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"O Anel Verde Que Voltou do Túmulo" Capítulo 2

正文开头

Alexandre fechou a mala e a empurrou para longe da porta.

Sofia apareceu no corredor segurando um desenho. Os três ficaram imóveis, como se a folha pudesse registrar tudo que havia mudado na sala.

— Você ainda vai viajar? — ela perguntou.

— Hoje, não — disse Alexandre.

Sofia correu até ele. Alexandre a levantou e a segurou contra o peito. Helena recolheu os cacos da xícara em silêncio, guardou o anel num saco transparente e levou a pasta para a mesa.

Depois do jantar, Sofia dormiu no sofá com a cabeça no colo do pai. Helena desligou a televisão e fez um gesto para que Alexandre a acompanhasse até a cozinha.

— Começa pelo anel.

Ele abriu o relatório da funerária.

— Há duas semanas, um antigo funcionário procurou meu escritório. Está com câncer e decidiu revisar coisas que guardou da época em que trabalhava para a família Serrano.

— Nome.

— Osvaldo Reis.

— Eu conhecia todo mundo no funeral.

— Ele ficou na sala de preparação, não no velório.

Alexandre mostrou uma ficha de controle. Fernando entrara às 6h42, antes da abertura do salão. Saíra às 7h03. No campo de observações, alguém escrevera: "ajuste familiar autorizado".

— Osvaldo viu seu pai retirar o anel — disse Alexandre. — Fernando colocou a joia num envelope e mandou refazer a luva da mão direita.

Helena tocou o plástico que protegia o anel.

— Por que Osvaldo não falou?

— Fernando pagou a dívida da casa dele na semana seguinte.

— E agora resolveu criar consciência?

— A esposa morreu. O filho não fala com ele. Talvez tenha cansado de proteger gente morta.

Helena virou a ficha. Havia uma cópia de transferência feita por uma empresa ligada ao pai.

— Onde Alexandre encontrou a joia? — ela perguntou, usando o nome dele como se falasse com um estranho.

Ele aceitou a distância.

— No cofre de Fernando. O escritório que administra o espólio pediu minha assinatura para liberar caixas antigas. Seu nome também constava, mas o aviso foi para um endereço errado.

— Que conveniente.

— Eu fotografei tudo antes de tocar. A delegada Camila recebeu as imagens e autorizou a retirada depois que Osvaldo prestou depoimento.

— Então a polícia sabe.

— Uma equipe pequena. Ela não queria alertar ninguém da empresa.

Helena puxou a fotografia do carro.

— Sérgio Molina ainda trabalha lá.

— Sim.

— Ele cuidava da frota quando Lúcia morreu.

Alexandre colocou sobre a mesa uma foto de arquivo. Sérgio estava agachado ao lado do veículo dois dias antes da viagem.

— O registro diz revisão de rotina. A oficina não emitiu nota e a câmera do pátio ficou desligada por seis horas.

— Meu pai assinava as despesas da frota.

— Fernando assinava quase tudo.

Helena fechou os olhos por um instante. Lembrou-se da manhã do funeral, do pai decidindo quais flores ficariam perto do caixão, quem poderia entrar na sala reservada, quanto tempo cada pessoa teria para se despedir. Na época, controle parecia a única forma que Fernando conhecia de suportar a perda.

正文1

Agora cada ordem ganhava outra função.

— Quero ouvir Osvaldo.

— Amanhã.

— Hoje.

— Ele está internado em Sorocaba.

— Então ligamos.

Alexandre enviou uma mensagem para Camila. A resposta veio dois minutos depois: chamada às nove, com registro e autorização do depoente.

Enquanto aguardavam, Helena foi ao quarto de Sofia. A menina dormia atravessada na cama, com o desenho preso debaixo do braço. Helena puxou a folha devagar. Era a família diante de uma porta. Alexandre tinha uma mala vermelha. Na mão de Sofia havia um círculo verde.

Helena colocou o desenho na escrivaninha.

— Ela viu você mexendo no casaco? — perguntou quando voltou.

— Eu deixei sobre a cadeira. O saco com o anel estava no bolso interno. Ela procurava um lenço.

— Você trouxe uma prova para dentro de casa e largou ao alcance dela.

— Foi um erro.

— Mais um.

Ele assentiu.

A videochamada começou. Camila apareceu primeiro, sentada numa sala branca. Depois incluiu Osvaldo, deitado numa cama hospitalar.

O homem tinha dificuldade para respirar, mas reconheceu Helena.

— Você tem os olhos da sua mãe.

— Diga o que viu.

Osvaldo explicou que Fernando chegara antes de todos, pedira privacidade e removera a joia. Ao sair, ordenou que ninguém registrasse o objeto entre os pertences devolvidos.

— Ele disse por quê? — Camila perguntou.

— Falou que o anel era prova de uma vergonha.

— Que vergonha?

— Não disse.

Osvaldo tossiu e virou o rosto. Uma enfermeira ajustou o oxigênio.

— O corpo foi identificado por quem? — Helena perguntou.

— Pelo seu pai. E por uma bolsa encontrada no carro.

— Eu também vi o rosto.

Osvaldo demorou a responder.

— O rosto estava muito ferido, dona Helena.

A chamada terminou pouco depois. Camila pediu que ninguém procurasse Sérgio por conta própria. Ela verificaria o arquivo original da perícia e o paradeiro de Ricardo.

Alexandre levou Sofia para a cama. Quando voltou, encontrou Helena diante da janela, com o anel na mão.

— Por que meu pai chamou isso de prova de uma vergonha?

— Talvez Lúcia tenha descoberto o dinheiro.

— O anel não prova fraude.

Helena examinou o risco na pedra. Lúcia sempre tirava a joia para dirigir. Dizia que o aro batia na alavanca do câmbio.

— Ela não estaria usando isso no carro.

Alexandre parou.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele puxou o inventário dos objetos recuperados. O anel não estava listado. Uma bolsa, dois celulares queimados, um casaco de Lúcia e documentos de Marta Ruiz apareciam na mesma página.

Helena aproximou a folha da luz.

— Marta viajou com ela.

— A empresa disse que ela desistiu na última hora.

— Quem disse?

Alexandre virou a página.

A declaração estava assinada por Fernando Serrano.

Na manhã seguinte, Helena telefonou para o cemitério. Pediu o registro de abertura do jazigo e recebeu uma resposta burocrática: qualquer exumação exigiria ordem judicial. Ela não pediu a exumação. Perguntou apenas se o caixão continuava lacrado.

O funcionário consultou o sistema.

— Houve manutenção no jazigo três anos atrás, depois do enterro do senhor Fernando.

— Abriram o compartimento da minha irmã?

— Consta inspeção de umidade. A funerária Valença executou o serviço.

Era a mesma empresa que preparara o corpo e cremara Manoel.

Helena anotou o nome do responsável. Quando desligou, Alexandre já procurava a empresa no notebook. O cadastro havia sido encerrado, e o proprietário morava em Portugal.

— Mais uma coincidência? — ela perguntou.

— Mais uma porta paga.

Helena pegou a ficha de Marta. Havia um telefone antigo de emergência. Ligou e ouviu a voz de uma senhora.

— Sou Beatriz, mãe da Marta.

Helena perdeu a frase preparada. Disse que revisava arquivos da empresa e precisava confirmar se Marta viajara com Lúcia.

— Viajava — respondeu Beatriz. — Ligou da estrada. Depois a empresa disse que ela tinha ido embora e pediu que eu não procurasse.

Helena agradeceu e encerrou antes de prometer algo que ainda não podia provar. Na mesa, a assinatura de Fernando parecia mais escura.

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