"O Anel Verde Que Voltou do Túmulo" Capítulo 1
Sofia abraçou a cintura do pai quando a mão dele já estava na maçaneta.
Alexandre se desequilibrou um pouco. A mala bateu no rodapé e ficou inclinada junto ao aparador.
— Pai, eu não quero que você vá.
Helena parou do outro lado da cozinha, com a xícara a poucos centímetros da boca. A cafeteira ainda chiava atrás dela. Na tela do celular, o calendário mostrava dois dias marcados em azul: reunião em Campinas, retorno na sexta.
— São só dois dias, meu amor — disse Alexandre.
Sofia apertou mais os braços.
— Você sempre fala isso.
Ele soltou a maçaneta e colocou a mala em pé. A discussão da noite anterior voltou inteira para Helena: passagens compradas antes de qualquer conversa, chamadas atendidas na varanda, respostas curtas quando ela perguntava sobre o trabalho. Ela havia prometido a si mesma que não começaria outra briga diante da menina.
Alexandre se abaixou diante da filha.
— Eu volto na sexta. Antes de você sair da escola.
— Não.
— Por que tanto medo?
Sofia olhou para Helena. Depois abriu devagar a mão direita.
A xícara escapou.
A porcelana branca explodiu no piso, espalhando café junto aos pés de Helena. Ela atravessou a cozinha sem olhar para os cacos.
Na palma da filha havia um anel de ouro com uma pedra verde oval. Um risco fino cortava a lateral da gema. Helena conhecia aquela marca. Lúcia batera a mão numa quina de mármore durante uma festa de família e passara meses dizendo que o defeito deixava a joia mais bonita.
Helena tomou o anel entre dois dedos.
— De onde você tirou isso?
Sofia apontou para o pai.
— Do bolso do papai.
Alexandre perdeu a cor. Ficou imóvel por um segundo e então fechou a porta.
Helena girou a peça. As letras L.S. continuavam gravadas no interior do aro.
Oito anos antes, ela mesma havia colocado aquele anel no dedo da irmã, dentro de um caixão branco. Lúcia estava coberta até o peito por flores, e o rosto reconstruído pelo funeral parecia pertencer a uma lembrança mal acabada. Fernando segurara Helena pelos ombros enquanto ela encaixava a joia.
"Ela não gostaria de ficar sem ele", Helena dissera.
O pai não respondera. Apenas fechara a mão sobre a tampa do caixão.
Agora a joia estava quente da palma de Sofia.
— Isso estava no seu casaco? — Helena perguntou.
Alexandre olhou para o corredor. A porta do quarto da filha permanecia aberta.
— Sofia, vai desenhar um pouco. A mamãe e eu precisamos conversar.
— Eu fiz alguma coisa errada?
Helena se ajoelhou e segurou os braços dela.
— Você fez certo em mostrar. Vai para o quarto e deixa a porta aberta.
Sofia caminhou pelo corredor olhando para trás. Quando desapareceu, Helena levantou o anel na altura do rosto do marido.
— Fala.
Alexandre passou a mão pelo cabelo.
— Eu ia contar quando voltasse.
— Voltar de onde?
— Campinas.
— Você disse que era uma reunião.
Ele baixou os olhos para a mala.
— A reunião existe. Só não é sobre o meu trabalho.
Helena fechou os dedos em torno do anel.
— Eu vi essa joia dentro do caixão. Não numa fotografia. Eu toquei a mão da minha irmã.
— Lúcia não foi enterrada com o anel.
— Eu coloquei no dedo dela.
— Alguém retirou antes do enterro.
O barulho de lápis rolando no quarto de Sofia chegou pelo corredor. Alexandre esperou até ouvir a menina recolhê-los.
— Seu pai tirou o anel.
Helena riu uma vez, sem humor.
— Meu pai estava ao meu lado o tempo todo.
— Ele ficou sozinho com o caixão por vinte minutos. O funcionário da funerária anotou a entrada dele.
— Fernando morreu há três anos. É fácil acusar quem não pode responder.
Alexandre levou a mala até o banco do aparador, abriu o zíper e retirou as roupas dobradas. Debaixo delas havia uma pasta preta presa por elástico.
— Eu não comecei por ele.
Helena não tocou na pasta.
— Há quanto tempo você está fazendo isso?
— Sete semanas.
— E há quanto tempo está mentindo sobre suas viagens?
Ele abriu a pasta. Havia cópias de extratos, fotografias do carro destruído e o relatório do acidente na Serra da Mantiqueira.
— Eu precisava confirmar antes de colocar você no meio.
— Eu já estava no meio. Era a minha irmã.
Alexandre apoiou as duas mãos no aparador.
— Eu sei.
— Não. Se soubesse, teria me contado no primeiro dia.
O celular dele vibrou dentro da mala. O nome "Ricardo Serrano" apareceu na tela e desapareceu antes que Alexandre atendesse.
Helena viu.
— Meu tio?
— Ele pediu para me encontrar hoje.
— Por isso você estava saindo.
Alexandre retirou a primeira fotografia. A imagem mostrava a roda traseira do carro de Lúcia. Um círculo vermelho destacava uma peça cortada.
Helena se aproximou.
— O que é isso?
— A mangueira do freio.
— Rompeu na queda?
— O corte foi feito antes.
Helena pousou o anel sobre a fotografia. A pedra verde ficou exatamente acima da linha escura no metal.
— Sabotagem?
— Sim.
Ela ergueu os olhos.
— E meu pai sabia.
Alexandre abriu a boca, mas o telefone vibrou de novo. Dessa vez, uma mensagem ocupou a tela.
"Não venha sozinho. Manoel descobriu que você está procurando."
Helena leu antes que ele virasse o aparelho.
Manoel Valdez, pai de Alexandre, estava morto havia cinco anos.
Ela pegou a mensagem da mão do marido.
— Seu pai também está nisso?
Alexandre não respondeu.
No quarto, Sofia chamou pelo pai.
Helena manteve o telefone entre os dois.
— A mala fica. Você também.
Alexandre não discutiu. Tirou o casaco, esvaziou os bolsos sobre o aparador e colocou ali carteira, chaves e dois recibos de pedágio. Helena encontrou entre eles um comprovante de estacionamento emitido diante do antigo prédio da Serrano Equipamentos.
— Quando esteve lá?
— Segunda-feira.
— Você disse que almoçou com um cliente.
— Encontrei o ex-chefe da segurança. Ele confirmou que Fernando mandou retirar caixas do arquivo após o acidente.
Helena fotografou o recibo e o devolveu.
— A partir de agora, você conta antes de sair. Não depois de ser descoberto.
Alexandre recolheu apenas a carteira. As chaves permaneceram sobre o móvel.
No quarto, Sofia chamava de novo. Helena entrou com o anel escondido no punho. A menina estava sentada no tapete e alinhava lápis por cor.
— O papai fez coisa ruim?
Helena sentou ao lado dela.
— Ele guardou uma coisa importante e devia ter contado.
— Ele vai embora?
— Hoje, não.
Sofia escolheu o lápis verde e voltou ao desenho. Helena observou o círculo surgir na mão da figura infantil. A filha não sabia o que havia impedido. Ainda assim, agarrara o pai antes que ele levasse sozinho uma prova até alguém que conhecia os segredos de dois mortos.
Na sala, Alexandre fechou as cortinas e colocou a pasta longe das janelas. O cuidado chegou tarde, mas chegou antes da viagem.
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