia atravessava a página em linhas inclinadas.
"Se algo acontecer comigo, procure Ricardo. Ele sabe quem mexeu no carro."
Helena aproximou o rosto da tela.
— Onde estava?
Alexandre respondeu:
— No mesmo cofre do anel.
Ela virou para ele.
— Você encontrou a nota também?
— Encontrei o saco fechado. Camila pediu que eu não abrisse.
— E decidiu que isso não importava quando falou comigo ontem.
— Eu estava tentando organizar…
— Para de organizar a minha reação.
Sofia havia dito quase a mesma coisa na porta: você sempre fala isso. Promessas repetidas até perderem o peso.
Alexandre puxou uma cadeira e se sentou diante dela.
— Eu recebi a primeira ligação sete semanas atrás. Osvaldo falou do anel e do cofre. Procurei Camila no mesmo dia. A partir daí, ela limitou o que eu podia contar.
Camila fechou o notebook.
— Eu pedi sigilo sobre a operação. Não pedi que ele mentisse sobre cada viagem.
Alexandre aceitou o golpe sem desviar os olhos.
— Eu achei que conseguiria entregar a verdade inteira.
— Verdades inteiras chegam tarde — disse Helena. — Mentiras chegam todos os dias.
O telefone de Camila tocou. Ela atendeu e caminhou até a sala. Voltou com o rosto mais fechado.
— Encontraram o mecânico da fotografia.
— Sérgio?
— Continua na empresa. Tentou sair pelo estacionamento quando nossa equipe chegou. Levava um passaporte, dinheiro e um telefone sem registro.
— Prenderam?
— Detiveram para averiguação. No aparelho há chamadas recentes para Portugal.
Alexandre se levantou.
— Para quem?
— Um homem usando o nome Artur Mendes. A foto do cadastro é de Manoel Valdez.
O pai de Alexandre havia sido cremado cinco anos antes. Helena estivera na cerimônia, ao lado do marido. A urna permanecia no jazigo da família Valdez.
— De quem eram as cinzas? — ela perguntou.
Alexandre apoiou a mão no encosto da cadeira.
— O hospital disse que o corpo foi liberado diretamente para a funerária.
Camila já digitava.
— Qual hospital?
— Uma clínica particular em Santos. Fechou no ano seguinte.
— Quem assinou a identificação?
Ele demorou a responder.
— Fernando.
Os dois pais tinham construído a empresa juntos, assinado contratos juntos e organizado as próprias mortes com o mesmo homem como testemunha.
Camila guardou o notebook.
— Ricardo marcou encontro num posto desativado perto de Campinas. Disse que só fala com Helena e Alexandre.
— Pode ser uma armadilha — disse Alexandre.
— Minha equipe chega antes. Vocês entram depois.
Helena foi ao quarto, trocou a blusa e vestiu o casaco. Colocou o anel num cordão, por dentro da roupa. Quando voltou, Alexandre esperava junto à porta, sem a mala.
— Você pode ficar com Sofia — ele disse.
Helena pegou a chave do carro da mão dele.
— Não volta a decidir por mim.
Camila abriu a porta.
No elevador, o telefone dela recebeu uma mensagem de voz. Ricardo falava baixo, quase sem ar.
— Tragam o anel. É a única coisa que Lúcia disse que Manoel nunca poderia encontrar.
Antes de partirem, Camila entregou a Helena um telefone temporário e recolheu os aparelhos pessoais. Explicou que alguém consultara o itinerário de Alexandre dentro do sistema da empresa.
— O acesso veio da credencial de Sérgio — disse. — Se Ricardo mudou de lado ou está sendo seguido, o encontro pode fechar rápido.
Alexandre tentou pedir que Helena esperasse no carro. Ela ergueu a chave que tomara dele.
— Você já fez essa pergunta.
Ele passou para o banco do passageiro.
No caminho, Sofia enviou um áudio pelo telefone da avó. Contava que havia colocado o desenho na geladeira e perguntava se o círculo verde era bonito. Helena ouviu duas vezes e respondeu apenas que voltariam para jantar.
Camila observou pelo retrovisor.
— Crianças notam as coisas antes de saber o nome delas.
— Ela percebeu que o pai sairia levando algo escondido.
— E fez barulho. Isso costuma salvar mais gente do que silêncio.
Ao se aproximarem do posto, uma caminhonete preta passou na direção contrária. Alexandre acompanhou o veículo pelo espelho. A placa estava coberta de barro.
Camila informou a equipe. Um agente respondeu que a mesma caminhonete havia circulado pela casa de Ricardo na noite anterior.
Helena tocou o cordão sob o casaco. O anel deixara de ser lembrança. Alguém ainda o procurava.
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